A antiga tradição grega personificava a “Oportunidade”, Kairós, como um jovem veloz, com uma grande mecha de cabelos na testa e a parte de trás da cabeça calva. A ideia era simples: quando a oportunidade vem, é preciso agarrá-la pelos cabelos, porque, depois que ela passa, não há como segurá-la pela parte careca da cabeça. Daí nasceu a expressão “agarrar a oportunidade pelos cabelos”, isto é, reconhecer o momento certo e aproveitá-lo antes que desapareça.
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A oportunidade não é necessariamente aquilo que nos favorece, mas a própria vida, com suas circunstâncias, relações, dificuldades e possibilidades de trabalho e crescimento. Talvez a vida seja feita muito mais de oportunidades perdidas do que de oportunidades conquistadas. Não porque sejamos necessariamente incapazes, mas porque quase nunca reconhecemos uma oportunidade enquanto ela ainda está acontecendo. Estamos ocupados demais esperando outra coisa.
Esperamos o emprego ideal, o amor definitivo, o dinheiro que resolverá tudo, a saúde perfeita, o momento adequado, a tranquilidade que nunca chega. E, enquanto esperamos a vida que imaginamos merecer, uma outra vida, silenciosa e imperfeita, vai acontecendo diante de nós.
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Há pessoas que recebem uma dificuldade e enxergam apenas uma dificuldade. Outras recebem a mesma dificuldade e, depois de algum tempo, percebem que ela lhes ensinou uma coisa que nenhum conforto teria ensinado. Há encontros que nos ferem, mas também nos revelam. Há perdas que nos empobrecem por algum tempo e nos tornam mais humanos depois. Há períodos de solidão em que descobrimos uma companhia que havíamos esquecido: nós mesmos. Há portas que se fecham e, somente muito mais tarde, compreendemos que talvez estivéssemos insistindo numa porta que não era nossa.
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Não é uma maneira ingênua de dizer que tudo é bom. Sofrimento é sofrimento. Perda é perda. Há acontecimentos diante dos quais não existe frase bonita que dê conta da dor. Mas podemos perguntar o que faremos com aquilo que nos aconteceu. Talvez esteja aí uma das grandes sabedorias de Emmanuel: não escolhemos todas as circunstâncias, mas podemos escolher o que fazemos com elas. E isso vale também para o tempo. Ele não é uma coisa vazia que possuímos para gastar. É matéria da própria existência. Todos recebemos as mesmas horas, mas não fazemos delas a mesma vida. O tempo pode ser desperdiçado, usado para destruir ou transformado em trabalho, aprendizado, afeto e serviço.
Talvez por isso a expressão “matar o tempo” seja mais trágica do que parece. Ninguém mata o tempo. Mata possibilidades. Cada hora que passa leva consigo alguma coisa que não volta. Uma conversa que poderia ter acontecido. Um pedido de desculpas que adiamos. Um livro que não lemos. Uma pessoa que poderíamos ter escutado. Uma ideia que deixamos para
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Kairós continua correndo. Talvez ele tenha passado por nós hoje sem que percebêssemos. Talvez estivesse naquela dificuldade que imediatamente amaldiçoamos, naquele trabalho que consideramos pequeno demais, naquela pessoa que julgamos sem lhe dar cinco minutos de escuta. Talvez a oportunidade não tivesse a aparência que esperávamos. E talvez seja isso que torne a vida tão interessante: a oportunidade raramente se apresenta como oportunidade. Ela vem vestida de cotidiano. Talvez não precisemos esperar que alguma coisa extraordinária aconteça para começarmos a aproveitar a existência.
Talvez possamos olhar para aquilo que já está diante de nós. Para o dia que temos. Para as pessoas que permanecem. Para aquilo que ainda podemos reparar. Para o pouco que ainda podemos oferecer. Para as possibilidades que não desapareceram. E vamos fazer isso sem aquela pressa ansiosa de quem precisa transformar cada minuto em produtividade. Não se trata disso. Às vezes, aproveitar uma oportunidade é simplesmente estar presente. Escutar alguém. Perceber uma beleza. Silenciar quando seria mais fácil ferir. Recomeçar sem fazer anúncio. Continuar quando ninguém está olhando.
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