Boa parte do que o texto significa não se mostra explicitamente. Quando escrevemos deixamos implícitas algumas informações, e cabe ao leitor completar as lacunas. Os implícitos são basicamente de dois tipos: pressupostos e subentendidos.
O pressuposto está inscrito na língua; é uma informação indiscutível, que decorre de uma palavra ou expressão que foi explicitamente usada. Não há como fugir ao sentido que ele expressa. Já o
Foto: Nachristos
Se alguém diz a uma visita: “Finalmente você apareceu”, pressupõe-se que o interlocutor havia tempo não dava as caras; o advérbio que introduz a oração indica isso. Caso o emissor acrescentasse uma observação do tipo: “Deixou o orgulho de lado...”, estaria formulando um subentendido. A ausência do outro teria sido interpretada como soberba. O subentendido sempre envolve um julgamento, um juízo de valor, e por vezes leva à distorção da verdade.
Um exemplo disso ocorre nesta passagem de “O pagador de promessas”, a conhecida peça de Dias Gomes:
PADRE: Que pretende com essa gritaria? Desrespeitar esta casa, que é a casa de Deus?
ZÉ: Não, Padre, lembrar somente que ainda estou aqui com a minha cruz.
PADRE: Estou vendo. E essa insistência na heresia mostra o quanto está afastado da igreja.
ZÉ: Não, Padre, lembrar somente que ainda estou aqui com a minha cruz.
PADRE: Estou vendo. E essa insistência na heresia mostra o quanto está afastado da igreja.
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Nos subentendidos refletem-se valores e preconceitos da sociedade. Levei para a classe o seguinte diálogo:
– Você pretende se casar?
– Eu tenho juízo!
– Eu tenho juízo!
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Nesta outra passagem a interpretação ficou mais fácil, pois o que se subentende parte de um dos envolvidos no diálogo:
– Aquele ali teve sucesso na política.
– Já sei. Nunca foi pego.
– Já sei. Nunca foi pego.
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Como se vê, aos subentendidos geralmente se associa um efeito de humor. Um bom exemplo é este diálogo entre marido e mulher (publicado, como os dois acima, num dos meus blogs):
Ele: Querida, ontem eu menti para você.
Ela: Não se preocupe. Faço isso com você há vinte anos.
Ela: Não se preocupe. Faço isso com você há vinte anos.
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Um dos maiores riscos na redação é querer dar aos subentendidos o rigor dos pressupostos. O que se interpreta não pode ser tomado como verdade absoluta. Num texto sobre os novos papéis da mulher na sociedade, um aluno escreveu:
“O trabalho da mulher fora de casa prejudica a educação dos filhos, pois ninguém substitui a mãe nessa tarefa.”
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Problema semelhante ocorre nesta outra passagem de um texto sobre a agressão perpetrada por jovens brasilienses contra o índio Galdino:
“Cinco rapazes atearam fogo no índio Galdino Jesus dos Santos, enquanto a vítima dormia numa parada de ônibus em Brasília. Esse fato, mesmo ocorrido há 18 anos, revela que os índios são vistos por grande parcela dos brasileiros não como compatriotas, mas como uma sociedade à parte.” (Redação de aluno).
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Falhas como essa fazem com que muitas redações sejam penalizadas por excesso de subjetivismo e por seu efeito correlato, qual seja, uma avaliação distorcida da realidade. Devem a todo custo ser evitadas, pois ninguém pode se expressar bem sobre o que avalia mal.












