Era o 2 de dezembro de 1945, o mais cívico dos anos de toda a minha vivência, embora não passasse dos meus 12 anos ou, talvez mesmo, por isso. Foi o ano em que a Grande Guerra acabou, a narração do rádio televisionada pela imaginação, o público a fazer auditório aquém do balcão da mercearia de Seu Nequinho, um dos grandes do nosso pequeno comércio.
Edição extra de O Globo anuncia, em 7 de maio de 1945, a rendição das forças alemãs e o fim da guerra na Europa, recebido no Brasil com manchetes de “Vitória!”. ▪ Fonte: BN
Ah, onde estão Luiz Mota, Fernando Cunha Lima - companheiro de sala de aula, Raimundo Adolfo, Nereu Pereira, Roberto Schabo, Miriel Azevedo, Nouri, Paulo Fracinete Antônio Rached, Otávio Isidro, Otaviano Braz, o pequeno Oscar, Leônidas (que pagava o colégio
Multidão recebe os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira no Rio de Janeiro, em 1945, após o retorno da campanha na Itália. ▪ Fonte: Arquivo Nacional.
Com a liberdade a soprar impetuosa sobre os escombros da guerra, Getúlio passa de ditador a democrata, logo ovacionado no desfile dos pracinhas desembarcados no Rio, a imagem do ditador incrivelmente ofuscada pelo criador do salário-mínimo, fundador da Companhia Siderúrgica Nacional, da Petrobrás, a isto se somando às benesses do ano a quebra da censura com a entrevista de José Américo rompendo a censura, levando do já ex-ditador a convocar eleições, ressurgindo os partidos políticos e o calor das eleições.
No Brasil profundo do menino aldeão reflete-se este grande alvoroço ainda que vivido de forma indireta ou através das ondas curtas do rádio e das figuras que nos pareciam imensas no jornal: Churchill, De Gaulle, Roosevelt, Stalin. Aldeia, sim, mas não muito diferente do resto do país, os ricos, que não eram muitos, do lado do Brigadeiro e os funcionários e comerciantes do lado de Dutra. Amizades rompidas a evitarem as calçadas adversárias por amor ao Brigadeiro da UDN ou ao “Caneco amassado” do PSD.
Cartazes de Eduardo Gomes (o Brigadeiro), da UDN, e Eurico Gaspar Dutra, do PSD, principais adversários na eleição presidencial de 2 de dezembro de 1945, a primeira realizada após o fim do Estado Novo. ▪ Fonte: Wikimedia
Luís Carlos Prestes, o “Cavaleiro da Esperança”, símbolo do Partido Comunista Brasileiro (PCB) no cenário político de 1945, após a redemocratização e a legalização do partido. ▪ Fonte: Wikimedia
De quebra, foi ainda o ano do baião, invenção de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, “um ritmo popular nordestino num gênero musical novo, o mais prestigiado no Brasil antes da Bossa Nova” – como anota Darcy Ribeiro em seu Aos Trancos e Barrancos.
Publicado hoje, 04/10/26, no jornal A União










