O verso é instigante, seja pelo fato de a elisão entre “na” e “estrada” permitir a pausa da sexta sílaba, própria do decassílabo heroico, seja pelo fato de que, isoladamente, o trecho “na estrada da Ripetta” é um heptassílabo perfeito. O poeta, no entanto, conhece o material que maneja; sabe como domar o metro em favor do ritmo e, sobretudo, sabe que a musicalidade do poema está no ouvido, não na aritmética.
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O dia me parecia propício para o passeio que eu havia programado, com muita antecedência. Nenhum sinal da chuva que caíra sobre Roma, na noite anterior, entrando pela madrugada. Diferentemente, o sol se despejava em cheio sobre o obelisco que ornamenta o centro da Piazza del Popolo, ao pé do Pincio, a famosa colina onde se encontra a Villa Borghese. Nada mais adequado para aquela manhã ensolarada, sendo aquele monumento egípcio o símbolo da materialização da luz solar, do deus Rá.
Vislumbrei, do centro da praça, o itinerário que iria percorrer até a Piazza San Pietro, de obelisco a obelisco, tendo como término a Basílica de São Pedro. Daquele ponto da Piazza del Popolo, olhei as gêmeas, as igrejas de Santa Maria in Monte Santo, numa referência ao Monte Carmelo, e a de Santa Maria dei Miracoli, que guarda, em seu altar a imagem de Maria Milagrosa. Ambas foram erigidas no século XVI e dividem, entre si, o Tridente, formado pelas Via del Babuino, Via del Corso e Via di Ripetta.
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Sim, caríssimo leitor, eu estava em Roma, naquele local específico onde termina a Via di Ripetta, na lateral da igreja de Santa Maria dei Miracoli, para refazer o percurso do eu-lírico augustano. As situações, claro, eram diferentes – eu estava a ponto de realizar a caminhada que a ficção imaginara. A realidade material se sobrepusera ao desdobramento espiritual; a angústia dera lugar a uma espécie de êxtase; o clima de consternação desaparecera sob o brilho da manhã ensolarada; Roma não estava quieta, mas rumorejava sem cessar na alegria da primavera; estremecia, sim, mas ao passar do trânsito incessante de carros e pessoas, nas suas ruas e nas margens superiores do Tibre. Não era uma Sexta-Feira da Paixão,
Apesar de todas as diferenças existentes entre ficção e realidade, no íntimo, eu sentia a sensação de estar vivendo, de modo inusitado, uma emoção maior do que experimentara na leitura do Poema Negro. Não poderia ser diferente. Augusto dos Anjos jamais pisara em Roma, imaginou um percurso plausível até a Basílica de São Pedro, sem conhecer in loco os detalhes dessa intrincada geografia, que se desnuda facilmente hoje, com os mapas ao alcance da mão, disponíveis em qualquer telefone celular. Assim, o poema, a cada passo dado, explodia, no meu íntimo, em dinamismo e emoção. Reproduzo, a seguir, o trecho do Poema Negro, para que aqueles que o conhecem possam, mais uma vez, degustá-lo. Para os que não o conhecem, que possam a ele ser apresentados e que se extasiem com a sua beleza (estrofes 12-16):
Súbito outra visão negra me espanta!
Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.
A treva invade o obscuro orbe terrestre.
No Vaticano, em grupos prosternados,
Com as longas fardas rubras, os soldados
Guardam o corpo do Divino Mestre.
Como as estalactites da caverna,
Cai no silêncio da Cidade Eterna
A água da chuva em largos fios grossos...
De Jesus Cristo resta unicamente
Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente
Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!
Não há ninguém na estrada da Ripetta.
Dentro da Igreja de São Pedro, quieta,
As luzes funerais arquejam fracas...
O vento entoa cânticos de morte.
Roma estremece! Além, num rumor forte,
Recomeça o barulho das matracas.
A desagregação da minha Ideia
Aumenta. Como as chagas da morfeia
O medo, o desalento e o desconforto
Paralisam-me os círculos motores.
Na Eternidade, os ventos gemedores
Estão dizendo que Jesus é morto!
Não! Jesus não morreu! Vive na serra
Da Borborema, no ar de minha terra,
Na molécula e no átomo... Resume
A espiritualidade da matéria
E ele é que embala o corpo da miséria
E faz da cloaca uma urna de perfume.
Há 6 pontos nesse itinerário – a igreja de Santa Maria dei Miracoli, em cuja lateral termina a Via di Ripetta, início da minha caminhada; a igreja de São Roque, a igreja de Santa Maria das Portas do Paraíso, ambas em frente a Ara Pacis e ao lado do Mausoléu de Augusto; o Castelo Sant’Angelo, antigo mausoléu de Adriano; a Piazza San Pietro e a Basílica de São Pedro.A elegante Ponte Sant'Angelo conduz ao imponente Castelo Sant'Angelo, fortaleza às margens do Tibre que atravessou séculos como mausoléu imperial, castelo papal e símbolo da paisagem romana. ▪ Foto: Milton Marques Júnior
“Que a terrível peste não atinja as almas mortais; que os crimes sórdidos não atinjam os ânimos imortais. Intercede com as tuas preces, ó ínclito São Roque.”
A fachada da Chiesa di San Rocco all'Augusteo (Igreja de São Roque) guarda um dos muitos refúgios silenciosos do centro histórico de Roma. ▪ Foto: Milton Marques Júnior
A ampla Via della Conciliazione liga o rio Tibre à Praça de São Pedro (Vaticano), criando um dos eixos urbanos mais simbólicos de Roma. ▪ Foto: Milton Marques Júnior
Eis os detalhes prováveis do roteiro do eu-lírico do Poema Negro, envolvendo milagre, proteção contra a peste, que atinge o corpo, e contra os crimes sórdidos, que conspurcam a alma; a clemência, a conciliação, para buscar a esperança em um Cristo redivivo, que substituirá, de modo definitivo o Cristo morto e inerte numa cruz.
Esperança e fé que nos afirmam, categoricamente, que sempre haverá alguém numa simbólica estrada de Ripetta, em busca de encontrar o Cristo, o mesmo Cristo do “ar da minha terra”.












