Nesta data, 25 de setembro, 61 anos atrás, Lobo entrou na minha vida. Era um belíssimo pastor-belga preto, pelos longos, olhar muito inteligente. Chegou lá em casa pelas mãos de Paulo Fernando e logo me adotou como seu dono. Foi como se eu tivesse conquistado o seu coração.
Acompanhou-me ao longo da minha juventude, nos principais momentos da minha vida. Até nas serenatas que fazíamos!
GD'Art
Às vezes, quando saía atrás de uma cadela, ficava três dias desaparecido. Voltava faminto, sedento e com o “paletó” todo sujo e rasgado.
Demonstrando inteligência e senso de segurança, sem ninguém lhe ensinar, para guardar a casa, que ficava numa esquina, ele escolheu a quina do muro. Sabia que, daquele ângulo, conseguia dominar os dois pontos fracos da residência.
De dia, gostava de se impor. Quando as alunas do Colégio das Lourdinas faziam ensaio de marcha para o Dia da Pátria, na praça em frente à nossa casa, ele pulava do muro e partia latindo para assustar as meninas, desfazendo a formação dos pelotões, com elas se espalhando pela praça!
GD'Art
Durante a longa estadia conosco, também tivemos outros amiguinhos. As suas histórias são dignas de ser contadas.
Um deles foi o pombo Carlitos. Este se apaixonou por uma das galinhas do nosso terreiro, não deixando as outras se aproximarem dela. Quando jogavam milho para as galinhas, ele tinha um ritual: não deixava que ela comesse antes dele, comendo primeiro. Machista! O curioso é que ele dormia sobre as costas da galinha, no galinheiro.
GD'Art
Um dia, a minha irmã, Francisca Luiza, ganhou uma linda sagüizinha, que batizei de Gal Costa, pois ela se parecia muito com a cantora dos Novos Baianos. Não preciso dizer que Gal Costa também me adotou, como todos os outros bichos da casa.
Pois bem. O sonho de consumo de Lobo passou a ser abocanhá-la. Mas nunca o conseguiu: primeiro, porque ela era muito ágil e subia para fora do alcance dele; e também porque sempre aparecia alguém para atrapalhar a sua ação. Aí ele recuava frustrado. E a macaquinha também era muito esperta e escapava fácil.
Gal Costa tinha comportamento de cretinice, pois gostava de provocá-lo. Descobriu que a guia da coleira de Lobo, quando estava preso no oitão da casa, não permitia que este chegasse até a janela. Pois bem, a cretina subia até o parapeito da janela do gabinete e o xingava, com seu jeito de provocar, insultando-o com chiados e assobios. O pobre do Lobo pulava, tentando abocanhá-la, mas só chegava, no máximo, a uns 20 centímetros dela, que lhe virava a bunda e levantava a cauda, deixando-o mais furioso ainda! Mas isso é outra história.
GD'Art
Para essas serenatas, usávamos a Kombi do pai do amigo Luiz Antônio Menezes, que também já se foi e está a fazer serenatas pras anjas lá no Céu!
GD'Art
Ele estava seguindo uma cadela, com uma longa fila de cachorros atrás dos dois! Eu assobiei para ele, que ergueu as orelhas. Viu-me e reconheceu-me. Veio até mim, cheirou-me e fez uma grande festa.
Aí parou e olhou para trás, para a cadela. Olhou para mim e se decidiu: correu para a sua garota, antes que algum aventureiro dela se apossasse.
A seresta prosseguiu. Mas, quando estávamos para terminar, aconteceu uma surpresa: eis que chega Lobo, cumprimenta todo mundo, entra na Kombi e assume um lugar. Passou o resto da noite nos acompanhando nas nossas serenatas!
As suas aventuras amorosas nem sempre terminavam em final feliz. Certa vez, após dois dias desaparecido, Lobo apareceu no meu quarto. Pela sua atitude, percebi que estava sofrendo.
GD'Art
Ele fez o que sempre fazia: procurar-me quando sofria de alguma coisa.
Levei-o ao veterinário, que limpou a ferida e me ensinou o que devia fazer. O tratamento foi longo; a ferida demorou a cicatrizar. Todas as manhãs, eu limpava a ferida, tirava todos os bichos e aplicava o remédio prescrito. Mas ele finalmente sarou!
Abro espaço para fazer justiça. A minha mãe, Nair, diferente do meu pai, Francisco, não gostava de bicho nenhum! Aturava por causa da gente e do amor imenso que Papai tinha.
Pois bem: ao longo do tratamento da ferida de Lobo, foi ela, a minha mãe, que me ajudou até o último instante!
Aproveito para estender a justiça à minha esposa, Ilma. Assim como Mamãe, ela não gosta de nenhum bicho. E, assim como Mamãe, mais do que tolera: criou simpatia e até me ajuda a criá-los!
GD'Art
Lobo pagou caro pelo seu vício de perseguir carros. Para a minha imensa tristeza, encontrou o seu fim numa manhã de dezembro de 1973, na Avenida Epitácio Pessoa, atropelado por algum automóvel. Só tive a oportunidade de dar-lhe uma sepultura decente.
Lobo foi um companheiro fiel e amigo inesquecível. Preencheu os meus melhores momentos ao longo de oito anos.
Até hoje eu sinto muitas saudades dele.












