A poesia de Santino Gomes de Matos, tal como a essência de uma flor exala seu aroma, desse modo se corporifica no espaço, e a brisa alegremente vai anunciando sua presença. Sua poesia se revela lírica, posto que traduz, com nuances e profundidades, o sentimento humano, abrindo veredas para a consciência, que, cheia de mistério, almeja, por natureza, conhecer.
Octávio Paz ▪️ Fonte: ensayistas.org
A poesia, segundo Octávio Paz, é – “metamorfose, transformação, operação alquímica [...]”; e, para Mallarmé, a poesia – “constitui a única tarefa espiritual”; para Heine, a poesia – “é uma doença do ser humano, como a pérola nada mais é que a substância produzida pela ostra”. Essas três formulações sobre a poesia são exemplares por revelarem um aspecto fundamental da existência humana: a centelha criativa que transmuta a vida, acolhendo sua substância dual – alegria e tristeza, prazer e sofrimento, amor e ódio – para, fundamentalmente, revelar, por entre o corpo sutil da realidade, aquilo que seja espiritual. Desse modo, a poesia seria, no dizer do filósofo Heidegger, a habitação autêntica do Ser.
Santino, que, por nome – raiz latina que vem de Sanctus, revela sua inclinação ao virtuoso –, tem no seio de sua expressão a poesia como caminho. Se o Sertão, em Guimarães Rosa, é veredas, que do cerrado de Minas Gerais se espraiam, na poesia de Santino, o corpo poético é um caminho
Santino e Yone Gomes de Matos ▪️ Fonte: santinogomesdematos.com.br
O poeta, como um demiurgo, convoca com sua voz a eclosão dos seres. Retira-os do anonimato, nomeia-os. Dá-lhes um espaço, um corpo, uma realidade. Revela-os com sua hierofania. Em Oração dos Humildes, Santino convoca – “Venha a canção áspera e rouca...”, “Venha a canção dos jangadeiros do mar”, “Venham cantigas da beira do rio”, “Venha, na noite quente”, “Venham todas as vozes humanas”. Em Olhos Mortos Dentro da Tarde, o poeta nos chama para o fenômeno da vida – “Por que levam Leocádia quase a correr?”, “... persegue o caixão branco e azul, azul e branco, branco e azul, azul...”, “Leocádia, morta e virgem, aparecerá estrela no engaste azul...”, “Ela não conhecia Bilac”, “A morte não entrava nos planos de Leocádia”. E o poeta vai ainda mais fundo na vida, em Sarjeta – “A chuva foi um prazer para os garotos de rua. / Saíram todos para armar embarcações de jornal e soltá-las na enxurrada...”, “Eles querem imitar a vida, sem nada conhecerem da vida”. No leito sujo da sarjeta corre a água. Barcos improvisados com papel são lançados na confusão das águas. Por acaso, não estará no barco um Odisseu qualquer tentando retornar para sua origem? Crianças de rua, pobres, sujas – que, na luz molhada pela chuva, experimentam uma alegria temperada pelo sofrimento.
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No entanto, apesar de a alma alçar-se para além das influências da dualidade, o poeta nos mostra que é condição do humano o compartir do mesmo destino humano, diante da dor, sentir-se. E esse ato de sentir-se nos leva ao caminho da consciência.
Santino Gomes de Matos: o convite do poeta
No alvorecer de Vozes Íntimas, segunda parte do livro Oração dos Humildes, o poeta logo anuncia em Vocação – “Quando menos esperei, estava em cena. / O pano levantou-se...”, “Ficou-me apenas a impressão áspera de que fui empurrado. / Não
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Às vezes, tenho vontade de gritar,
dirigindo-me a um diretor de cena invisível:
– Olhe como não tenho vocação para este número!
– Falta-me clima, falta-me ambiente...
– O escândalo de cimento dos arranha-céus produz-me vertigens.
– A minha alma não se dá com paisagens de pedra.
– Os “cocktails” me ardem como brasa na garganta.
– Lido mal com taças de champagne e
com mulheres que ostentam, em tintas,
a alma toda inteira.
– Faltam-me dedos para caudatário de honrarias ocas.
– Não sei semear misérias e, depois,
passar sobre elas, de viseira erguida, porque me
deram o caminho do triunfo.
Olha, Sr. Diretor, como falta unto à minha espinha.
– Como são pobres as minhas reservas de
desprezo às virtudes antigas, aos sentimentos
morais caducos.
– Como é mesquinho o celeiro de ódios no meu coração,
para a luta feroz que os homens lutam,
guerreando-se, matando-se, destruindo-se.
– A etiqueta de homem moderno, século XX,
grudou-se mal em minhas costas.
– A carapuça de civilizado impede-me de dormir.
– Quero alegrias íntimas, puras, sossegadas,
dentro de movimentos naturais.
– Quero ritmos de alma, da alma da minha gente,
que se estiola na dureza dos asfaltos.
– Quero paisagens vivas, de muito sol e muito espaço.
– Sr. Diretor, não sei mover-me.
– Não nasci para a camisa de força de uma civilização de ismos.
"Toca a trabalhar. Toca a representar algum papel!".
Empurraram-me.
Não resta dúvida de que me empurraram.
A corrente subterrânea da minha índole
foi como um riacho de águas ingênuas,
que encontrasse, logo ao nascer,
um sumidouro na areia.
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O instinto da luz me encoraja e me anima.
Não sei se vou de rastos, se vou ferido,
se vou dilacerado.
Eu sei que por detrás da massa negra das
sombras há sol, há calenturas, há descanso.
Venham comigo os que desesperam.
Os que mais sentem o travor da maldade
dos homens, os que se constringem,
num círculo de ferro,
nesta era brutal de ferro
e de cimento armado.
O toque humano está na cadeia das mãos,
na ajuda de Cirineu aos que tropeçam,
no amparo aos que tombam no meio do
caminho.
Venham comigo!
Não olharemos para os abismos
escancarados do desespero.
Não sei se vou com a alma retalhada,
não sei se há lama nas minhas pupilas,
de tanto ver misérias.
As lâminas das máquinas cortam, retalham
a epiderme multissecular da humanidade.
As moendas trituram destinos.
Mas não é preciso que vocês se percam,
vesgos da vingança feroz que barbariza.
Venham comigo!
Entrelacemos as mãos para a escalada
pedregosa torturante, cheia de passos de sangue.
O toque humano está na cadeia
dos braços dados, e a chancela de glória
nos olhos incendiados de febre e de fé!
Eu sei que por trás da massa negra
das sombras há sol, há calenturas,
há descanso, há uma luz que nunca,
nunca se apaga.
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