Dizem que o tempo é um juiz implacável. Ele curva espinhas, desbota cabelos, vinca a pele e rouba o brilho dos olhos de quem carregou...

Canalhas não envelhecem?

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Dizem que o tempo é um juiz implacável. Ele curva espinhas, desbota cabelos, vinca a pele e rouba o brilho dos olhos de quem carregou o peso das boas intenções pela vida inteira. O homem honesto, ao envelhecer, carrega na testa as linhas de cada batalha travada, de cada insônia causada pela ética, de cada concessão que se recusou a fazer. Mas a política brasileira insiste em desafiar a biologia: aqui, os canalhas simplesmente não envelhecem.

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Observe o plenário em dia de votação decisiva. Lá está ele. O terno parece recém-saído da alfaiataria de Milão, a gravata reluz como se nunca tivesse sido afrouxada por um acesso de culpa, e o sorriso... ah, o sorriso. É uma obra-prima da odontologia moderna, branco e impecável, reluzindo sob as luzes frias da Câmara. Ele já atravessou três ditaduras, quatro moedas, sete constituições e pelo menos doze partidos diferentes. Mudam os regimes, caem os presidentes, esfacelam-se as ideologias, e o canalha continua ali, firme, viçoso, com a pele esticada por botox e pela total ausência de escrúpulos.

O segredo da juventude eterna do canalha político não está nos cremes caros ou nos spas de Brasília. Está na desconexão completa entre suas ações e sua alma. A rematada cara de pau funciona como o melhor filtro solar contra o desgaste do tempo. Enquanto o cidadão comum envelhece dez anos a cada crise econômica, infartando com a fatura do supermercado e a taxa de juros, o canalha se alimenta do caos.

Para ele, a indignação pública não passa de uma brisa leve que mal despenteia seu topete cuidadosamente fixado com laquê.

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O remorso engorda, a vergonha dá rugas e o remorso amarga a boca. Como o canalha é imune a esses três males, sua digestão é sempre perfeita, seu sono é profundo — embalado por edredons de fios egípcios pagos com verba de gabinete — e sua circulação flui sem os nós da ansiedade moral. Ele vota contra a aposentadoria do trabalhador enquanto garante a sua própria pensão vitalícia e, ao sair do tapete verde, ainda encontra fôlego para acenar sorridente para as câmeras, com o frescor de um jovem aprendiz da dinastia do fisiologismo.

Na comédia humana do poder brasiliense, a honestidade é um fator de risco cardíaco. O sujeito que entra na vida pública para "mudar o país" sai dela em quatro anos, de cabelos brancos, gástrico e desiludido. Já o canalha de estimação — aquele que domina a arte do orçamento secreto, do tapinha nas costas e do fisiologismo sutil — atravessa décadas incólume. Ele é o mesmo nos jornais dos anos 80 e nas redes sociais de hoje, apenas trocando o discurso em fita cassete pelo vídeo curto de tom messiânico.

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Quando o destino finalmente o leva, não é por velhice, é por tédio. E até no velório, cercado por coroas de flores pagas pelo erário e discursado por pares que aprenderam tudo com ele, a sua imagem no caixão ostenta uma palidez descansada, de quem viveu sem nunca ter gasto um único neurônio com a consciência. O tempo passa, o país muda, mas a canalhice permanece: impecável, jovial e pronta para o próximo pleito.

Não sabe ele que irá queimar cem anos no mármore do inferno!

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