Há uma sabedoria antiga na ideia de reservar um momento para olhar para trás. Não se trata de um momento para contar conquistas, medir fracassos ou fazer um inventário daquilo que ganhamos e perdemos, mas para perguntar, com alguma honestidade quem fomos durante o último ano.
Yom Kippur ▪ Wikimedia
A tradição judaica possui um momento particularmente profundo para essa reflexão. É o Yom Kippur, o Dia do Perdão. É um tempo de introspecção, de reconhecimento dos próprios erros, de arrependimento e de busca por reconciliação. Mais do que pedir perdão, existe ali um convite para olhar para dentro e reconhecer a própria responsabilidade diante das escolhas feitas e das palavras pronunciadas.
Talvez todos precisássemos de um Yom Kippur, mesmo aqueles que não pertencem à tradição judaica.
Um dia em que pudéssemos suspender, por algumas horas, as justificativas e os argumentos que construímos para explicar nossas próprias atitudes. Um momento sem a necessidade de estarmos certos. Sem a preocupação de provar aos outros que tínhamos razão. Apenas nós diante de nós mesmos, porque é relativamente fácil lembrar aquilo que fizeram conosco. Guardamos com impressionante precisão a palavra que nos feriu, a injustiça que sofremos, a ausência de alguém, a decepção, a ingratidão.
Yom Kippur ▪ Hostages Square, Tel Aviv ▪ Fonte: Wikimedia
Mais difícil é lembrar aquilo que fizemos e de quantas vezes fomos injustos sem perceber, ou quantas vezes fomos ásperos quando poderíamos ter sido gentis. Eventulamente dizemos palavras no impulso e que talvez tenham permanecido na memória de alguém muito depois de esquecidas por nós. Em outros momentos deixamos de pedir desculpas porque o orgulho falou mais alto. Certa vez alguém precisou de nós e estávamos ocupados demais com nossos próprios problemas para perceber o peso que o outro estava carregando.
Avaliar a própria conduta não significa transformar a vida em um tribunal permanente. Também não se trata de cultivar culpa, mas consciência. A culpa pode nos aprisionar no passado,
Yom Kippur ▪ Wikimedia
a consciência pode nos transformar. Talvez uma das perguntas mais importantes que possamos fazer ao final de um ano seja, se me tornei uma pessoa melhor para as pessoas que convivem comigo. Não necessariamente mais bem-sucedida, mais rica, mais reconhecida ou mais admirada.
Melhor, mais paciente, mais justa e generosa. Capaz de ouvir, mais cuidadosa com as palavras. Humilde para reconhecer um erro, mas corajosa para reparar aquilo que causamos.
Há também uma pergunta ainda mais difícil. Quem sofreu por causa de alguma atitude minha? Nem sempre teremos a resposta. Algumas pessoas partiram de nossas vidas sem explicar por quê, outras permaneceram, mas carregando silenciosamente alguma ferida que talvez tenhamos causado. É por isso que a introspecção exige coragem, olhar para dentro pode ser mais difícil do que enfrentar o mundo. Nós somos excelentes advogados de nós mesmos. Encontramos explicações, circunstâncias, motivos e justificativas. Quando erramos, frequentemente lembramos aquilo que nos levou ao erro. Quando o outro erra, lembramos apenas o erro.
Yom Kippur ▪ Wikimedia
Amadurecer é justamente aprender a aplicar a nós mesmos a mesma medida de compreensão que aplicamos aos outros, e, algumas vezes, a mesma exigência. O Yom Kippur nos lembra que pedir perdão não é apenas uma formalidade. O verdadeiro arrependimento pressupõe mudança. Se repetimos amanhã aquilo que lamentamos hoje, talvez nosso pedido de perdão tenha sido apenas uma maneira de aliviar a consciência.
Perdoar também é uma forma de libertação. Mas perdoar não significa necessariamente esquecer. Significa não permitir que aquilo que aconteceu continue governando nossa vida.
Talvez exista uma terceira dimensão, ainda mais bonita, perdoar a nós mesmos. Não para justificar nossos erros, mas para aceitar que somos seres inacabados porque carregamos contradições. Somos capazes de generosidade e egoísmo, coragem e medo, amor e indiferença. Somos feitos de acertos e erros, de momentos luminosos e de pequenas sombras que preferiríamos esconder.
Yom Kippur ▪ Wikimedia
O importante não é terminar o ano acreditando que fomos perfeitos, mas terminar sabendo onde precisamos mudar. Talvez devêssemos criar, todos os anos, nosso próprio dia de avaliação. Sentar em silêncio e perguntar o que fiz de bom, onde errei, quem ajudei, quem magoei, a quem devo um pedido de desculpas, de quem preciso me despedir. E, sobretudo, que pessoa quero ser no próximo ano. Porque o calendário muda sozinho, nós não. A mudança exige consciência, escolha e, muitas vezes, coragem.
Yom Kippur ▪ Wikimedia
O verdadeiro sentido de um novo ano não está apenas em começar outro ciclo de doze meses, mas em receber uma nova oportunidade de sermos diferentes dentro dele. No fundo, avaliar nossa própria conduta é uma maneira de dizer à vida que ainda posso me tornar alguém melhor do que fui ontem. E talvez esse seja um dos mais sinceros significados de recomeçar.