Vinte e um de setembro de 1937. Em todo o Brasil, naquele tempo, comemorava-se a Festa da Árvore. A primeira festa havia acontecido ...

A festa da árvore

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Vinte e um de setembro de 1937. Em todo o Brasil, naquele tempo, comemorava-se a Festa da Árvore. A primeira festa havia acontecido em 1903. E, no ano de 1934, houve o decreto do Código Florestal.

Na manhã de 21 de setembro de 1937, o clima era agradável. Era o início da primavera. No Rio de Janeiro, então capital do Brasil, na Gávea, nas proximidades do Horto Florestal, acontecia a celebração.

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Crianças corriam à vontade. Música ao fundo, o verde das árvores, a luz do astro solar. À sombra acolhedora das árvores, pássaros brincavam nos ninhos.

Chega, por fim, o então ministro da Agricultura. Como de praxe, inicia-se o rito de solenidade ao gosto dos políticos. Um discurso é declarado aos ouvintes. Findo o ritual, ouve-se um clamor alegre, pessoas animadas ao ver entre os seus — o poeta Pereira da Silva, modesto, simples —, um homem com compleição de árvore.

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— “Vamos” — diz o poeta — “para junto das crianças.” E todos o acompanham. Diz por que está ali, agradece ao Conselho Florestal Federal o convite e, após um breve silêncio, floresce no seu ser, assim como nas árvores, o fruto.

“A árvore é a forma real do espírito divino. A árvore é protetora de todas as crianças.”

O vento sopra a vastidão verde e frondosa. O coração do poeta exala poesia. Com voz forte, dicção perfeita, gestos sóbrios, olha para a árvore que está à sua frente…

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“Árvore verde! Cúpula oscilante! Eis-me gozando a tua sombra quieta. Que conforto me trazes nesse instante. A mim — rústico espírito de poeta. Árvore verde! Cúpula oscilante!”

E o auditório, que antes ouvira sobre a lenda canadense de culto à árvore e agora ouvia com atenção o poeta, sorve, junto ao oxigênio das árvores, o elixir da poesia.

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Antônio Joaquim Pereira da Silva (1876–1944), advogado, jornalista, crítico literário e poeta simbolista brasileiro. Nascido em Araruna, na Paraíba, fez história ao se tornar o primeiro escritor paraibano a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras ▪️ Fonte: ABL
Pereira da Silva então diz que “o culto da árvore é uma das formas rituais de amar a Terra. E uma das formas rituais de amar a Pátria.” E segue inspirado — “Se outras terras as veneram e confundem, nessa veneração, com os espíritos imortais da raça — o loureiro de Virgílio, o chorão de Musset, o carvalho de Tasso —, muito maior deve ser a ufania do Brasil pelas maravilhas vegetais das suas selvas, dos seus bosques, dos seus parques, dos seus jardins; pois as nossas matas, graças ao esplendor tropical e às virtudes férteis de sua seiva, são dádiva que não se pode comparar a nenhuma outra.”

Por fim, houve o plantio de 21 árvores, sendo cada uma delas dedicada a um estado. E, naquele dia, algo de edênico havia sido vislumbrado na Festa da Árvore.
Para celebrar o dia 21 de setembro, o Dia da Árvore, gostaria de oferecer aos leitores do ALCR, além deste modesto relato sobre o incrível Pereira da Silva, alguns versos de outros poetas sobre o mais fundamental dos seres: a árvore.

Debaixo do Tamarindo (Augusto dos Anjos) No tempo de meu Pai, sob estes galhos, Como uma vela fúnebre de cera, Chorei biliões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos, Guarda, como uma caixa derradeira, O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida, e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri, Voltando à pátria da homogeneidade, Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui!
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A Árvore da Serra (Augusto dos Anjos) “— As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... — Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa: ‘Não mate a árvore, pai, para que eu viva!’ E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!”
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Árvore, cujo pomo, belo e brando (Luís Vaz de Camões) Árvore, cujo pomo, belo e brando, natureza de leite e sangue pinta, onde a pureza, de vergonha tinta, está virgíneas faces imitando; nunca da ira e do vento, que arrancando os troncos vão, o teu injúria sinta; nem por malícia de ar te seja extinta a cor, que está teu fruito debuxando. Que pois me emprestas doce e idóneo abrigo a meu contentamento, e favoreces com teu suave cheiro minha glória, se não te celebrar como mereces, cantando-te, sequer farei contigo doce, nos casos tristes, a memória.
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Velhas Árvores (Olavo Bilac) Olha estas velhas árvores, mais belas Do que as árvores novas, mais amigas; Tanto mais belas quanto mais antigas, Vencedoras da idade e das procelas… O homem, a fera e o inseto à sombra delas Vivem, livres de fomes e fadigas; E em seus galhos abrigam-se as cantigas E os amores das aves tagarelas. Não choremos, amigo, a mocidade! Envelheçamos rindo! Envelheçamos Como as árvores fortes envelhecem; Na glória da alegria e da bondade, Agasalhando os pássaros nos ramos, Dando sombra e consolo aos que padecem!
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