Enxergar as pessoas como elas realmente são, não como gostaríamos que fossem
No começo, tudo é bruma. Sinto que a paixão tem esse poder de borrar os contornos, de transformar qualquer detalhe em algo encantador. Confesso até que, algumas vezes, amei mais a imagem que construí da pessoa que estava na minha frente. Mas com o tempo, essa névoa vai se dissipando. A convivência do dia a dia vai apagando talvez aquele brilho inicial. Aí chega aquele momento que ou começamos a ver quem ela é de verdade, ou continuamos nos enganando,
Bartlett, 1919 ▪ Honolulu Museum
quando a realidade não se encaixa no sonho que criamos.
Sei que, muitas vezes, somos nós que projetamos expectativas, esperamos que o outro supra o que nos falta. Depois, quando não corresponde, pensamos que mudou… quando, na verdade, ele sempre foi assim; é que não quisemos enxergar direito.
Mas também entendo que nem sempre é assim. Tem gente que aparece com uma máscara: mostra só o lado bonito, a versão mais amável, mais compreensiva. Nesses casos, não foi nossa cegueira: foi uma escolha do outro, para não dizer a falta de caráter do outro, de não se mostrar inteiro desde o início.
Depois de muitos erros e acertos, aprendi com um mestre chamado Tempo que, ver de verdade, é ir além da emoção do momento, além da euforia, além da admiração que fecha os olhos. É reparar nos gestos, no jeito de agir conosco, na forma como lida com o que não gosta e com as diferenças.
Arte: Charles W. Bartlett, 1919 ▪ Honolulu Museum of Art
Durante uma aula de surf, ouvi uma frase que ficou comigo. O professor apontou para o mar e disse: “As ondas podem ser mansas ou fortes, mas nunca fingem ser outra coisa.” Com as pessoas deveria ser assim também. Talvez o grande desafio não é encontrar um par, é ter coragem de olhar o outro sem filtros, porque só quando a bruma se desfaz que vemos se estávamos diante de uma paisagem ou de uma miragem criada por nossos desejos.