Uma das coisas que tenho como incontestável é a certeza de que sou infantil e primário. Explico: talvez seja essa condição que me permi...

A Roliúde Nordestina de Wills Leal

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Uma das coisas que tenho como incontestável é a certeza de que sou infantil e primário. Explico: talvez seja essa condição que me permita ainda acreditar que cinema não é luxo, mas investimento social.

Quando recordo aqueles dias de 1998, vejo que minha infantilidade talvez estivesse em acreditar que tudo aquilo era possível. Naquele tempo, cheguei a considerar esdrúxula a ideia do nome Roliúde Nordestina, concebida pelo amigo Wills Leal. Era uma ideia improvável, mas prosperou. O cinema abriu caminho: pedra virou enquadramento; horizonte virou plano geral.

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Wills Leal, expoente da cultura, do jornalismo e do turismo na Paraíba, jornalista, escritor, professor e crítico de cinema, amplamente conhecido como o criador do conceito da "Roliúde Nordestina" no município de Cabaceiras, transformando a região num polo cinematográfico brasileiro ▪️ Foto Rizemberg (Jornal A União)
Foi assim que, em 1998, começamos a trabalhar na produção de um filme em 35 mm, Eu Sou o Servo, na ONG PARA'IWA. Eu fazia minha estreia como produtor e codiretor. A direção era de Eliézer Rolim Filho, que também estreava no cinema, e a produção executiva foi realizada por mim e por Gláucia Cunha Lima.

Não era apenas um filme. Era uma afirmação. A questão não era conquistar prêmios ou receber o reconhecimento da crítica. Era a construção de um roteiro capaz de apresentar um produto cultural: a história de Padre Ibiapina e sua passagem pelo sertão da Paraíba. Filme é produto, sim, mas também é paisagem transformada em narrativa, memória e possibilidade econômica.

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Frame do filme Eu sou o servo - Padre ibiapinal
O valor e a dimensão de uma produção cinematográfica são definidos por diferentes aspectos: técnico, artístico, logístico e financeiro. Eu Sou o Servo representou uma mudança de perspectiva para o cinema realizado na Paraíba. Passamos a pensar que fazer cinema era possível.

Assim como Padre Ibiapina se deslocava pelo sertão, nós, integrantes da equipe técnica e do elenco, deslocávamo-nos pelas paisagens, buscando nelas não apenas um cenário, mas também a vocação e a beleza do lugar. O projeto procurava locações e imagens, mas também produzia uma leitura territorial.

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Pedra do Capacete (Cabaceiras-PB) ▪️ Fotografia: Ruy Carvalho
Filmamos no Lajedo do Pai Mateus. Estávamos entre as primeiras equipes paraibanas a realizar, naquela paisagem de Cabaceiras, uma produção de ficção em película de 35 mm. Colocamos ali a luz desenhada pelo fotógrafo Dib Lutfi. Com Jurandir Oliveira na direção de arte, reunimos um seleto grupo de atores teatrais da Paraíba. Fizemos ficção em película de 35 mm, inclusive durante a noite. Era uma ousadia para uma produção local.

Entre os amigos mais loucos e admiráveis que tive, estava Wills Leal. Era uma dessas figuras-cometa que ousam traçar trajetórias e imaginar caminhos onde outros só enxergam pedra e poeira. Wills, com sua inventividade, reconheceu em Cabaceiras, na Paraíba, o território de uma Roliúde Nordestina.

Wills estava no futuro e tinha pressa, porque já vivia além do óbvio.

Deu certo porque havia propósito. A chamada Roliúde Nordestina não nasceu formalmente com o nosso filme, mas aquelas filmagens, sob a presença simbólica de Padre Ibiapina, ajudaram a revelar uma paisagem que já pedia cinema. A luz era singela como a de uma vela e firme como a de um candeeiro. A paisagem interferia no enquadramento e ajudava a determinar a narrativa e o ritmo.

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Frame do filme Eu sou o Servo ▪️ YouTube: @Αλέξανδρος, γιατρός
O filme revelou que o estado poderia levar às telas diferentes recortes das serras da Borborema e das Espinharas, a Pedra do Pico, em Taperoá, os caminhos e casarios do Brejo de Areia e os planos gerais em Santa Fé, no Curimataú. A imagem final, com o horizonte aberto, também anunciava possibilidades para a produção audiovisual paraibana.

O cinema revelou que a Paraíba possui paisagens capazes de acolher diferentes narrativas cinematográficas. Não se tratava apenas de beleza, mas de singularidade geológica e simbólica. Quando enquadramos o Lajedo do Pai Mateus, não filmamos só pedra; filmamos identidade.

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Saca de Lã - Lajedo de Pai Mateus ▪️ Fotografia: Marinelson Almeida
Quando reconhecida e preservada, essa identidade regional pode contribuir para uma estratégia de desenvolvimento local sustentável. Investir em locações também pode significar investir em infraestrutura, formação técnica e fortalecimento da cadeia produtiva do audiovisual.

Depois vieram outros filmes importantes: o longa-metragem São Jerônimo, de Júlio Bressane, e O Auto da Compadecida, de Guel Arraes, filmado em 1999, inicialmente exibido como minissérie pela TV Globo e posteriormente lançado nos cinemas. Essas e outras realizações ajudaram a consolidar Cabaceiras no mapa audiovisual brasileiro. Curiosamente, Padre Ibiapina, São Jerônimo e a Compadecida pareciam acompanhar, cada um à sua maneira, aquela ocupação cinematográfica do sertão.

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Frame do filme Eu sou o Servo ▪️ YouTube: @durvalleal
Igualmente inusitada foi a criação da Festa do Bode Rei, outra ideia associada à imaginação inquieta de Wills Leal. O evento transformou a caprinocultura e elementos da cultura sertaneja em um calendário turístico que reúne atividade econômica, tradição regional e entretenimento.

O que parecia excentricidade ajudou a movimentar a economia criativa. Na Caatinga, onde se comemoram o couro, a carne de bode e a criação de caprinos, o aproveitamento do couro e a culinária à base de carne de bode integram a vida econômica e cultural. A festa passou a ser também uma vitrine do território.

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Letreiro da cidade de Cabaceiras, conhecida como a Roliúde Nordestina, devido ao número de produções cinematográficas realizadas na cidade ▪️ Fotografia: Everton L.L
Cinema e festa encontraram-se, em Cabaceiras, na imaginação de Wills Leal.

A lógica parece simples: paisagem atrai filmagem; filmagem pode produzir visibilidade; visibilidade pode ampliar o fluxo; e o fluxo pode movimentar negócios. Hospedagem, transporte, alimentação, serviços técnicos, figurino, carpintaria e comunicação passam a integrar essa movimentação.

Cada produção pode deixar algum lastro e muitos rastros. A economia do audiovisual tem potencial multiplicador, embora seus resultados não sejam automáticos. Quando bem planejada, ela pode fortalecer a economia de base comunitária, estimular a formação profissional e contribuir para ampliar a atividade econômica e a arrecadação municipal.

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Durval Leal
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Wills Leal
Mas é preciso método. O desenvolvimento regional sustentável não nasce do improviso permanente. Exige política pública, incentivos adequados, capacitação técnica e preservação ambiental. A paisagem é um recurso finito. Se degradada, perde valor cênico, cultural e econômico. Investir na paisagem significa cuidar da Caatinga, do patrimônio histórico, das serras e dos lajedos.

A chamada Roliúde Nordestina não é apenas uma metáfora ou um letreiro colocado diante da cidade. É também uma forma de posicionamento territorial. Um território que se reconhece como cenário pode organizar sua vocação audiovisual. Cabaceiras começou a compreender essa possibilidade e transformou o clima semiárido em diferencial para determinadas produções. O sol constante virou aliado técnico.

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Paisagem de Cabaceiras (PB) ▪️ Fotografia: Eduardo Kenji
Há também uma dimensão simbólica. Quando um jovem da região vê sua paisagem na tela, pode compreender que seu lugar também produz cultura e merece ser representado. O cinema pode fortalecer a autoestima. Isso não elimina a migração nem resolve, sozinho, os problemas locais, mas amplia a maneira como uma comunidade percebe o próprio território. A imagem organiza a memória e projeta um futuro.

O propósito de investir na paisagem cênica não é apenas atrair produções externas. É também formar realizadores locais. É construir uma cadeia produtiva própria. É compreender que a cultura gera atividade econômica, mas não pode ser reduzida a uma mercadoria sem alma. O equilíbrio está em tratar o filme como produto e como expressão.

No fim, o que parecia delírio daquele homem-cometa chamado Wills Leal tornou-se uma maneira de enxergar o futuro. A Roliúde Nordestina e a Festa do Bode Rei demonstraram que a invenção também pode ser uma forma de leitura do território.

Investir na paisagem, valorizar a cultura e organizar a produção audiovisual não são capricho artístico. São possibilidades concretas de preservar a memória, produzir trabalho e reconhecer a singularidade de um lugar.

Cinema é luz iluminando pedra. É também luz projetada sobre a memória e sobre a economia criativa que pulsa ao redor dela.

Talvez minha infantilidade continue sendo esta: acreditar que uma ideia, quando nasce dos olhos de um homem como Wills Leal, pode atravessar a poeira, subir a serra e permanecer acesa depois que seu inventor já partiu. Algumas pessoas deixam obras. Wills deixou também uma maneira de olhar. Depois dele, em Cabaceiras, pedra alguma voltou a ser apenas pedra.

Eu sou o servo - Padre Ibiapina - Um filme de Durval Leal

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