Nestes dias, não conto as vezes que desejo sair sozinho, pegar o ônibus na rodoviária e descer na Praça Clementino Procópio, de Camp...

Campina: não dá para esquecer

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Nestes dias, não conto as vezes que desejo sair sozinho, pegar o ônibus na rodoviária e descer na Praça Clementino Procópio, de Campina, só para sentar comigo mesmo, à sombra das poucas árvores que restam a encarnar dois tempos opostos, ora dois extremos, ora unidos, como produtos um do outro. Já disse, numa crônica antiga, que Campina Grande tem muito a ver
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com “o sítio que anda comigo”. Meu sítio ficava a cinco ou seis léguas, mas era como se Campina fosse estrangeira, de onde vinham as coisas sempre boas que ficavam longe, da manteiga da vaquinha de Minas no pasto às peças do motor, todos os motores, o relógio na parede, a máquina Singer e outras tantas inglesias aqui aportadas desde a colônia até serem substituídas pelo império americano.

Criado sozinho, eu vivia disso. Depois veio a monotonia do internato, em que eu fazia a diferença com a leitura de Lobato, desde Urupês, com a retificação do retrato caipira do seu Jeca Tatu: “Perdoa, pois, pobre opilado”. Eu me acompanhava do que lia e só lia o que me animasse o coração ou me animasse a força de vontade.

Mas foi numa cantoria, duelo entre um tal Amorim do Ceará e Lourival Batista, dos sertanejos que pernoitavam lá em casa em demanda da rapadura e da farinha, que a força silenciosa do livro me dominou ou seduziu. A palavra batizada de poética, capaz de produzir emoções ou de
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afoguear multidões. Palavras como as que ouvi na Praça da Bandeira, Zé Américo contra Argemiro no pleito histórico de 1950. Ou palavras da Salve-Rainha declamadas no altar da pequena Capela das Vitórias por Dona Antonina, nos terços rezados para moradoras e as nossas vizinhas.

Jovem atraído por esse fermento, foi ele que me fez arcar e soprar com as ladeiras da vida, desde a do Riachão às da colina onde afinal me situei. Vivi um universo que se bastava em Campina Grande, que continua me tendo em espírito na praça que me valeu de plataforma ao lado de uma casa fantástica, hoje no imaginário, o Cine Capitólio.

Para mim, nada saiu do lugar. O escritor Virgínius da Gama e Melo continua à porta da Petrópolis, remotamente aberta, com o garçom a equilibrar a bandeja da “teutônia” entre as mesas e a inveja dos que aceravam na calçada, Jackson do Pandeiro entre eles. A Fruteira existe, a Livraria Pedrosa, a Flórida com o seu sorvete “ra.i.nha” a desafiar o tempo no céu de nossas bocas.

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Foi naquela mesma praça que, a 11 de outubro de 1964, recém-saído do Sanatório Clementino Fraga, destituído de minhas principais conquistas na imprensa e no serviço público, fui me reaver ou recobrar ânimo sob os mesmos ares e estimulantes da esperança. Naquele desamparo, cheguei cedinho; dali subi até a Catedral da Conceição, e o incenso veio me alcançar na porta como numa solidariedade de coroinhas.
  Publicado hoje, 11/10/26, no jornal A União

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