Reencontrei minha entrevista com Heitor Coutinho Maroja para uma edição de junho de 1990, da Revista A CARTA. O texto fala de um hom...

Uma lição de vida

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Reencontrei minha entrevista com Heitor Coutinho Maroja para uma edição de junho de 1990, da Revista A CARTA. O texto fala de um homem que, aos 73 anos, trocou o ócio da aposentadoria pela ingrata e exaustiva tarefa de restaurar prédios e monumentos históricos.

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Fundação Menino de Engenho, instalada no edifício da antiga Casa de Câmara e Cadeia, Pilar-PB ▪ Imagem: FME
Testemunhei seu êxito em um desses casos: o da recuperação da Casa de Câmara e Cadeia de Pilar, local onde Pedro II, o Imperador, concedeu beija-mão à sociedade paraibana, um dia depois do Natal de 1859. Vi quando Heitor se acompanhou de dois primos – o sociólogo Odilon Ribeiro Coutinho e o presidente do Congresso Nacional Humberto Lucena – para requerer de José Sarney, então Presidente da República, o concurso do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em favor da reconstrução daquelas paredes derrubadas em 1985 pelo Rio Paraíba, numa de suas grandes enchentes. O prédio foi salvo e hoje abriga a Fundação Menino de Engenho instituída por ele, a duras penas.

Avisado da sua morte, corri a tempo de acompanhar o velório, em 17 de maio de 2002, na Igreja de Pilar. Ali, compadeci-me do choro de Tereza, sua dedicada companheira, e de umas tantas senhoras angustiadas, também, em razão de outro infortúnio: a falta absoluta de braços masculinos para a condução do corpo do nosso amigo ao Cemitério local.

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Igreja-matriz Nossa Senhora de Pilar, Pilar-PB ▪ Imagem: GMaps
Quase descrente da humanidade, fui à rua, bati à porta de seis casas e de uma delas consegui retirar um vereador a quem falei da ingratidão que nega ombros e força física para o transporte de um benfeitor a seu túmulo. Fiz ver que escreveria, no dia seguinte, sobre a vileza de braços cruzados. Meia dúzia de homens fortes, depois disso, arrebanhados ao acaso, encarregaram-se da condução daquele ataúde à cova da qual, mais dia, menos dia, ninguém escapa. Não lembro se ficaram para as orações.

Cabe a explicação, sem que eu encontre outra para tamanho desapreço: a gestão do município havia atribuído a Heitor o processo ajuizado, anos antes, pelo Ministério Público Federal contra um ex-prefeito responsabilizado
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Praça José Lins do Rego, Pilar-PB ▪ Imagem: GMaps
pela derrubada do belo Pavilhão, templo das memórias de sucessivas gerações, em área tombada da cidade.

Que bom constatar, agora, o respeito e a admiração daquela gente por Heitor Maroja. Também, o reconhecimento a ele expresso pelos gestores de hoje, gente mais jovem e consciente de que Pilar tem no turismo, com suas oportunidades de emprego e renda, a sua mais sentida vocação. Gente sabedora de que isso somente será levado a bom termo com a preservação e a difusão dos seus bens culturais, históricos e artísticos, neles incluídos o artesanato, os folguedos populares e os engenhos de fogo morto, ambiente dos romances do Ciclo da Cana de Açúcar, de José Lins do Rego.

“Uma lição de vida” foi o título dado à entrevista n’A CARTA de junho de 1990. Naquela conversa, conheci muito da alma boa de Heitor, alma útil à Paraíba e a seu povo, indiscutivelmente. Inteirei-me, então, da sua gana para o trabalho aos 73 anos, uma idade na qual a quase totalidade dos seres humanos busca sombra e água fresca.

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Heitor Coutinho Maroja (1918-2002), político e administrador paraibano, nascido em Bananeiras. ▪ Fonte: Instagram Pilar Memória
Nascido em Bananeiras, meu amigo chegou a Pilar, em 1919, quando mal dava os primeiros passos. Não conheceu os pais, mortos pela gripe espanhola, razão pela qual passou aos cuidados de um tio, o Major João José Maroja. “Meu tio, que também havia criado meu pai, não era militar, era farmacêutico. A titulação resultava dos costumes de uma época em que a distinção às figuras mais expressivas valia patentes da Guarda Nacional”, explicou-me. É preciso informar que o “Major” em questão participou, ativamente, da campanha de Epitácio Pessoa, tornou-se prefeito e, tempo depois, deputado estadual com sucessivas reeleições.

Paraibano de boa cepa, Heitor tinha parentesco com personagens politicamente díspares como o usineiro Agnaldo Veloso Borges, Odilon e o também já referido Humberto Lucena. Em 1939, estudante de agronomia no Recife, foi aos Estados Unidos para estágio na Universidade da Flórida, de onde retornou dois anos depois como distribuidor da Chrysler em Pernambuco, em sociedade com o primo Flávio Ribeiro Coutinho Sobrinho. O negócio deixou de prosperar em 1958, ano em que o Brasil estourou suas reservas. Depois de uma doença que o levou, temporariamente, à inatividade, soergueu-se mais física do que economicamente. Tratou na Suécia de uma asma que o acompanhou ao túmulo. A ele, a Rede Globo de Televisão, que o teve nos quadros regionais, deve alguns dos esforços mais efetivos para a ampliação dos sinais no Nordeste.

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Heitor Maroja
Fiz a pergunta: “Você também foi prefeito. Como isso aconteceu?”. Eis a resposta:

“Ocorreu em 1962, em Juripiranga, onde fui, primeiramente, vice-prefeito na administração de Teonas Cavalcanti. Praticamente, era eu que administrava o município. Promovi, ali, a instalação da eletricidade mediante convênio direto com a Chesf. O dinheiro sobrou tanto que deu para eletrificar, ainda, São Miguel de Taipu. Depois, me elegi prefeito, em chapa única, porque exigi que não houvesse disputa. Durante essa segunda administração, toquei alguns projetos marcados pela originalidade.
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GD'Art
Fui, por exemplo, o primeiro prefeito da Paraíba a pedir e receber verba da Sudene para saneamento. A instalação dos canos deu-se por convênio com a Fundação Sesp que implantou o sistema, depois ampliado. Meus contatos com a Sudene foram facilitados pela minha aproximação com o escritório recifense do programa assistencial Aliança Para o Progresso. Tal proximidade também me permitiu o convênio com a Universidade Federal de Pernambuco do qual resultou o Plano Diretor de Juripiranga, surpreendentemente, o primeiro município brasileiro a ter seu Plano Diretor. Com esse livrinho impresso pela UFPE, eu entrava nas repartições e trazia verbas. Infelizmente, nossos administradores não costumam dar prosseguimento às realizações dos antecessores, o que em plano mais amplo prejudica, irremediavelmente, a administração pública nacional”.

Assim foi Heitor Maroja, um homem admirável, um arquiteto de legados, uma lição de vida, não custa repetir.

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