No último capítulo do romance S. Bernardo, o personagem-narrador Paulo Honório, através de um bem urdido monólogo interior, lamenta o que foi a sua vida e confessa:
O que estou é velho. Cinquenta anos pelo São Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros.
E prossegue, mais adiante:
Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e dormir como um porco! Como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo? (2006, p. 216).
Hoje amanheci o dia me lembrando que há cinquenta anos ingressei na docência universitária, na Universidade Federal de Alagoas (UFAL — 1976), uma data-marco na minha vida. Diferente do personagem Paulo Honório, não tenho nada a lamentar. Reconheço que não sou mais a jovem professora idealista que começou a dar aulas de Teoria Literária no curso de Letras da UFAL para jovens sonhadores, mas não me desviei numa “errada”, para usar uma expressão cara ao Mestre Graciliano.
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Foi em Maceió que publiquei meu primeiro artigo em um jornal — Jornal de Alagoas. O editor era Noaldo Dantas, paraibano que havia sido colega de faculdade de meu marido no curso de Direito da UFPB. Meu primeiro texto trazia esse título: Pelos caminhos de Graciliano. Li e pedi que os alunos lessem o romance Angústia, o que
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Além das aulas na UFAL, lecionei também no Colégio Madalena Sofia e na antiga Escola Técnica Federal de Alagoas, nesta última por meio de concurso público de provas e títulos. Cheguei a dar aulas nos três expedientes. Era jovem, idealista e não sentia ainda o peso dos anos. Como na canção de Ataulfo Alves, Meus tempos de criança: “eu era feliz e não sabia”.
Quando deixei a universidade para me transferir para o Recife, a coordenação do curso de Letras organizou uma festa de despedida com a presença dos professores, meus colegas, e do reitor, Dr. Manoel Machado Ramalho de Azevedo. Nunca me senti tão prestigiada.
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Na véspera da mudança para o Recife, tive uma grande surpresa: uma comitiva com onze alunos compareceu à minha residência e me presenteou com um buquê de flores e uma placa que conservo até hoje com muito carinho. Na frente da placa, está escrito:
Neide,
Vai com você um pedaço de nós.
Fica conosco sua marca de amor.
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Lembro-me bem de todos esses alunos. Alguns seguiram o magistério superior, como Roberto Sarmento e Edilma Bonfim; outros foram professores de escolas públicas, criaram escolas e foram bem-sucedidos na escolha da profissão.
Diante de tudo isso, só resta dizer: Maceió não foi apenas um “retrato na parede”; foi o início de muita coisa boa que aconteceu posteriormente. Muito aprendi com os livros e com os alunos.










