No meio dos papéis amontoados na prateleira do armário, encontro a foto tirada naquele dia, no extenso lajedo com suas instigantes e enigmáticas inscrições cunhadas em baixo-relevo. Naquele dia, chegamos à pedra, no município de Ingá, na Paraíba,
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no final da tarde, uma hora antes do pôr do sol. Estávamos eu, dirigindo o meu carro, e mais três amigos.
Ver agora a fotografia, encontrada nos papéis acumulados numa das prateleiras do armário, me transportou direto para os acontecimentos daquela viagem à Pedra do Ingá.
Logo que atravessamos a rua que margeia a pequena cidade de Ingá, na Paraíba, seguindo então pela continuação da estreita estrada, chegamos a um ponto em que cruzamos com uma linha férrea desativada. No cruzamento, encontramos a placa habitual de Pare, Olhe, Escute.
Prosseguimos, chegando, na sequência, à famosa Pedra, que alcançamos descendo a pé, após estacionarmos o carro nas proximidades das Itacoatiaras. Era já perto das 17h. Não havia mais ninguém no local.
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Passamos mais de uma hora contemplando as inscrições. Fazendo conjecturas sobre as gravações em baixo-relevo. Pareciam mesmo ter sido esculpidas por um tipo de laser, de tão perfeito o acabamento. E os símbolos, espirais, pontos em sequência horizontal, círculos. O que seriam esses caracteres quase ideogramáticos? Marcações do tempo? Rituais de fertilização? Alguns animais e vegetações específicas de uma época?
O tempo passou tão rápido. Já havia anoitecido. Permanecemos ainda um tempo no pequeno lajedo horizontal, perpendicular ao lado dessas inscrições na plataforma enigmática. Não me lembro exatamente como chegamos a ficar todos juntos,
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formando um quase círculo. Só me recordo de que muitos vaga-lumes começaram a nos rodear.
No céu, de um lado, nuvens pesadas, ameaçando uma tempestade com raios. Do outro lado, as inúmeras estrelas se descortinavam para nosso deleite.
De repente, começamos a ouvir gritos e choros muito fortes. Os vaga-lumes continuavam a nos rodear. Contrapondo esses lamentos, na parte estrelada parecia se abrir um infinito de luzes cintilantes.
Ainda permanecemos assim, no meio dessa estranha dualidade que nos envolvia. Não conseguíamos falar, mas imaginei que todos nós indagávamos coisas semelhantes. Será que teríamos viajado para um tempo em que rituais de sacrifícios humanos eram feitos no local? Será que os choros e os gritos vinham de uma situação vivida nesse momento dentro de alguma casa nas proximidades? Mas não conseguimos ver, quando chegamos, ainda de dia, nenhuma moradia perto do local da Pedra.
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Para sair dessa atmosfera enigmática, decidi falar e propor que fôssemos embora, voltar para nossas casas em João Pessoa, porque ia ficar muito tarde para pegarmos a estrada de volta.
No carro, já um pouco aliviados de sair desse círculo de contrastes mágicos, envolto entre luzes e trevas, eu falava, recordando a estranha vivência.
⏤ Porque nós cinco estávamos cercados e envolvidos pelo círculo de cintilações dos vaga-lumes.
⏤ Mas éramos só nós quatro. Por que você falou em nós cinco? — retrucou um dos amigos.
Eu não soube responder. Calei-me.
Passamos novamente cruzando a linha de trem, vendo a placa de PARE, OLHE E ESCUTE. Foi o que fizemos diante dessa placa de aviso. Estava tão sensibilizada que parei realmente o carro por um tempo, antes de cruzar a linha de trem.
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Apesar de saber que a linha férrea estava desativada, olhei para os lados e para trás. Escutei novamente os lamentos e choros intensos, antes de seguir em frente e prosseguir a viagem de volta.