O verso é instigante , seja pelo fato de a elisão entre “na” e “estrada” permitir a pausa da sexta sílaba, própria do decassílabo heroi...

''Não há ninguém na estrada da Ripetta''

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O verso é instigante, seja pelo fato de a elisão entre “na” e “estrada” permitir a pausa da sexta sílaba, própria do decassílabo heroico, seja pelo fato de que, isoladamente, o trecho “na estrada da Ripetta” é um heptassílabo perfeito. O poeta, no entanto, conhece o material que maneja; sabe como domar o metro em favor do ritmo e, sobretudo, sabe que a musicalidade do poema está no ouvido, não na aritmética.

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Sim, estou falando de Augusto dos Anjos e, claro do belíssimo, apesar do nome, Poema Negro. Há outro elemento a instigar a imaginação do leitor: a alusão à “estrada da Ripetta”. O poema nos diz que é Roma e que há uma ligação entre ela, a estrada, e a Basílica de São Pedro, num contexto que envolve uma Sexta-Feira Santa, com todos os elementos graves e funéreos, que se encontram no entorno dessa comemoração cristã: as trevas, a prosternação, as fardas rubras, a lembrar as túnicas dos legionários romanos, dos que guardam o corpo de Cristo, de que resta apenas um esqueleto; o silêncio, a chuva em largos fios grossos, o vazio na estrada da Ripetta, as luzes funerais, o vento entoando cânticos de morte, o estremecimento de Roma, o barulho das matracas, o medo, o desalento, o desconforto, o vento a gemer anunciando o Cristo morto... E, de repente, a certeza do Cristo vivo, em tudo e em todos, panteisticamente. É um momento de alento e de esperança, para um eu, envolvido em uma atmosfera sepulcral e angustiante da “dor suprema”, que o invade, nos dois espaços que seu corpo frequenta, a da casa onde se encontra,
e a do desdobramento para a Roma, a Cidade Eterna.

O dia me parecia propício para o passeio que eu havia programado, com muita antecedência. Nenhum sinal da chuva que caíra sobre Roma, na noite anterior, entrando pela madrugada. Diferentemente, o sol se despejava em cheio sobre o obelisco que ornamenta o centro da Piazza del Popolo, ao pé do Pincio, a famosa colina onde se encontra a Villa Borghese. Nada mais adequado para aquela manhã ensolarada, sendo aquele monumento egípcio o símbolo da materialização da luz solar, do deus Rá.

Vislumbrei, do centro da praça, o itinerário que iria percorrer até a Piazza San Pietro, de obelisco a obelisco, tendo como término a Basílica de São Pedro. Daquele ponto da Piazza del Popolo, olhei as gêmeas, as igrejas de Santa Maria in Monte Santo, numa referência ao Monte Carmelo, e a de Santa Maria dei Miracoli, que guarda, em seu altar a imagem de Maria Milagrosa. Ambas foram erigidas no século XVI e dividem, entre si, o Tridente, formado pelas Via del Babuino, Via del Corso e Via di Ripetta.

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O meu objetivo era a Via di Ripetta, ou, como se encontra no Poema Negro, a “estrada da Ripetta”, a chamada margenzinha do Tibre, após a construção do Porto di Ripetta, no início do século XVIII. Pela Ripetta, alcançaria a Via della Scrofa e seguiria, tomando o caminho ao longo do Tibre, até a Praça São Pedro.

Sem angústia, sem aflição, sem delírio, visões ou desdobramentos do eu-lírico, que me teriam jogado de uma realidade espaço-temporal para outra; sem a opressiva atmosfera fúnebre do poema, sem o aguaceiro de largas bagas, a ensopar-me o corpo e o espírito. Eu me encontrava, realmente, em Roma. Meu estado era de excitação, de contentamento, de alumbramento, por poder percorrer o trajeto de um personagem literário, criado por um poeta da minha maior admiração.

Sim, caríssimo leitor, eu estava em Roma, naquele local específico onde termina a Via di Ripetta, na lateral da igreja de Santa Maria dei Miracoli, para refazer o percurso do eu-lírico augustano. As situações, claro, eram diferentes – eu estava a ponto de realizar a caminhada que a ficção imaginara. A realidade material se sobrepusera ao desdobramento espiritual; a angústia dera lugar a uma espécie de êxtase; o clima de consternação desaparecera sob o brilho da manhã ensolarada; Roma não estava quieta, mas rumorejava sem cessar na alegria da primavera; estremecia, sim, mas ao passar do trânsito incessante de carros e pessoas, nas suas ruas e nas margens superiores do Tibre. Não era uma Sexta-Feira da Paixão,
mas uma quarta-feira qualquer do abril primaveril do Ano do Senhor de 2026.

Apesar de todas as diferenças existentes entre ficção e realidade, no íntimo, eu sentia a sensação de estar vivendo, de modo inusitado, uma emoção maior do que experimentara na leitura do Poema Negro. Não poderia ser diferente. Augusto dos Anjos jamais pisara em Roma, imaginou um percurso plausível até a Basílica de São Pedro, sem conhecer in loco os detalhes dessa intrincada geografia, que se desnuda facilmente hoje, com os mapas ao alcance da mão, disponíveis em qualquer telefone celular. Assim, o poema, a cada passo dado, explodia, no meu íntimo, em dinamismo e emoção. Reproduzo, a seguir, o trecho do Poema Negro, para que aqueles que o conhecem possam, mais uma vez, degustá-lo. Para os que não o conhecem, que possam a ele ser apresentados e que se extasiem com a sua beleza (estrofes 12-16):

Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. É Sexta-feira Santa. A treva invade o obscuro orbe terrestre. No Vaticano, em grupos prosternados, Com as longas fardas rubras, os soldados Guardam o corpo do Divino Mestre. Como as estalactites da caverna, Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos... De Jesus Cristo resta unicamente Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. Dentro da Igreja de São Pedro, quieta, As luzes funerais arquejam fracas... O vento entoa cânticos de morte. Roma estremece! Além, num rumor forte, Recomeça o barulho das matracas. A desagregação da minha Ideia Aumenta. Como as chagas da morfeia O medo, o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. Na Eternidade, os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema, no ar de minha terra, Na molécula e no átomo... Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume.
Há 6 pontos nesse itinerário – a igreja de Santa Maria dei Miracoli, em cuja lateral termina a Via di Ripetta, início da minha caminhada; a igreja de São Roque, a igreja de Santa Maria das Portas do Paraíso, ambas em frente a Ara Pacis e ao lado do Mausoléu de Augusto; o Castelo Sant’Angelo, antigo mausoléu de Adriano; a Piazza San Pietro e a Basílica de São Pedro.

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A elegante Ponte Sant'Angelo conduz ao imponente Castelo Sant'Angelo, fortaleza às margens do Tibre que atravessou séculos como mausoléu imperial, castelo papal e símbolo da paisagem romana. ▪ Foto: Milton Marques Júnior
O que está interdito no texto de Augusto dos Anjos é mais do que o roteiro de um aflito, em uma Sexta-Feira da Paixão. Trata-se de uma simbologia de busca de esperança, apresentada apenas na relação do desdobramento, em que o mundo espiritual se desvela na viva permanência de um Cristo que todos julgam morto. Essa simbologia se representa na igreja que exalta a Maria Milagrosa, na conjunção da Via di Ripetta com a Via della Scrofa, que se encontra com a Via Clementino; na passagem pela igreja de São Roque, o protetor dos enfermos, a quem se faz uma prece, em latim, no frontispício (em tradução nossa):

“Que a terrível peste não atinja as almas mortais; que os crimes sórdidos não atinjam os ânimos imortais. Intercede com as tuas preces, ó ínclito São Roque.”
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A fachada da Chiesa di San Rocco all'Augusteo (Igreja de São Roque) guarda um dos muitos refúgios silenciosos do centro histórico de Roma. ▪ Foto: Milton Marques Júnior
Na proximidade dessa igreja com a de Santa Maria das Portas do Paraíso, em cujo frontispício a santa aparece como “libertadora da pestilência” (liberatricis pestilentiae), numa perfeita associação entre as duas edificações, que, a um só tempo, esconjura a peste e a morte, e clama pela vida.

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A ampla Via della Conciliazione liga o rio Tibre à Praça de São Pedro (Vaticano), criando um dos eixos urbanos mais simbólicos de Roma. ▪ Foto: Milton Marques Júnior
Na Via della Scrofa, derivamos à direita pela Via di Monte Brianzo, de modo a alcançar o Lungotevere Tor di Nona (a caminhada ao longo do Tibre pela parte superior), até alcançar a Ponte Sant’Angelo. Daí deparamos com o Castelo Sant’Angelo e derivamos à esquerda, pelo Lungotevere Vaticano e alcançamos a Via della Conciliazione, que nos leva direto à Piazza San Pietro e à Basílica.

Eis os detalhes prováveis do roteiro do eu-lírico do Poema Negro, envolvendo milagre, proteção contra a peste, que atinge o corpo, e contra os crimes sórdidos, que conspurcam a alma; a clemência, a conciliação, para buscar a esperança em um Cristo redivivo, que substituirá, de modo definitivo o Cristo morto e inerte numa cruz.

Esperança e fé que nos afirmam, categoricamente, que sempre haverá alguém numa simbólica estrada de Ripetta, em busca de encontrar o Cristo, o mesmo Cristo do “ar da minha terra”.

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