A Odisseia tem uma estrutura muito interessante e enganadora. Aparentemente, é menos complexa do que a estrutura da Ilíada, por ter uma linearidade reconhecível de imediato e por centrar as atenções em um personagem principal, Odisseus. Mesmo havendo a narrativa intercalada de Odisseus, por quatro cantos (IX-XII), através de um flashback, que propicia o conhecimento de acontecimentos anteriores ao início do poema, remontando à volta dos Aqueus ou Argivos a suas terras, ainda assim, a linearidade da narrativa está garantida.
GD'Art
\
Sentimos, entretanto, a complexidade da construção do poema quando, em leitura mais detida, observamos o paralelo que se estabelece em várias ocasiões do poema, que procura se concentrar no que é mais importante nessa narrativa de viagem e de volta – a educação de Telêmaco, a παιδεία.
GD'Art
De modo a exemplificar o que conseguimos ressaltar da leitura, destacamos alguns dos mais importantes paralelismos na estruturação do poema, a saber:
1. Paralelismo da narrativa: a narrativa de Odisseus aos Feácios (Cantos IX-XII) encontra paralelo em sua narrativa ao porqueiro Eumeu (Canto XIV);
2. Paralelismo de ação: a ruptura da Lei da Hospitalidade pelos pretendentes (desde o Canto I) encontra paralelo com a do Ciclope (Canto IX); por sua vez, essas rupturas se contrapõem a uma reiteração constante da Lei da Hospitalidade, ao longo da narrativa;
3. Paralelismo do mito: a Odisseia apresenta de maneira fragmentada e constante, pelo menos até perto de sua metade, o Canto XI, o mito de Agamêmnon, Clitemnestra, Egisto e Orestes, num contraponto ao mito de Odisseus, Penélope, Pretendentes e Telêmaco;
4. Paralelismo de estrutura: a Odisseia bem pode ser chamada de Livro dos Reconhecimentos, do mesmo modo que a Ilíada é o Livro das Prolepses. O reconhecimento de Odisseus, feito aos poucos e com prudência e reflexão, encontra paralelo na paideia de Telêmaco. O banquete e reconhecimento de Telêmaco por Helena, no Canto IV, são refletidos no banquete e reconhecimento de Odisseus, no Canto VIII, diante de Alcino. Telêmaco recebe dois presentes iguais, um de Nestor (Canto IV, versos 613-619) e outro de Menelau (Canto XV, versos 113-119) – uma taça de prata com bordas de ouro, feita por Hefestos, que Fêdimos dos Sidônios dera àqueles heróis. Aqui não se trata apenas de um paralelismo de assunto, mas de estrutura dos versos, iguais em tudo por tudo e ocupando posições semelhantes: 613/113; 619/119. Telêmaco, que está sob a ameaça de morte por causa de uma emboscada dos pretendentes (Canto XV, versos 27-31), dá guarida a Teoclímeno, perseguido e jurado de morte por ter matado um parente (Canto XV, versos 271-278).
GD'Art
Os dois primeiros reconhecimentos de Odisseus se dão no Canto IX. Inicialmente, ele se dá a conhecer a Alcino (versos 19-20), antes de iniciar a sua longa narrativa por quatro cantos; depois, ele se dá a conhecer a Polifemo (versos 502-505), quando, após ter-lhe cegado o único olho, empreende a fuga da ilha dos Ciclopes. O terceiro reconhecimento quem faz é Circe, no Canto X (versos 330-332). O quarto reconhecimento é ao filho, Telêmaco, no Canto XVI (versos 186-189); o quinto se dá no Canto XVII, quando Odisseus é reconhecido, vinte anos depois, pelo seu cão Argos, que morre logo após ver o seu dono (versos 291-327). E há outros mais: ao porqueiro Eumeu, à criada Euricleia, aos pretendentes, a Penélope, ao pai Laertes...
GD'Art
Desses paralelismos, o que mais se encontra evidente é o mito de Agamêmnon. Mito que vai se compondo, do Canto I ao XI, a partir de fragmentos, na voz de deuses e personagens. Em nenhum outro texto grego, dos que chegaram até nós, o mito do herói Atrida é tão substancial quanto na Odisseia. Mesmo existindo, trezentos anos depois, o Agamêmnon, primeira parte da Oresteia, trilogia de Ésquilo, o texto homérico nos traz o essencial sobre esse herói. Assim, vemos o mito no Canto I (versos 32-48; 296-300); Canto III (versos 232-235; 247-310); Canto IV (versos 90-92; 512-537); Canto XI (versos 385-464). O mito de Agamêmnon compreende 648 versos, mais do que a média dos cantos da Odisseia.
GD'Art
A que vem esta composição paulatina e fragmentada do mito de Agamêmnon, dentro da Odisseia? Vem, na nossa compreensão, para se constituir num paralelo com o mito de Odisseus. Agamêmnon e Clitemnestra estão para Odisseus e Penélope, como Egisto está para os pretendentes e Orestes está para Telêmaco. Assim como Agamêmnon, Odisseus conseguirá retornar ao lar, mas, diferentemente do Atrida, ele não morrerá, por ter seguido a prudência e a reflexão. Agamêmnon é morto por Clitemnestra pelas ofensas cometidas contra os deuses, dentre as quais permitir o sacrifício da própria filha Ifigênia, enganando-a (veja-se a tragédia Ifigênia em Áulis, de Eurípides).
GD'Art
Clitemnestra é o contraponto de Penélope, pois trai o marido e o mata ao seu retorno; Penélope, sempre fiel ao marido, age com temperança e reflexão, atrasando ao máximo a decisão sobre os pretendentes, com a astúcia da mortalha de Laertes, tecida durante o dia e destecida à noite (Canto II), desejando o seu retorno, para restaurar a ordem no lar e no reino. Odisseus e Penélope são, portanto, os modelos de prudência, temperança, fidelidade e respeito aos deuses.
Já Orestes, filho de Agamêmnon, é o modelo para o jovem Telêmaco, se este quiser conseguir glória e fama para a posteridade. Tendo matado os assassinos do pai, Orestes conquista a glória e a fama, tornando-se herói. Cabe a Telêmaco, para pôr cobro à arrogância dos pretendentes, fazer sua viagem iniciática, em busca do pai, de modo a sair da incômoda posição de tola criança (νήπιος) e se tornar um homem, mais do que um homem, um herói, conceitos que a palavra ἀνήρ abriga.
GD'Art
É preciso, assim como o mito de Agamêmnon, que nos aparece fragmentado, que a educação de Telêmaco se faça dessa maneira, através de duas viagens a locais distintos – Pilos de Nestor e Esparta de Menelau, ambas no Peloponeso –, em busca de saber notícias do pai, para tomar as decisões que devem ser impostas no seu lar: fazer os funerais simbólicos do pai, em caso de saber de sua morte e de não poder contar com o seu corpo; liberar a mãe para novo casamento, entregá-la ao novo marido e, então, poder gerir com tranquilidade os bens, que estão sendo dilapidados pelos arrogantes pretendentes, abancados no seu palácio. Em caso de saber que o pai está vivo, esperar ainda um ano por sua volta, para, então, dar continuidade à vida.
A viagem iniciática se complementa, para a educação de Telêmaco, com o contato com o seu pai, a partir do Canto XV, quando Odisseus se dá a conhecer ao filho. O processo de reconhecimento (ἀναγνώρισις), crucial dentro da Odisseia, uma vez que a educação deve ser conduzida com paciência, é feito com prudência e reflexão, depois de Odisseus fazer-se reconhecido a alguns poucos. O açodamento só levará à ruína. Odisseus deve, portanto, construir a temperança no espírito do filho, do porqueiro, do boieiro e da ama, Euricleia, de modo a poder vencer os pretendentes e estabelecer a paz no seu reino, retomando o controle de sua casa.
GD'Art
Outros paralelos existem, desvelando a complexidade do poema homérico. Assim é que o Canto II da Odisseia encontra uma similaridade com o Canto I da Ilíada. Convocada a assembleia com os pretendentes, Telêmaco e os intrusos se desentendem, com o jovem chegando a jogar o cetro no chão, tal qual fizera Aquiles, na querela com Agamêmnon. Por outro lado, o catálogo dos pretendentes, no Canto XVI (versos 243-255), encontra similaridade no catálogo das naus e dos heróis, no Canto II da Ilíada (versos 484-877).
Já a narrativa que Odisseus, envelhecido e disfarçado por Atena, faz ao porqueiro Eumeu é semelhante à narrativa que ele desfiou na Feácia para o rei Alcino e aos demais participantes do banquete. Nessa narrativa a Eumeu, encontramos os episódios vividos entre os Lestrigões, em Ogígia, no palácio de Circe e entre os Feácios. Mais adiante, no Canto XVII, na narrativa de Odisseus a Antínoo (versos 415-444), novamente aparece a estrutura do episódio dos Lestrigões. O que nos mostra o quanto é temerário acreditar nas histórias de nosso personagem, a quem o rei Alcino elogia, dizendo que ele narra as aventuras como se fosse um aedo... Aliás, neste mesmo Canto XVII, Eumeu diz a Penélope que ouvir Odisseus – ainda disfarçado de mendigo – “é como olhar em direção a um aedo, que canta instruído pelos deuses” (ὡς δ’ ὅτ’ ἀοιδὸν ἀνὴρ ποτιδέρκεται, ὅς τε θεῶν ἒξ, verso 518).
GD'Art
Do mesmo modo, vemos que a lei da hospitalidade, encontrada a cada momento no poema, costurando a sua trama, vem a calhar para que se possa fazer um contraponto com a arrogância dos pretendentes à mão de Penélope: alojam-se na casa de um homem, sem terem sido convidados; dilapidam seus bens; cortejam sua esposa, constrangendo-a a escolher um deles; planejam a morte do filho desse homem e tratam mal os convidados que ali chegam.
GD'Art
Podemos dizer, então, que na Odisseia temos uma estrutura de paralelismo, em que se encontra a educação do herói, para quem a lei da hospitalidade é fundamental, assim como é fundamental o reconhecimento do herói, pois, sem ela, a paideia, não existe temperança ou reflexão, a Sofrosyne (σωφροσύνη).
Desse paralelismo, fica a preciosa lição de que, diante da complexidade das obras épicas e seminais, ler a Odisseia não é só ler a Odisseia.
Leia aqui o sétimo capítulo da série Deixemos Homero falar