A obra A Doutrina Espírita como filosofia teogônica, de Bezerra de Menezes, ocupa um lugar singular dentro da tradição filosófico-espiritual brasileira. Não se trata apenas de um texto apologético do Espiritismo, nem tampouco de um tratado metafísico convencional. O livro ergue-se como uma tentativa audaciosa de reconciliar razão, transcendência e destino humano numa arquitetura teogônica — isto é, numa reflexão sobre a origem divina da consciência e da existência.
Bezerra não escreve como um teólogo dogmático, mas como um homem dividido entre ciência, filosofia e fé. Seu texto pulsa exatamente nessa tensão.
A primeira grande virtude da obra está no esforço de sistematização filosófica da Doutrina Espírita. Enquanto muitos autores espíritas do século XIX permaneceram presos à linguagem moralizante ou ao relato mediúnico, Bezerra procura conferir densidade ontológica ao Espiritismo. Ele tenta responder não apenas ao “como” da existência espiritual, mas sobretudo ao “porquê”. Nesse sentido, sua filosofia aproxima-se de antigas tradições neoplatônicas: o universo é concebido como uma emanação da inteligência divina, e o espírito humano surge como centelha em processo de ascensão.
Há, porém, um detalhe importante: Bezerra recusa o dualismo radical entre matéria e espírito. Para ele, a matéria não é uma prisão maldita, mas um instrumento pedagógico da evolução. Essa concepção aproxima o pensamento espírita de uma espécie de teologia progressiva, na qual Deus não cria seres acabados, mas consciências destinadas ao aperfeiçoamento infinito. A vida deixa então de ser castigo e torna-se travessia.
Santo Agostinho ▪️ Arte: Philippe de Champaigne (1650)
A dimensão teogônica da obra aparece justamente aí. O autor procura explicar a gênese do espírito e sua caminhada cósmica sem cair no mecanicismo materialista nem no sobrenaturalismo cego. O universo de Bezerra é vivo, hierárquico e moral. Tudo possui finalidade. Tudo converge para a reintegração da criatura ao princípio divino. Há ecos evidentes de Platão, de Plotino e até mesmo de Santo Agostinho, embora reinterpretados sob a ótica kardecista.
Estilisticamente, o texto de Bezerra de Menezes possui uma eloquência grave e meditativa. Sua escrita não busca o brilho ornamental; prefere a clareza moral e a persuasão filosófica. Em muitos trechos, percebe-se o médico humanista falando acima do polemista religioso. Há uma preocupação constante em harmonizar sentimento e intelecto. O autor deseja convencer sem violentar a razão do leitor. Isso confere à obra uma tonalidade quase pastoral.
Contudo, a obra também revela limitações próprias de seu tempo. Sua confiança na teleologia universal pode soar excessivamente otimista diante das tragédias históricas e dos abismos existenciais do século XX e XXI. Além disso, certos argumentos metafísicos apoiam-se mais na intuição espiritual do que numa demonstração rigorosamente filosófica.
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Mas talvez seja justamente aí que reside sua singularidade: Bezerra escreve a partir de uma metafísica da esperança. Seu pensamento não nasce da dúvida absoluta moderna, e sim da convicção de que existe uma ordem moral secreta sustentando o caos aparente do mundo.
Em termos literários, A Doutrina Espírita como filosofia teogônica ultrapassa a simples categoria de livro religioso. A obra pode ser lida como um ensaio metafísico brasileiro, inserido numa tradição de pensamento espiritualista que raramente recebe o devido reconhecimento na crítica literária nacional. Bezerra transforma conceitos abstratos em meditações sobre dor, destino e transcendência. Seu texto frequentemente abandona o tom doutrinário para alcançar uma espécie de lirismo filosófico silencioso.
Ao final da leitura, permanece a impressão de que Bezerra de Menezes procurava mais do que defender uma doutrina: procurava salvar a dignidade espiritual do homem moderno. Seu livro ergue uma ponte entre ciência e mistério, entre racionalidade e infinito. E talvez essa seja sua maior permanência: lembrar que o ser humano não vive apenas de matéria, mas também de perguntas que nenhuma matéria consegue responder.
Filme: Bezerra de Menezes - O Diário de um Espírito ▪️ A saga do médico, político, ecologista e um dos maiores humanistas da história do Brasil: Dr. Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti, considerado 'O (Allan) Kardec Brasileiro'. Um homem que viveu à frente do seu tempo e, por isso, foi incompreendido por muitos. Descubra por que, ainda hoje, Bezerra de Menezes - O Médico dos Pobres - está mais vivo do que nunca!" (sinopse original).