A opinião é um ganho civilizatório. É uma forma educada de contestar os outros. Quem opina discorda (afasta-se pelo coração), mas a vida é assim mesmo. Nem compre a concórdia é possível num universo em que são tão diversos os fatos e as pessoas. Ao afirmar que toda unanimidade é burra, Nelson Rodrigues traduziu o essencial: uma verdade se afirma, sobretudo, pelo que ela contesta. Como o outro lado, por sua vez, também não abdica de contestar, espera-se chegar a uma provisória pacificação pelo equilíbrio das diferenças.
Assim como para escapar de um vício é preciso “evitar a primeira vez” (no dizer de Rousseau), para adquirir um bom hábito é preciso começar a praticá-lo. No começo está sempre uma promessa de continuidade. É mais fácil deixar de fazer o que não se começou.
Hoje as pessoas aceitam que o que compram pode fazê-las felizes. Nossa sensibilidade de
consumidores é moldada pelo que gratifica, sobretudo, em termos materiais. Isso explica por que o dinheiro é o deus supremo. Sem ele nada se tem e, por extensão, nada se é. Atualmente tudo se mercadeja, inclusive a religião. É verdade que “a Graça” nunca veio de graça, mas antes tinha pela menos um aspecto desprendido e piedoso, que disfarçava suas motivações venais.
O mercado sempre pega uma carona mesmo que o veículo esteja na contramão dos seus propósitos. Por exemplo: no filme “Barbie”, o cor-de-rosa remete à falência das ilusões associadas à imagem da boneca. É estranho que na vida real se reproduza, por adereços e vestimentas, um cenário que a película procura ironizar. Ou o pessoal não entendeu nada, ou entendeu e (mesmo sem querer) tomou o partido da ironia e da carnavalização.
A Inteligência Artificial promete facilitar a vida de engenheiros, administradores, profissionais de saúde, enfim, dos que podem
contar com a sua amplidão de processamento informacional para fazer cálculos e manipular instrumentos. Nessas áreas, é praticamente certo o seu nível de acerto. Em outras, ela pode se tornar um perigo. Isso porque, quando erra, a IA tem a inflexibilidade de um burro teimoso. Como foi moldada para apresentar determinadas respostas, e só elas, não pode se corrigir. Ou seja, não tem consciência, que é justamente a capacidade de se reconhecer em erro, “voltar atrás” e criar novos padrões de comportamento.
O esporte, que é por definição uma alternativa à guerra, acaba espelhando com ânimo bélico as contradições da vida. A recente Copa do Mundo mostrou isso com a sua profusão de agressões e ardis promovidos por quem deveria, em princípio, respeitar as regras.
Espera-se que, se na guerra vale tudo, no esporte se demonstre respeito pelos oponentes e o reconhecimento dos melhores sem ressentimentos nem deslealdade. Infelizmente, muitos trabalharam para que não fosse assim. E não deixou de ser irônico, num evento em que os embates visam sublimar nossos impulsos homicidas, que a premiação aos vencedores tenha saído feita por um presidente que no momento patrocina uma guerra real.