No último dia 3 de setembro, fui à UFPB assistir ao “Ciceli, V Congresso Internacional CriadorAS na Educação Literária e Intercultural”. Mais especificamente, à mesa-redonda “Perspectivas Comparativas nos Estudos Woolfianos: questões de gênero, identidade e inovações narrativas”, com a Profa. Dra. Maria Aparecida de Oliveira, UFPB; Profa. Dra. Genilda Azerêdo, UFPB; Profa. Dra. Maria Rita Drumond Viana, Unicamp; Profa. Dra. Rosângela Neres, UEPB; e Profa. Dra. Nicea Nogueira, UFJF.
A convite da minha amiga, Profa. Genilda, fui assistir a essa mesa woolfiana. A fala da minha amiga e especialista na autora foi sobre: “Orlando, do romance à carta audiovisual: diálogo político-poético entre Paulo B. Preciado e Virginia Woolf”. Genilda falou de biografia, de paródia e da atualidade de Woolf para discussões contemporâneas sobre gênero, sexualidade, violência contra sujeitos trans e cidadania. E de como o romance Orlando subverte o modelo tradicional de biografar um sujeito. Uma ironia, talvez, como ela ressalta, pelo fato de o pai de Woolf, Sir Leslie Stephen, ter sido o primeiro biógrafo sobre homens. Segundo Genilda, Virginia brinca de modo autorreflexivo e cita como os homens têm a mão livre para agarrar a espada e as mulheres usam a mão para impedir que as sedas escorreguem de seus sonhos. Falou de como Orlando foi escrito como um ensaio. E de como Preciado atribui à escritora inglesa a “travessia” em seu lugar. Finalizou dizendo que Virginia Woolf fez uma intervenção na História da Literatura como uma CriadorA e falou de sua transcendência nessa arte.
A Profa. Niceia teve como tema: “Lendo o pensamento teórico-crítico feminista brasileiro sobre Virginia Woolf: primeiros estudos”. Estudos sobre as pesquisas da Profa.
Rita Terezinha Schmidt, professora (UFRGS), académica, crítica literária e investigadora, referências nos estudos de crítica feminista, literatura comparada e decolonial no Brasil ▪️ Associação Brasileira de Literatura Comparada
Dra. Rita Schmidt, que primeiro escreveu sobre a escrita e a pensadora inglesa. Virginia como teórica, já que se conhece mais o seu trabalho de ficção. Tive a oportunidade de ler, estudar e assistir à Profa. Rita nos vários Seminários Mulher e Literatura e o seu clássico: A crítica de V. Woolf: pressupostos teóricos sobre a arte de ficção, publicado pela editora pioneira Ilha do Desterro. Falou de Virginia como a que rompeu com o discurso crítico dominante e das metáforas: “granito” — a dureza dos fatos — e “arco-íris” — a magia da ficção. Também do entrelaçamento de Vida-Arte-Vida e do momento de revelação/epifania. Da sua revisão sobre personagem e da forma como primeiro impulso da ficção. O livro, a emoção mais exata, sem falhas. E de como as suas suposições transcendem a altura do seu tempo.
Rita Viana falou de “Virginia Woolf CriadorA de um grego todo seu: as cinco palavras de Antígona em cinco gêneros”. Este último pude aproveitar pouco, diante da minha falta de conhecimento sobre os textos analisados.
Ao final, uma pergunta da plateia: como é a recepção por parte dos alunos à escritora Virginia Woolf nos tempos de hoje? Todas responderam positiva e entusiasticamente, sem, no entanto, deixar de levar em consideração a dificuldade de se ler Woolf e a sua complexidade e experimentalismo nessa arte nada fácil.
Congresso Internacional Criadoras na Educação Literária e Intelectual promovido pela UFPB ▪️ Fonte: @ufpb.br
Particularmente, gostaria de ter também falado, mas o adiantado da hora me inibiu. Gostaria de dizer que Genilda foi quem me apresentou academicamente a essa escritora que amo, embora já tivesse lido pouca coisa dela e a respeito. Mas foram os contos “The Legacy” e “Lappin e Lapinova”, ambos com temática sobre a opressão feminina, que me deixaram curiosa e perplexa, cheia de admiração por essa escritora genial que, no início do século XX, se antecipava a tantas teorias feministas e literárias.
Genilda Alves Azerêdo, professora, doutora em estudos linguísticos e literários (inglês), pesquisadora do CNPq e autora de vários livros ▪️ Fonte: @cnpq.br
Mas foi quando li Um teto todo seu que alguma coisa mudou na minha cabeça. O tema da literatura, a forma como escreve um ensaio de tamanha grandeza e profundidade, os exemplos, as analogias e a inovação foram realmente arrebatadores para a minha carreira de professora e para a minha vida. A modernidade de Virginia, utilizando-se de um quarto, da solidão, da independência financeira, fortaleceu ainda mais o meu olhar feminista, já iniciado nos anos 70, quando da leitura de O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Quanto aos alunos/as, tive a alegria de trabalhar com a disciplina Literatura Inglesa Moderna (assim como a Profa. Genilda) por anos e pude compartilhar desses conhecimentos e dos meus sustos ao ler Virginia. Sim, eram mais contos, por conta da carga horária, mas os alunos, junto comigo, também se deleitavam com o saber e a maestria dessa escritora. É claro que, quando nos deparávamos com um conto como “Kew Gardens”, tínhamos, sim, que ter algum background histórico/teórico para melhor compreender as imagens, a sua experimentação com o fluxo de consciência e estados epifânicos.
Sou grata à Genilda, sou gratíssima à Virginia Woolf e à sua obra inesgotável, que ainda me deixa emocionada e em estado de espanto, mesmo depois de mais de 100 anos de sua existência.
Parabéns aos que fizeram e participaram desse evento.