Os do meu tempo lembrarão de uma época em que saíamos tarde da noite para fazer serenatas em frente às casas das namoradas. O normal era levar alguém que soubesse tocar violão, e quem podia mais ousava levar os gêmeos que tocavam violino ou até mesmo um piano na carroceria de uma caminhonete. Tudo isso eu presenciei, e aquele tempo não voltará por muitas razões. Uma delas seria fazer uma serenata para o amor que mora no oitavo andar de um prédio. Os vizinhos imediatamente chamariam os órgãos públicos para acabar com o “barulho”. Na verdade, o romantismo toca outros ritmos hoje em dia. Mas não é nada disso que eu queria contar; porém, a preguiça não me deixa apagar esse introito.
Segundo Tom Cardoso, deu-se que Paulo Machado de Carvalho (sua vida daria um filme incrível), fundador da TV Record, um dia foi procurado por Almirante, compositor a quem devia favores pelo fato de o músico sempre levar grandes atrações à sua TV. O pedido era simples: uma homenagem aos 57 anos de Pixinguinha. Só que, numa conversa de bar, Aracy de Almeida sugeriu que, além de Pixinguinha, também participassem outros astros da velha guarda. Pois não é que Paulo Machado topou? Jamais se viu uma concentração tão grande de talentos num mesmo ônibus vindo do Rio de Janeiro: Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Bide da Flauta, Bororó, Benedito Lacerda e um pirralho de apenas 16 anos: Baden Powell.
Organizou-se o I Festival da Velha Guarda, que foi um enorme sucesso na televisão, transmitido ao vivo do Parque do Ibirapuera.
Ocorre que, desde a chegada a São Paulo, os músicos ensaiavam tomando todo tipo de bebida alcoólica, e não foi diferente durante a apresentação. Choravam por motivos “bobos”, como, por exemplo, ouvirem Donga cantando seu samba “Pelo Telefone” (o primeiro a ser gravado no Brasil), acompanhado por Pixinguinha, João da Baiana e outros bambas.
Na madrugada de domingo, quando voltariam para a rodoviária, resolveram fazer uma serenata para o Dr. Paulo Machado, em agradecimento à oportunidade. Porém, avisados de que ele dormia muito cedo, dirigiram-se à casa do filho, Paulinho, que era diretor artístico da televisão. Ora, àquela hora tardia, Paulinho também dormia com a esposa quando foi acordado pelo grupo liderado por Pixinguinha, cantando “Carinhoso” em frente ao seu portão. Convidou-os para entrar, e lá ficaram numa serenata que só terminou às 6 da matina, quando, enfim, os músicos embarcaram para o Rio.
Nunca houve nada igual. Paulinho era só felicidade, até que descobriu, no dia seguinte, que sua bem abastecida adega havia se transformado num quarto vazio.
Se desejar, também posso fazer uma revisão de estilo, tornando a leitura mais fluida sem alterar a personalidade do texto.







