Numa antiga fábula atribuída a Esopo, um homem vê sua carroça atolada e, em vez de pôr os ombros na roda, pede auxílio aos deuses. O homem olha para o céu quando deveria olhar para a roda. É uma imagem da condição humana. Passamos boa parte da vida esperando que alguma força exterior nos retire da lama, quando a primeira providência necessária é simplesmente empurrar.
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Há uma frase atribuída a Santo Inácio de Loyola que diz: “Reze como se tudo dependesse de Deus e trabalhe como se tudo dependesse de você.” Ela nos obriga a conciliar confiança e responsabilidade, fé e ação, humildade e coragem.
Há outro ensinamento que vai na mesma direção, esse atribuído à espiritualidade de São Bento de Núrsia: “Ora et labora”. Louis Pauwels e Jacques Bergier, em “O Despertar dos Mágicos”, chegaram a uma formulação ainda mais perturbadora. Ao recordar as últimas palavras do pai de Pauwels, registraram: “É preciso não contar demasiadamente com Deus, mas talvez Deus conte conosco...” A frase parece, à primeira vista, quase uma heresia. Afinal, costumamos imaginar que somos nós que contamos com Deus.
A sabedoria árabe exprime a mesma ideia numa imagem magnífica: “Confie em Alá, mas amarre o camelo.” A frase tornou-se uma síntese da atitude segundo a qual a confiança em Deus não elimina a responsabilidade humana. É a diferença entre a fé e o comodismo. O homem pode acreditar profundamente em Deus, mas, se deixar o camelo solto, não terá direito de atribuir a Ele a culpa quando o animal desaparecer.
Há gente que faz exatamente isso com a própria existência. Pede prosperidade, mas não trabalha; pede conhecimento, mas não estuda; pede reconciliação, mas não telefona; pede mudança, mas permanece imóvel. Quer a intervenção divina sem a inconveniência da participação pessoal. É uma forma particularmente confortável de irresponsabilidade: quando dá certo, foi Deus; quando dá errado, também foi Deus.
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A fé sem ação pode transformar-se em fatalismo. A ação sem fé pode transformar-se em arrogância. Uma acredita que nada depende de nós; a outra acredita que tudo depende. O equilíbrio está no meio: agir com toda a força e aceitar com humildade o resultado que não controlamos.
Talvez a oração mais necessária não seja “Senhor, faça por mim”, e sim “Senhor, mostra-me o que devo fazer”. E, depois que soubermos, que tenhamos coragem de fazê-lo.
A carroça está atolada. O camelo está solto. A vida está passando. Reze, sim. Mas empurre a carroça. E, antes de dormir, não se esqueça de amarrar o camelo.









