Ao querido amigo Alexei Bueno
(in memoriam)
(in memoriam)
A notícia me pegou desprevenido. À mesa, às seis e meia, no início do café da manhã do sábado. O poeta Alexei Bueno morreu, em sua casa, no Rio de Janeiro. Não podia ser. Não era possível. Na segunda-feira, dia 22 de junho, encontrava-me em Solânea, quando recebi uma notificação da portaria de meu prédio, com a foto de uma correspondência, sem identificar o conteúdo ou o remetente. Ao retornar a João Pessoa, na quarta-feira, 24 de junho, vi que se tratava de um livro de Alexei Bueno. Jamais poderia desconfiar que seria o último que o poeta publicaria em vida, O poste: auto sacramental em dois atos, pela Editora Anadiômene, que desde 2024 publicava os seus livros (desconfio existir muita coisa a ser publicada no seu acervo...). Não deu tempo sequer de agradecer ao amigo querido. Como pensar que ele se iria, assim, tão de repente? Mal havia me recuperado da leitura impactante de seu último livro de poesia, A chave quebrada (2026). Ainda ecoavam na minha memória os versos de fluxo inestancável de O irrefreável (2025), poema em forma de um quase fracassado diálogo com um rio de sua memória, afinal “o fluir é para nós uma porta que se fecha”.
Não. Não podia acreditar que tivesse morrido o meu amigo. Conversávamos frequentemente por telefone. A penúltima conversa que tivemos foi há pouco mais de um mês, dia 04 de maio, depois que retornei de uma longa viagem ao exterior. Falávamos de um site sobre escritores brasileiros, cheio de erros crassos, alguns ridículos, que ele definiu como “uma mistura de Mendes Fradique, Febeapá e Casseta & Planeta...”. Desculpei-me por responder com atraso, sobretudo, em acusar o recebimento do seu livro, A chave quebrada, devido à viagem, obtendo em resposta a seguinte saudação carinhosa:
“Muito obrigado, querido amigo!
Bom retorno a este nosso país complicado, neste mundo pior ainda...
O maior abraço!”
A última conversa que tivemos, foi no dia seguinte, dia 05 de maio, quando lhe enviei o meu texto sobre a Via di Ripetta ("Não há ninguém na estrada da Ripetta" | Ambiente de Leitura Carlos Romero), gestado na viagem a Roma, fazendo a conexão com o “Poema Negro” de Augusto dos Anjos, paixão literária que nos ligava, tanto quanto a poesia de Camões. Ele não só gostou como enviou o texto para Arnaldo Saraiva, que se encontrava em Roma, e teve a triste notícia da morte do irmão. A “Indesejada das gentes”, na passagem do irmão de Arnaldo, com certeza, já cercava o poeta...
A pesarosa notícia me tomou. Passei a refletir sobre o que somos nós, meu amigo. Rio de nome dúbio – “Trapicheiro? Trapicheiros?” –, “escravos do declive”, numa “jamais frustrada descida para o mar”, no nosso caso, para a morte? Ou a chave quebrada, que, quando íntegra, fechou e abriu portas, cerrou e descerrou segredos, velou e desvelou mistérios, e agora, inútil, vive apenas da lembrança do que fora?
Se não tivesse crença alguma, meu amigo, diria, com o teu desaparecimento repentino, como dizes, na tua irrefreável voz, fluxo eterno do teu rio – “Que péssima comédia a vida humana”, porque “nós, quando somos, não seguimos nada, e mais do que tudo nós não somos nada”, em busca de uma resposta, cuja única é o fluir da vida, como o rio, “monolítica muralha de silêncio”.
Para a tua pergunta – “Nós fluímos, e não fica nada?” –, respondo-te que, sim, fica, sempre permanece algo de nós, nas obras que deixamos, naqueles que nos são caros, e a certeza disso está em tua própria resposta do que somos – “Formamo-nos de uma coleção de nossas ausências”. Quanta beleza nesse verso, meu amigo. Não se poderia falar melhor sobre o que é o carinho ou a amizade.
Nos últimos dois anos, acompanhei-te, nos livros que me enviavas, sempre com dedicatórias amáveis, como o Camões em nós, por nós (2024), construído com quadras lapidares, cuja leitura me deliciou:
Dos coleios viperinos
Dos bípedes, mais funestos
Que as víboras, com seus gestos
Polidos, seus modos finos.
O canto exato e perfeito
Que foi teu, por dom gratuito,
Mas tal milagre fortuito
É o sangue do nosso peito.
Que une o nobre peão e ao santo,
De alta estirpe ou nenhum berço,
Gládio fizeste do verso,
Mirífico e amargo canto.
Uma luz sem tempo, de antes,
Que a mudança não atinge,
Que cega a Górgona e a Esfinge,
Que soma mais que os instantes.
Outra coisa é ler esse poema magnífico junto com o insuperável soneto “A Última Visão” (Camões, além do desconcerto, Santarém, Portugal, Rosmaninho Editora de Arte, 2024), cuja cadência se dá exatamente entre as pausas do aparentemente apenas descritivo ou referenciado, mas guardando uma narrativa, ao mesmo tempo ausente e presente, para quem tem uma certa intimidade com Camões, a sua vida e a sua poesia. Como não se extasiar com esta Ultima Visio? Como evitar que cada termo ali, preso na sua solidão, nos arranque da memória e do peito toda uma essência lírica e épica que se faz inefável, daí a necessidade apenas de referi-la, não de dizê-la? Para que outras pessoas possam se deliciar com o interdito desse teu soneto, belíssimo na perfeita consonância da construção e da substância, reproduzo-o abaixo:
A Última Visão
É a hora de partir. Quão breve chega.
Tudo subitamente se amontoa...
Tejo, Mekong, Mondego, a musa grega,
O Rossio, os bordéis, Ceuta, Lisboa.
Naufrágios. Jogo. Oceano. A vista cega.
Bárbara. Dinamene. Uma coroa
Na areia. O mar. A praia que se entrega.
Os sinos de Sant’Ana. A praça em Goa.
Os versos. Prensas. Autos. Céus. Semblantes
De pedra. Os pais. Arruaças. Cães. Cadeias.
A espada sob o sol. Seios de amantes.
O Olimpo. O Letes. Náiades. Sereias.
Tudo passou em menos de uma hora.
Só Deus sabe o que principia agora.
Sim, só Deus sabe o que principia agora, quando nos vemos privados de tuas contribuições ímpares, na edição de livros, na fixação de textos, na tradução, na crítica... São tantas, meu amigo, oriundas de tua mente sempre em ebulição, que não hesito em afirmar a tua genialidade, o teu incansável labutar cultural, a tua erudição, a tua memória invejável, guardando tesouros, como as incontáveis estrofes de Os Lusíadas. O teu discurso – Camões, 500 anos, o tempo acorrentado –, apresentando no Real Gabinete Português de Leitura, em 10 de junho de 2024, em homenagem aos 500 anos do poeta, é a pérola que faltava na maravilhosa joia apresentada pelas quadras de Camões em nós, por nós e no já referido soneto “A Última Visão”. É texto para se ler mais de uma vez, de maneira a sentir a real importância dessa pérola que ostenta, com muito brilho a grandeza do poeta, de um Camões vivo, como sempre esteve em vida, e ainda muito mais do que os muitos que se julgam poetas.
Mais uma vez, permaneces, na oportunidade dupla que a Fortuna colocou diante de mim: de termos dividido uma mesma mesa sobre Camões, há 2 anos, e de você ter-me proporcionado a leitura de tão belos versos sobre o poeta, e de tão consistente texto sobre a sua vida e a sua obra. Poeta que ressoa e se eterniza dentro de nós, como dizem os versos desta quintilha de Camões, além do desconcerto:
Mestre, não sei se é consolo,
Todos nós marchamos sós,
Mas é em nós que a tua voz
Vibra, não no coevo tolo
Que de Olisipo é hoje o solo.
Em Naquele remoto agora (Anadiômene, 2024), livro que presentifica o nada, verifica-se melhor o teu espírito de poeta, de homem de cultura, que vive o turbilhão da vida, com o tempo a consumir-se e a edificar-se em conhecimento; homem deslocado do mundo, odiando a futilidade; odiando, ainda mais, a fatuidade dos ignorantes que se autoproclamam intelectuais, tais quais aquela montanha da famosa fábula que pariu um rato... Na tua verve sempre afiada, não tinhas qualquer censura, quanto a isso. Sim, um deslocado, em embate com o mundo. Era assim que te via, era assim que te admirava, por saber que viver, sem tempo para falar de doença, era entregar-te a tua produção, a um só tempo, alucinada e lúcida (nunca me falaste nada! Da postagem do teu último livro, para a tua passagem, foram poucos dias...).
O estabelecimento do texto crítico de Augusto dos Anjos, na edição da Nova Aguilar (1994), por exemplo, é divisor de águas, imprescindível, para o estudo da obra do poeta. É um poeta com a consciência profunda da língua, debruçando-se sobre outro poeta, que não a conhecia menos, ambos usufruindo das imensas possiblidades que a linguagem, em suas múltiplas faces, apresenta. Tomo, portanto, as palavras do poema “Saudação” (Naquele remoto agora), transferindo-as de ti, para ti:
“Só a ti, poeta, foi destinado
Entre o esplendor o âmago da dor.”
Sei que me alongo, querido amigo, mas haveria ainda tanto a te dizer! Como gostaria de ter tido tempo de comentar contigo esse épico ao contrário, que é A chave quebrada, quando, sem trocadilho, trazes o banal, como chave desse belo poema. O glorioso ficou para trás, restando a vida mesquinha e comezinha, à procura da outra chave, a de uma vida que se esvaiu e ainda se esvai, enquanto vivemos presos em um movimento cósmico e eterno, em busca de um sentido que não vem:
“(As chaves giram, os elétrons giram, giram os ponteiros, os planetas giram,
E as nebulosas
Particularmente giram.
Um ritmo comanda tudo, e nós presos dentro dele)”
Ah, meu amigo, como seria bom poder conversar contigo sobre a fluência de um rio irrefreável – “Trapiche? Trapiches?” – e a inércia de uma chave quebrada, mas agindo sobre a nossa aflitiva existência! Não teremos mais essa conversa, não te verei ao meu lado na publicação de nossa edição conjunta do Eu e outras poesias, de Augusto dos Anjos, que organizamos para A União; não verás a nova edição da obra completa de poeta do Pau d’Arco, pela Global, que fizeste; não comeremos aquele mocotó, que prometi cozinhar, quando aqui retornasses... Infelizmente, vivemos um momento em que o tempo fecha as portas e elas já não se abrem:
“Nenhuma porta que se fechou foi aberta jamais.
Que alguém responda.”
Não há resposta. O inacreditável se impõe. Inexorável. Silencioso.







