Vem de longe a presença dos diplomatas na Academia Brasileira de Letras. De muito longe mesmo, da própria fundação da Casa de Machado d...

Diplomatas na Academia Brasileira de Letras

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Vem de longe a presença dos diplomatas na Academia Brasileira de Letras. De muito longe mesmo, da própria fundação da Casa de Machado de Assis. E não poderia ser diferente, pois, de modo geral, o pessoal do Itamaraty sempre cultivou as letras, confirmando o incontestável fato de que constitui o segmento mais culto e intelectualmente preparado do serviço público brasileiro. Acredito que nos outros países deve ocorrer fenômeno semelhante, já que os requisitos para ingresso na carreira diplomática, seja onde for, são muito exigentes, requerendo dos candidatos uma sólida formação jurídica e cultural.

A carreira diplomática, assim como antes a carreira militar, mantém até hoje, menos do que no passado, é verdade, um certo viés hereditário, de tal modo que alguns sobrenomes são facilmente identificáveis no Itamaraty. Avôs, pais e netos de uma mesma linhagem familiar, o que se explica pelas oportunidades usufruídas pelos filhos de diplomatas, morando desde crianças no exterior, viajando, aprendendo línguas, visitando museus e assim por diante. Uma formação privilegiada que apenas poucos jovens podem ter. É também fato que o Itamaraty já foi mais fechado; atualmente, seu acesso não se tornou mais fácil, mas, digamos, mais democrático, com o ingresso de mulheres e de novatos oriundos de segmentos mais modestos da população, o que é positivo, no sentido de que diversifica a representação brasileira, deixando-a com uma cara mais parecida com o país mestiço que somos. O que não muda é a alta qualificação intelectual dos diplomatas e seu gosto pelas letras, literárias ou não.

Elitista talvez não seja a palavra correta para definir a Casa de Rio Branco, mas a verdade é que seus membros têm formado e continuam a formar uma espécie de elite da administração pública nacional; elite menos no sentido social do que no da meritocracia intelectual, mas ainda muito fortemente no sentido social, não se pode negar. Para confirmar isso, basta fazer um levantamento das origens familiares dos diplomatas e constatar-se-á que a grande maioria provém das camadas mais altas da sociedade brasileira.

Dentre os fundadores da ABL, cito, de saída, seis acadêmicos que exerceram, regular ou eventualmente, atividades diplomáticas: Joaquim Nabuco, Graça Aranha, Magalhães de Azeredo, Aluísio Azevedo, Domício da Gama e Oliveira Lima. É um número significativo. E essa participação dos diplomatas manteve-se durante toda a já longa existência da instituição. Entre os acadêmicos atuais, cito os seguintes diplomatas, regulares ou eventuais: Celso Lafer, Evaldo Cabral de Mello, Geraldo Holanda Cavalcanti, Godofredo de Oliveira Neto, Edgar Telles Ribeiro e João Almino. Repete-se o número significativo, provando que as duas Casas, a de Machado de Assis e a de Rio Branco, interpenetram-se frutuosamente.

Mas longa é a lista dos diplomatas acadêmicos ou dos acadêmicos diplomatas, como se queira. Citarei alguns a seguir, mas não todos, certamente: Ribeiro Couto, Guimarães Rosa, Alberto da Costa e Silva, João Cabral de Melo Neto, Antonio Houaiss, Raul Bopp, Afonso Arinos de Melo Franco, Gilberto Amado, Afonso Arinos, filho, Sérgio Paulo Rouanet, Alberto Venâncio Filho, Sérgio Corrêa da Costa e José Guilherme Merquior. Por sua vez, Josué Montello chefiou a embaixada do Brasil junto à UNESCO, em Paris. Austregésilo de Athayde foi um dos redatores da Declaração Universal dos Direitos do Homem da ONU. Fernando Henrique Cardoso foi ministro das Relações Exteriores, assim como João Neves da Fontoura. E Rui Barbosa, Alceu Amoroso Lima, Álvaro Lins, Antonio Callado e Otto Lara Resende exerceram funções diplomáticas em caráter não permanente.

Por aí se vê a relevância da diplomacia na vida da ABL. Observa-se, entretanto, uma total ausência de mulheres diplomatas na Academia. E a explicação é que ainda é minoritária a participação feminina na Casa de Rio Branco, situação que tende a mudar no futuro, com o ingresso de um número cada vez maior de mulheres na carreira diplomática. É só uma questão de tempo.

Um fato curioso é que o Barão do Rio Branco não fez parte dos quarenta fundadores da Academia. E ressentiu-se com essa exclusão, apesar de não possuir uma obra literária que o recomendasse ao silogeu. Antonio Carlos Villaça, em sua obra memorialista, conta muitas outras histórias pitorescas envolvendo diplomatas acadêmicos.

Existe já uma razoável bibliografia a respeito do assunto. Destaco, para o leitor interessado, dois livros, em particular: O Itamaraty na Cultura Brasileira (organizado por Alberto da Costa e Silva, Editora Francisco Alves, Rio de Janeiro, 2002) e Diplomatas Escritores Imortais (organizado por João Almino, Fundação Alexandre de Gusmão, Brasília, 2025).

O Itamaraty e a Academia Brasileira de Letras são instituições nacionais de excelência. Ambas possuem um passado mais ou menos glorioso que não envergonha o presente. A responsabilidade primeira dos contemporâneos das duas Casas é no sentido de que o presente não seja causa de vergonha no futuro.

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