As setenta e oito páginas iniciais de Grande sertão: veredas funcionam, do ponto de vista da organização da narrativa, como uma intro...

Entre medeiro-vazes e zé-bebelos...

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As setenta e oito páginas iniciais de Grande sertão: veredas funcionam, do ponto de vista da organização da narrativa, como uma introdução, longa introdução (22ª ed. 3ª impressão, São Paulo, Companhia das Letras, 2019). Não pense o leitor que, por ser uma introdução, o trecho é de fácil leitura. Não, muito pelo contrário. O narrador não facilita, em nada, a vida do leitor, pois ele próprio se dá conta de sua maneira digressiva de narrar:

“Ai, arre, mas: que esta minha boca não tem ordem nenhuma. Estou contando fora, coisas divagadas” (p. 22).
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Para tornar ainda mais difícil o caminho do leitor, estamos diante de um narrador-personagem, que narra a história da sua vida, quando o essencial sobre a vida de jagunço que viveu, já se acabou (“– O senhor vem, veio tarde. Tempos foram, os costumes demudaram”, p. 26), ao mesmo tempo em que vai fiando e desfiando narrativas, ao sabor das lembranças, sem um fio de continuidade que lhe assegure uma possibilidade de linearidade, cujos encaixes se dão após muitas fragmentações. A narrativa interrompida na página 77, por exemplo, quando Riobaldo está fazendo parte dos “medeiro-vazes”, só é retomada na página 223, com um sumário do acontecido, até o momento da integração de Zé Bebelo ao bando, para realização de novas façanhas, agora sob as ordens de Zé Bebelo Vaz Ramiro, como o chefe passa a se chamar (p. 223):

“E foi assim que a gente principiou a tristonha história de tantas caminhadas e vagos combates, e sofrimentos, que já relatei ao senhor, se não me engano até ao ponto em que Zé Bebelo voltou, com cinco homens, descendo o Rio Paracatú
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numa balsa de talos de burití, e herdou brioso o comando; e o que debaixo de Zé Bebelo fomos fazendo, bimbando vitórias, acho que eu disse até um fogo que demos, bem dado e bem ganho, na Fazenda São Serafim. Mas, isso, o senhor então já sabe.”
Mas não acabou aí. O narrador conta a sua vida a um interlocutor, dito narratário, cuja interlocução não é clara, mas se percebe pelas perguntas e respostas e explicações que o narrador lhe dirige, caracterizando a um só tempo, a autodiégese e o solilóquio. A um só tempo, há uma ficção, que trata da vida de jagunços, da luta entre bandos, de vingança, numa grande travessia pelos Gerais de Minas, Bahia e Goiás, e também há uma teoria da narrativa, algumas vezes sumarizada (“Mas para que contar ao senhor, no tinte, o que mais mereceu? Basta o vulto ligeiro de tudo”, p. 45), correndo paralela ao tecido ficcional, como se pode ver nos dois fragmentos abaixo, mas que são recorrentes no texto. O primeiro nos parece uma teoria da narrativa oral (p. 76-77); o segundo, deixando claros os perfis do narrador, da narrativa e do narratário (p. 77-78):

Teoria da narrativa oral
“Sei que estou contando errado, pelos altos. Desemendo. Mas não é por disfarçar, não pense. De grave, na lei comum, disse ao senhor quase tudo. Não crio receio. O senhor é homem de pensar
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o dos outros como sendo o seu, não é criatura de pôr denúncia. E meus feitos já revogaram, prescrição dita. Tenho meu respeito firmado. Agora, sou anta empoçada, ninguém me caça. Da vida pouco me resta – só o deo-gratias; e o troco. Bobéia. [...]. O que vale, são outras coisas. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou de pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. O senhor é bondoso de me ouvir. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe.”
O narrador, a narrativa e o narratário
“Invejo é a instrução que o senhor tem. Eu queria decifrar as coisas que são importantes. E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria vertente. Queria entender do medo e da coragem, e do gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!

Sendo isto. Ao dôido, doideiras digo. Mas o senhor é homem sobrevindo, sensato, fiel como papel, o senhor me ouve, pensa e repensa, e rediz, então me ajuda. Assim é como conto. Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença. Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas – e só essas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção.”
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A complexidade se aprofunda com o uso de um vocabulário próprio, que transita de arcaísmos a neologismos; de eruditismo a regionalismos; de processos aglutinativos a justaposições, ladeados por derivações regressivas inusitadas, prefixações, sufixações; de utilização de termos muito antigos na língua, que partem do século XIII, sem que sejam, necessariamente, arcaísmos, a ortografias, conscientemente, heterodoxas (ou deveríamos dizer heterografias?), como podemos ver na listagem abaixo:

nonada (século XVI, p. 13): Ninharia, insignificância; almargem (1310, p. 13, 1319): Pastagem, prado natural, almarge; prazido (1152, p. 14): Aprazer (séc. XIII), sentir prazer, contentar-se, deleitar-se; fantasiação (p. 14): Neologismo, com base em imaginação; tem um sentido de fantasia contínua; paramenta (Latim medieval, p. 14): Paramentos, originado do latim medieval paramentum, empregado por Guimarães Rosa no neutro plural, paramenta; estúrdio (p. 15): Regionalismo (MG e SP), desajuizado, estranho, esquisito; assisado (século XVII, p. 15): Que age com siso, ajuizado, sensato, ponderado; azougue (1344, p. 16): Pessoa de muita vivacidade, inquietude; desenorme (p. 16): Neologismo, maior do que enorme; susseguinte (p. 16): Neologismo, sucedeu o seguinte; madrasto (p. 17):
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Neologismo, a partir de madrasta; meremerência (p. 19): Nelogismo, merecimento e benemerência? Talvez, benemerência, com alteração fonética; desdoidar (p. 19): Neologismo; osga (1597, p. 21): Regionalismo de uso informal, no sentido de aversão, asco; borraina (século XVII, p. 22): Parte da sela estofada; pacificioso (p. 22): Neologismo por aglutinação de pacífico e cioso; belimbeleza (p. 39): Neologismo, com o sentido, talvez, de belo de beleza; vágado (1623, p. 42): Arcaísmo, vertigem; truaca (p. 42): Regionalismo de uso informal, embriaguez, bebedeira; intrujir (p. 43): Entrujir, ter a compreensão de algo; brumalva (p. 43): Neologismo, a aurora com a bruma; desexistir (p. 45): Neologismo, morrer; aspeito (1344, p. 45): Arcaísmo, aspecto; criaturo (p. 46): Neologismo, criatura, no paradigma de madrasto; glorionha (p. 59): Neologismo, gloríola; drede (séc. XIV, p. 61): Adrede, com aférese; aprôvo (p. 65): Neologismo, com base na derivação regressiva; desrir (p. 70): Neologismo, desfazer o riso, mesmo paradigma de desdoidar e desexistir; lealdar (séc. XV, p. 71): Tornar legal, exigência aduaneira para mercadorias; baeta (1574, p. 71): Tecido de lã de algodão; disquirir (1710, p. 71): Investigar, pesquisar. O verbo não é verbetizado, mas existe o substantivo disquisição; mendembe (p. 73): Lugar de mato cerrado, de difícil acesso. O termo correto é mandembe. Regionalismo; recacha (1634, p. 75): Cilada, derivação regressiva de recachar. Neologismo; riflear (p. 75): Neologismo. Atacar o inimigo com rifles; cererém (p. 75): O termo correto é chererém ou xererém, com o sentido de chuva fina, garoa.
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O leitor, no entanto, tem uma prazerosa compensação, ao observar que nada soa como artificial, numa prosa que vai desfiando ditos (“Passarinho que se debruça – o voo já está pronto!”, p. 17), provérbios (“A colheita é comum, mas o capinar é sozinho...”, p. 48), lições de vida (“Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”, p. 18), e se embrenhando numa intrincada geografia, cujo mapa se espraia pelos sertões de Minas Gerais, Bahia e Goiás, afinal de contas, “o sertão é do tamanho do mundo” (p. 59).

Não pense o leitor que a narrativa digressiva é apenas um recurso literário ou uma confusão do narrador. Jamais. Trata-se de perfeita homologia entre a complexidade de uma travessia física, pelos gerais, que “são sem tamanho”, e uma travessia psíquica, em busca de si mesmo. E diga-se, a travessia psíquica é muito mais complexa do que a física. Travessia ambivalente, portanto, pontuada a todo momento pela frase que costura essa narrativa de uma viagem transcendental – Viver é muito perigoso (p. 32):

“Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais em baixo, bem diverso do em que primeiro passou. Viver nem não é muito perigoso?”
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Essa travessia se pode ver em três momentos: a da vida de jagunço, a relação com Diadorim, e a busca da espiritualidade. A vida de jagunço se encerrou (“Ah, vai vir um tempo, em que não se usa mais matar gente... Eu, já estou velho”, p. 23), embora Riobaldo a tenha latente e possa trazer de volta, pelo menos o espírito aguerrido, se alguém se atrever a interromper a sua paz (“Chegassem viessem aqui com guerra em mim, com más partes, com outras leis, ou com sobejos olhares, e eu ainda sorteio de acender esta zona, ai, se, se! É na boca do trabuco: é no té-retê- retém...”, p. 24).

A relação com Diadorim, por exemplo, revela uma travessia frustrada, permeando toda a narrativa e deixando um grande sabor de arrependimento, sendo, na nossa visão, a grande trilha do romance, o esteio de toda a narrativa. É uma das margens do rio da vida, cuja travessia não dá para calcular, resultando em lugar bem diverso do planejado.

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A busca da espiritualidade é a travessia em curso, levando Riobaldo a beber em todas as águas religiosas, mas inclinado às lições doutrinárias do compadre Quelemém, cujo fundamento é a doutrina de “Cardéque” (p. 19):

“Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de meu compadre Quelemém, doutrina dele, de Cardéque.”
Há de tudo, nesse princípio: de uma épica moldada nos poemas clássicos, mas transposta, sem artifício, para o mundo sertanejo da tríade Minas-Bahia-Goiás, às ambiguidades da relação Riobaldo-Diadorim, que, a um só tempo, embalam uma sedução e encantamento, e provocam o asco, quando abalam a macheza do jagunço e os seus códigos de honra. Mas há, sobretudo, uma metalinguagem que tece uma teoria da narrativa, já mencionada, nas entrelinhas do que se narra, e entre tantas coisas
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de “sarapantar” evocadas, como o pacto com o diabo.

A leitura minuciosa é sempre maior que acompanhar a ação aventuresca, cujo véu encobre intenções e dá a forma superficial, de que o autor necessita para tecer uma fabulação em segundo grau. O leitor que se contenta com a superficialidade da ação não consegue ver o que está dito nas entrelinhas. Para isso, é necessário que ele saia da horizontalidade do discurso e passe para a verticalidade, buscando atingir o segundo grau da escrita literária, base de sua significância.

Ao se dirigir para o que a superficialidade esconde, o leitor descobrirá, nas páginas introdutórias do romance, os veios ou veredas principais do Grande sertão: a guerra entre os jagunços, um foco na vingança pela morte de Joca Ramiro, o amor culpado de Riobaldo por Diadorim, a mudança de atitude de Riobaldo, em busca da espiritualidade, a mobilidade da sua vida de jagunço, ora fazendo parte dos “medeiro-vazes”, ora dos “zé-bebelos”, mas adiantando a existência do que virá a se conhecer com a sedução pelos “joca-ramiros” até a etapa final da travessia da vida de jagunço, liderando os “riobaldos”.

Por fim, um conselho: por ser uma leitura inicial muito difícil, caro leitor, brigue, insista, persista, leia, releia, tresleia. Ao final dessa lida, as trilhas se mostrarão menos ásperas, afinal “quem mói no asp’ro não fatasêia” (p. 15).

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