O ASSALTO
Na casa do irmão de Painho, os acontecimentos eram maravilhosamente fora da curva. Tio Fernando e Tia Creuza faziam de tudo para a vida ter a magia da felicidade. Todos os revezes eram vistos como aprendizado.
Como reagir a um assalto com homens armados, quando a família está reunida para mais uma animada noite de baralho?
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Sexta-feira à noite era baralho na casa do meu avô. Sempre foi. Não era vício em apostar; isso nunca importou pra ele. O negócio dele era estratégia. Contar as cartas, saber o que o adversário tinha na mão antes de ele mesmo saber. Um salão anexo à casa, cheiro de charuto e café coado, os mesmos amigos toda semana, sem falta.
Quase todo fim de semana, eu e meus primos chegávamos na sexta e ficávamos até domingo. Piscina, campo de futebol, quadra de vôlei, sinuca, mesa de carteado, pé de pitanga, goiaba, pitomba no quintal. Um country club dentro de casa.
Eu e meus primos no loft do andar de cima. Passos pesados na escada. Meu avô no topo, branco como papel. Pergunto se está tudo bem. Ele responde baixo, quase sussurrando: fiquem calmos, não façam nada de extraordinário, estamos sendo assaltados. Atrás dele, um homem armado. Depois, minha avó. Depois, mais dois homens armados.
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Meu avô abre o cofre sem pressa, sem tremer, como quem mostra a casa pra uma visita.
A primeira coisa que os ladrões viram foi uma barra de ouro de um quilo. O chefe quase pulou: opa, isso aqui já garante nosso trabalho, vamos embora, pessoal. Barra falsa, presente de um comandante de navio, brilhando feito ouro de verdade dentro do cofre escuro. Se não fosse ela, teriam vasculhado mais, ficado mais tempo, levado mais coisa. Levaram joias, um relógio caro, um trocado em dinheiro. E foram embora.
Descendo a escada, um dos ladrões avisa: fiquem aqui em cima, a gente não vai fazer mal a ninguém, estamos só trabalhando, não façam nenhuma estupidez. Com meus 11 anos, pergunto: tem certeza que vai nos deixar aqui? Tem telefone bem ali, não quero confusão. Ele olha pra mim: tudo bem, eu confio em você. O medo não era o telefone. Era alguém fazer alguma coisa e a culpa cair em cima de mim. Trinta e quatro anos depois, essa frase ainda rende risada em qualquer mesa de almoço de família.
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Um dos homens abre a geladeira e pega a garrafa d'água da minha avó, aquela sagrada, intocável, e já leva à boca. Eu interrompo: ei, tem copo ali. Onze anos, germofóbico até o osso, mais preocupado com a saliva de um estranho na garrafa da vó do que com a arma na cintura dele.
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Só vi meu avô branco como papel uma vez na vida, naquela escada, com um homem armado atrás dele, carregando o peso sozinho pra ninguém mais sentir. Anos depois, em março deste ano, quem ficou branco fui eu, fomos nós, a família inteira, ouvindo o médico falar no estágio quatro.
Dessa vez, fomos nós que carregamos o peso escondido.
Ele nunca soube. Passou os últimos meses rindo, jogando baralho, comendo mal, feliz, sem fazer ideia. Do mesmo jeito que ele sempre fez por nós, agora éramos nós fazendo por ele.
Autor : Márcio Cavalcanti - neto de Fernando Guedes Cavalcanti (* 32/09/1928 ⏤ † 12/09/2026)










