alvez uma das maiores Tilusões humanas seja imaginar que as coisas permanecerão para sempre vivas.
Somos todos visitantes deste tempo. Chegamos sem compreender muito bem as razões da nossa chegada e, quando finalmente começamos a entender alguma coisa sobre a vida, percebemos que o tempo já caminhou bastante à nossa frente.
Nascemos, crescemos, construímos sonhos, estabelecemos vínculos, acumulamos lembranças e, quase sem perceber, começamos a nos despedir de tudo aquilo que um dia acreditamos ser nosso.
Agimos como se as pessoas que amamos fossem presenças definitivas, como se as amizades não conhecessem distâncias, como se os familiares estivessem eternamente ao nosso alcance. Fazemos planos como se o futuro nos devesse alguma garantia. Mas a vida não assina contratos de permanência.
As pessoas chegam, algumas ficam por longos caminhos, outras apenas cruzam a nossa existência, deixam uma palavra, um gesto, uma lembrança e seguem adiante. Há quem nos acompanhe por décadas e quem, em poucos instantes, transforme a maneira como enxergamos o mundo.
E há aqueles que partem sem que estejamos preparados para a despedida.
Às vezes, a partida acontece pela morte. Outras vezes, pelo silêncio, pelo afastamento, pelas mudanças de interesses ou simplesmente porque a vida, com sua misteriosa geometria, conduz cada um para uma direção diferente.
Nem mesmo os laços familiares, tão profundos e antigos, estão livres da impermanência. Aqueles que um dia seguraram nossas mãos podem precisar que seguremos as deles. Os que nos ensinaram a dar os primeiros passos podem tornar-se fotografias sobre uma estante, vozes guardadas na memória e saudades que aparecem sem pedir licença.
E então compreendemos que amar alguém nunca significou possuí-lo.
As pessoas não nos pertencem; elas compartilham conosco um trecho da existência.
Talvez seja justamente isso que torne os encontros tão preciosos. Se tudo fosse eterno, talvez não déssemos tanta importância aos abraços, às conversas sem propósito, aos cafés demorados, às risadas espontâneas e à presença silenciosa de alguém que simplesmente escolheu estar conosco.
É a possibilidade da despedida que confere profundidade a muitos encontros.
Também não nos pertencem para sempre as casas em que moramos, os cargos que ocupamos, o dinheiro que acumulamos, os objetos que guardamos com zelo ou as posições sociais pelas quais tantas vezes sacrificamos a tranquilidade. Tudo aquilo que hoje chamamos de nosso está sujeito às transformações do tempo.
Somos apenas usuários temporários de muitas coisas que julgamos possuir. Até o corpo, essa morada que nos acompanha desde o nascimento, modifica-se a cada dia. A juventude cede espaço à maturidade, a força aprende a conviver com os limites, e o espelho, pouco a pouco, nos apresenta alguém que continua sendo nós, embora já não seja exatamente aquele que fomos.
O tempo não pede licença para transformar nossas paisagens.
E talvez amadurecer seja justamente aprender a conviver com essa verdade sem transformar a impermanência em tristeza permanente.
Não se trata de amar menos, mas de amar melhor. Não se trata de abandonar os sonhos, mas de compreender que eles não podem nos escravizar. Não se trata de viver esperando o fim, mas de reconhecer que cada instante possui um valor que não se repete.
Se somos visitantes, que sejamos bons visitantes.
Que não destruamos os lugares por onde passamos. Que não deixemos feridas desnecessárias nas pessoas que encontramos. Que saibamos agradecer pelas portas que se abriram, respeitar aquelas que se fecharam e compreender que nem toda despedida representa uma derrota.
Há pessoas que não permanecerão em nossa vida, mas sim em nossa história. Há vozes que nunca mais ouviremos, mas que continuarão conversando conosco por dentro. Há amizades que terminarão sem que o afeto desapareça, porque algumas relações cumprem seu propósito mesmo quando deixam de existir na realidade cotidiana.
Talvez não possamos conservar as pessoas, mas possamos conservar o bem que fizemos umas às outras. Quando as luzes da existência começarem a diminuir, talvez descubramos que a grandeza de uma vida não esteja na quantidade de coisas que conseguimos manter, mas na qualidade daquilo que fomos capazes de oferecer.
