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Passar do choro para o riso em pouco tempo demonstra que emoções presumivelmente antagônicas podem estar bem mais próximas do que supomos....

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Passar do choro para o riso em pouco tempo demonstra que emoções presumivelmente antagônicas podem estar bem mais próximas do que supomos. Algumas pessoas experimentam sentimentos diversos com admirável maleabilidade. Ou seriam mesmo parecidas a alegria e a tristeza?...

Três grandes descobertas, invenções ou criações foram, sem dúvida, o avião, a internet e a escrita. Coincidentemente, constituem elos form...

Três grandes descobertas, invenções ou criações foram, sem dúvida, o avião, a internet e a escrita. Coincidentemente, constituem elos formidáveis de comunicação. Para locomoção material, a aeronave é imbatível no tempo e no espaço. Promoveu notável interação presencial entre povos e lugares.

A internet é outro fenômeno que impressiona progressivamente, multiplicando possibilidades, expandindo-se em capilaridade assombrosa. A escrita, quem sabe, supere todas as invenções humanas. Ainda que não se tenha domado às virtudes do Esperanto, ideia que sucumbiu desacreditada.

A palavra, engenhosidade pensada para criar e combinar sons com significado linguístico, compôs dialetos falados que posteriormente se consolidaram na escrita, e é possivelmente o invento mais esplêndido! Aos poucos, ideias germinadas no pensamento que as compõe se codificaram capazes de definir, instruir, divulgar, registrar, transmitir a história dos povos entre povos.

E da palavra se fez poesia, literatura, diálogo, criou-se um outro mundo, em nova frequência de entendimento. Cultura, ciência, filosofia, dramaturgia, religião, ficção, e muitos outros tentáculos do saber se expandiram pelas letras propulsionando a evolução. Unidos e veiculados pelo milagre cibernético, a informação, o conhecimento, a sabedoria eclodiram e transpuseram limites com magnitude inimaginável. Que seria de nós sem a linguagem, os idiomas, a fala, a escrita, enfim?

Mas além das três grandes criações mencionadas no início, uma quarta sobressai-se por juntar todas as outras: A música! Linguagem que supera idiomas e barreiras, culturais ou cronológicos e atinge qualquer um que se afine à beleza. Talvez nela se consagre a sublime união de todo e qualquer elo, em tudo o que se entende como comunicação.

Entoada em melodias, desde a grécia antiga, declamou-se em liturgia solfejada na paixão do trovador ensimesmado. E tudo prosperou, dos motetos primitivos à comédia dos barrocos; dos jubilosos corais, entre missas, oratórios, a cantatas e elegias como a Ode à Alegria, de Beethoven e a transcendental “Ressurreição de Mahler”.


Só a música foi capaz de ir além do que se escreve. Ainda que o poema multiplique a abstração, que emerge e se expande tão difuso na emoção, ela fala uma língua que atinge o mundo inteiro, sem signos que limitem o que soa aos ouvidos pois se funde à alma toda.

É verdade que letra e música caminharam por milênios enlaçadas no intuito de criar e recriar sentimento e formosura. Mas nem sempre se obrigaram na intrínseca simbiose. Livres, uma da outra, são capazes de brilhar cada qual com sua luz.

Nas canções para piano que Felix Mendelssohn escreveu, prescindiu de utilizar algo além da melodia. Era essa a intenção. Demonstrar que sem letras o canto pode exprimir o que todos compreendem, mesmo que entre si não professem a mesma língua.

Mendelssohn publicou 48 “Canções sem palavras”, em vários opus (capítulos) que permearam cronologicamente quase toda sua obra; de 1829 (com 20 anos) a 1845, dois anos antes de seu desenlace, aos 38.

Adotou o formato de voz acompanhada, à imagem do canto lírico, em que o solo tem suporte rítmico sonoro de um ou mais instrumentos, ou de uma orquestra inteira. Com admirável riqueza criativa, tais acompanhamentos não se limitam a estabelecer planos harmônicos para servir apenas de base ou recheio sobre os quais o canto se desenvolve. Nestas canções de Mendelssohn, exclusivas para piano, a voz solista se posta como tradicionalmente nos registros mais agudos, harmonizando-se com as demais camadas sonantes que volitam, juntas ou independentes, caracterizando o significado peculiar da expressão mais próxima das “palavras”, em cada conto que se canta.

O que se diz de algo, o que se narra ou se descreve, não se mostra com a precisão literária, por vezes incapazes de retratar com total fidelidade a intenção exata do narrador.

E não é esse o propósito; de ser exato, óbvio, e sim deixar que variadas sensações se multipliquem com a mais diversa volatilidade. E assim suscitar o lirismo, a ficção romanesca, a história que nos transporta pela leitura à imaginação sem fronteiras, a ideias que se promanam multíplices, em espectros que reluzem conforme ecoam na intimidade sentimental de cada espectador.


Ainda que se configurem como canto marcado pela linearidade melódica que flui amparada e em harmonia com o conjunto sonante, as canções de Mendelssohn não descrevem ou sugerem apenas poemas. Elas produzem imagens, paisagens, cenários e contextos existenciais que emanam e se propagam impulsionadas pela comoção de cada instante, desenhando-se no imaginário pessoal, da maneira mais sutil e multímoda possível.

As frases insinuam diálogos estabelecidos reciprocamente, não apenas entre a música e o ouvinte, mas com paisagens que se estampam em janelas, fictícias ou não. Desvelam conversas mágicas entre os eus poéticos que se versatilizam em profícua atmosfera, povoada com difusos pensamentos. A riqueza dos significados percebidos nestas canções se avultam na proporção do que fazem brotar intimamente. São momentos únicos, infinitamente variados, pois se transmutam cada vez que se ouvem, criando luz e imagens próprias. Não há idioma específico. Não há barreiras linguísticas ou interpretações alheias. As músicas são sussurradas muito além de qualquer sentido semântico, em segredos íntimos, particulares,
que envolvem e fundem a arte, autor e espectador numa conexão que transcende qualquer linguagem.

É aí que reside o sentido que deu nome ao mais significativo capítulo da obra pianística de Mendelssohn - As canções sem palavras!

Algumas foram nominadas por ele, como a quinta do opus 62: “Gôndolas Venezianas” . Embora a tessitura cantante sugira o balanço do barco a deslizar pelos canais da bela cidade, impregnado de romantismo desde o desenho sinuoso a muitas histórias às quais, real ou simbolicamente se ligam, outras cenas são captadas. Um dia chuvoso, por exemplo, pode fluir na direção do ouvinte, por entre a janela enevoada, com a neblina lá fora respingando. É muito próxima deste aconchego a imaginação que se esboça ao som desta canção.

Na seguinte, nº 6, do mesmo opus, a Canção da Primavera (título dado por Mendelssohn), são borboletas que esvoaçam na manhã ensolarada, bailando graciosamente pelas flores de um jardim perfumado e acariciado por resquícios do orvalho que ainda brilha. Volteiam na mesma delicadeza das notas que parecem ter a cor de cada flor, em cada asa, em cada pétala.

Na primeira canção deste opus 62, são nuvens que transitam ao longe, por um céu saudosamente tênue; umas mais iluminadas do que outras, passeiam nos arpejos em distintas velocidades.


Os contornos se alteram na medida que desfilam, dentro ou fora do sentido. Nada disso está explícito em palavras, mas é dito com a clareza que ecoa na emoção.

Na opus 67, nº 2 , um casal de abelhas em colóquio e circunlóquio perseguem-se voejantes rumo ao néctar que emerge da poesia que as atrai. O ritmo que sustenta o canto rodopia ondeante na doçura que aflora, e as frases acompanham o bailado que se agita na mais pura floração.

A canção Opus 85, nº 4 , é um diálogo com as coisas do passado. Reflexões sobre o que se fez, ou não se fez, vêm à tona Ora resignadas pela compreensão existencial mais ampla, ora com nostálgica lacuna da frustrada incompreensão de suas razões de ser. Reminiscências tão antigas, mescladas de ternura, nostalgia e saudades que suplicam ou se acalentam com grata intimidade. Do amor que tudo cura, tudo vence e supera, na arte que se ouve com tamanha perfeição.
Algo que foi dito, ou deixou de ser falado, também se evidencia na canção a recordar um passado que dormia, mas que agora vem à tona em sublime harmonia.

Na canção opus 102, nº 5 , que leva o nome de “peça infantil”, todas as brincadeiras infantis são recontadas. Crianças saltitantes, serelepes ressuscitam, se renovam em correria no seu mundo colorido, capaz de ser vivido novamente em melodia.

Há também as confidências percebidas nas “palavras” da canção opus 102, nº 4 : “Eu bem que te avisei, quis dizer e não me ouviste. Insisti, fiz-te ver que o amor era o caminho, mas a vida separou rumos que se prometiam”… Com afetuosas ponderações, tais confissões traduzem a paixão contida no que oportunamente revelam estes momentos de sincero desprendimento. Há pedidos de desculpas sutilmente compensados na certeza de que tudo foi esclarecido e mantido num futuro esperançoso.

Na opus 67, nº 6 , inesquecíveis valsas dançadas quando enamorados surgem com a nitidez de então, trazendo toda a graça coreografada nos envolventes compassos que avivam o dourado anos que passaram, mas que nunca se esqueceram.

Reverências corteses ao estilo igualmente dançante da canção opus 62, nº 4 , remontam ao período dos minuetos, das danças de salão, ornamentadas ao estilo mais rebuscado, tanto na indumentária como nos cavalheiros gestos de outrora. Falam-nos de uma delicadeza que se perdeu no tempo da vida moderna, mecanicamente árida, veloz e portanto agressiva, sobretudo quando ouvidas nos dias atuais.


Fôssemos falar de todas estas peças, infinitas seriam as possibilidades de descrever tudo o que nos dizem as Canções sem palavras. Haveria o que contar a cada dia, a cada instante, por anos e décadas a fio, tal como criadas há quase dois séculos. Não seriam assim tão ricas se houvessem sido escritas, sem a liberdade que se abstrai no sentido que projetam.

Idiomas nasceram, idiomas morreram. Dialetos se extinguem, serão outras línguas mortas. Mas a música ultrapassa qualquer letra sem ter letras. E o canto sem palavra que aqui foi mencionado, viverá, reviverá, nascerá, renascerá em qualquer povo e lugar, sem amarra nem escudo, entoando com clareza a linguagem que supera as fronteiras da grafia porque fala ao coração.

A pandemia amedronta, foge ao controle, e outras doenças agravam-se com ela. Angústia, desespero, pavor, depressão, estupidez, maldade ou ...

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A pandemia amedronta, foge ao controle, e outras doenças agravam-se com ela. Angústia, desespero, pavor, depressão, estupidez, maldade ou mesmo ignorância. A pior de todas talvez seja a desavença oriunda da guerra ideológica, de posições egocêntricas, pessoais ou coletivas. A qualquer fato que ocorre no país, tem que ser atribuída imediatamente uma bandeira política. E, justamente no momento em que mais o povo e seus gestores precisariam se unir, desentendem-se. Vacinas, medicamentos, terapias, pesquisas, noticiários, tudo passa a ter cor, sexo, raça, partido e posição política. E daí se origina o desentendimento geral que só traz prejuízos.

Nascimento e morte. Natal e Paixão. As principais datas que marcam a história de Jesus. O nascer de uma era, que consolida a mais elevada ...

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Nascimento e morte. Natal e Paixão. As principais datas que marcam a história de Jesus. O nascer de uma era, que consolida a mais elevada mensagem outorgada à humanidade, e o fim de sua passagem, que revela no abominável plebiscito o maior equívoco cometido na história do planeta.

A crucificação de Cristo persiste como símbolo dos erros oriundos do livre arbítrio até hoje. Prova de que estamos muito longe de acertar nas escolhas que fazemos e de aprender com nossos erros.

Por mais significativos que tenham sido, o nascimento e a morte de Jesus ainda não nos ensinaram proveitosamente ao longo de 21 séculos. A simplicidade que contornou a preparação, a chegada, a mensagem e toda a vida do Nazareno
não se efetivaram como lição. Templos suntuosos que foram erguidos monumentalmente com sacrifício e exploração, revestidos de ouro e riquezas jamais enaltecidas nos evangelhos refletem o incompreensível paradoxo.

Rituais pomposos e paramentados permanecem conflitantes com a humildade que caracterizou a conduta de Jesus, seja na pregação da palavra, na maneira como ensinou a orar, no respeito às mulheres, na compreensão e tolerância com erros alheios, ou na sábia convivência com a diversidade social. Nenhum iluminado enalteceu tanto a mulher, tanto no trato com as consideradas de má fama, quanto com as samaritanas ou as amigas Marta, Maria e Madalena. Curiosamente, até hoje a mulher não é autorizada a dirigir, celebrar cultos e atos litúrgicos em algumas instituições, como se fossem inferiores aos homens...

Solicitado pelos discípulos a ensinar sobre a correta maneira de orar, Jesus criticou os que proferem preces em voz alta, publicamente ou em sucessivas e inócuas repetições. Mostrou o inestimável valor do recolhimento individual sob silenciosa e compenetrada sintonia com o Criador. Apontou que nenhum altar coberto de ouro se compara aos das belezas da natureza, aos quais se dirigia retirando-se em prece. No modelo de oração perfeita - o Pai Nosso -, torna soberanos os desígnios do existir simbolizados em “seja feita a Vossa vontade”, perante os quais nos conclama à sabedoria da paciência e resignação. E faz-nos entender que só seremos perdoados na mesma medida em que soubermos perdoar.

Quando lhe perguntaram sobre os verdadeiros cristãos, respondeu: “meus discípulos se conhecerão por muito se amarem”. Apenas isto. Não disse “por acreditarem em mim, por acreditarem em Deus, seguirem esta ou aquela religião”, demonstrando que o que importa é a conduta e não a crença, a prática e não a teoria. Mil vezes superior é um ateu que passa a vida fazendo o bem do que um crente que se enfia em cultos e igrejas, mas permanece orgulhoso, preconceituoso, interesseiro e maledicente, inclusive tirando proveito da fé que professa.

Jesus jamais disse que só Ele salva. Assim, o que seria dos que viveram séculos e milênios antes de Si, que não conheceram Sua palavra, não se batizaram, nunca comungaram, mas souberam amar, construir e edificar obras em prol do bem comum?

A rigidez das normas e o inferno como dogma absurdo foram destronados em troca da mansidão, do convite à reforma íntima, do não julgamento sobre o comportamento alheio. Muitas armadilhas foram criadas para testar Jesus e de todas Ele se desvencilhou com a luz da exemplar sabedoria.
A lei vigente ordenava que a mulher flagrada em adultério fosse apedrejada em praça pública. Mas Jesus interpelou sobre que tipo de autoridade os pecadores possuíam para puni-la. A lei não permitia trabalhar aos sábados, mas Ele curava em qualquer dia. Não se podia comer sem lavar as mãos, mas o Cristo lembrou de que há venenos muito piores do que os germes, como o ódio, a hipocrisia e a inveja.

As velhas escrituras foram ultrapassadas pelo amor incondicional que estrutura o Novo Testamento como regra máxima absolutamente preponderante, sem que se percam os seus valores históricos e culturais. A partir do qual a pregação há de ser desinteressada e jamais cobrada, tornando qualquer doação aos templos unicamente voluntária e espontânea, sem discriminação.

O Nazareno recomendou para que não nos preocupássemos com o porvir, que cada dia tivesse os seus cuidados, que não nos afligíssemos com fatos e vicissitudes, pelo que havemos de comer, de beber ou de vestir. Que olhássemos as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros, e o Criador as alimenta.

Quanta coisa ainda resta a dizer, que aqui nem caberia… E talvez não importe, como nunca importou, nem durante a semana dita Santa...

Ao pregar por meio de parábolas, Jesus possivelmente consolidava como gênero literário esta forma tão didática de ensinar. Utilizada por p...

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Ao pregar por meio de parábolas, Jesus possivelmente consolidava como gênero literário esta forma tão didática de ensinar. Utilizada por povos antigos, como os helênicos, e na literatura rabínica, conhecida como “mashal”, a parábola pode ser considerada prima do tradicional apólogo, da fábula clássica, linguagens que se revestem de alegorias, metáforas, maneiras proverbiais com intenção de erudir algo não tão acessível ao entendimento comum.

Escritor, pacifista, professor de História da Arte na École Normale de Paris e de História da Música na Sorbonne, membro da Academia Franc...

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Escritor, pacifista, professor de História da Arte na École Normale de Paris e de História da Música na Sorbonne, membro da Academia Francesa de Letras, biógrafo e músico, o francês Romain Rolland ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1915. Admirado e citado por Gramsci, Herman Hesse e Freud, com quem se correspondia, foi autor de quase 100 livros, entre romances, dramas, novelas e biografias como as de Tolstoi, Hugo Wolf, Beethoven, Haendel, Michelângelo, ensaios sobre Rousseau, Swami Vivekananda,
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Empédocles, Danton e robustas coletâneas em torno da literatura operística e musical.

Romain Rolland era grande apaixonado e conhecedor de música, arte que lhe provocava transcendência mística. Defendia a religiosidade como “sentimento oceânico”, expressão forjada em carta a Freud, com quem costumava debater sobre os transes extáticos relacionados com a “sensação de eternidade, de algo ilimitado, infinito, um vínculo indissolúvel com o universo”.

Rolland identificava este “sentimento oceânico” como fonte de energia espiritual que permeia todas as religiões, experimentando-o fervorosamente na música.

Quando o compositor alemão Richard Strauss (Baviera, 1864-1949), conhecido como o “Poeta Sinfônico” pela beleza de seus poemas tonais, estreou “Uma vida de herói”, em Frankfurt, no ano de 1899, Romain Rolland, amigo que estava presente, relatou:

“Vejo pessoas a tremer e quase se levantam em determinadas passagens. No fim, durante a ovação e a entrega de flores, soam os trompetes e as mulheres acenam os seus lenços”.

Que qualidades teria uma música para causar reações como esta, não apenas nas plateias, mas principalmente em alguém como Romain Rolland? Sem dúvida, sobretudo, a beleza!

Richard Strauss maravilhou o mundo com 10 magníficos poemas sinfônicos, forma musical caracterizada por aludir a  enredos vários, como lendas, astronomia, mitologia, sátiras, tragédias, obras de arte, paisagens, povos, nações, romances, poesia.
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Alguns se classificam como música descritiva ou programática, e diferem da chamada música absoluta, pura, sem uma intenção premeditada. Ainda que ambas sejam subjetivamente capazes de sugerir e provocar emoções tão variadas quanto criativas.

A relação entre a música e outras formas de arte é muito antiga. O balé reúne enredo, coreografia (dança), cenário e música orquestral. A ópera, peça expressivamente ainda mais rica, une literatura (libreto), dança, arte dramática (teatro), música sinfônica, canto lírico e cenografia. Há outros exemplos de ligação entre literatura, pintura, belezas e fenômenos da natureza que se intensificaram, do período romântico em diante, por compositores que quiseram narrar histórias, descrever paisagens, falar de um quadro, transformar imagens e acontecimentos reais ou imaginários em música. Peças como Les Boréades (tragédia lírica de Rameau), As quatro estações (Vivaldi), Amor em Bath (Haendel), A Pastoral (Beethoven), Sinfonia do Novo Mundo (Dvorak), Minha terra (Smetana), Enigma (Elgar), o Quebra Nozes (Tchaikovsky), grandiosas sinfonias de Mahler, Shostakovich, Sibelius, Bruckner e Scriabin são admiráveis transcrições capazes de refletir a riqueza e o poder da imaginação e do sentimento, íntimo ou cósmico.

No poema sinfônico, o caráter descritivo se notabiliza ao detalhar com mais unidade e riqueza de elementos o assunto que aborda. Há, entretanto, poemas cujas narrativas são fruto do imaginário pessoal do compositor, como “Uma vida de herói”, de Richard Strauss, que extasiou plateias do mundo ocidental e pessoas como Romain Rolland.

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De uma originalidade ímpar, construído em caráter audaciosamente moderno, sem se afastar da essência romântica, este poema eleva a música em primeiro plano e restringe a descrição narrativa a importância secundária. A história se resume ao perfil de um “herói”, personagem intensamente presente em inúmeras peças da literatura e dramaturgia clássicas antigas. Mas, neste caso, o protagonista é inédito, imaginado pelo próprio compositor, representando mais uma personalidade do que um personagem.

Para descrevê-lo, Strauss dividiu “Uma vida de herói” em seis partes:

I - O herói (Der Held) II - Os adversários do herói (Des Helden Widersacher) III - A companheira (Des Helden Gefährtin) IV - As batalhas (Des Helden Walstatt) V - As obras de paz do herói (Des Helden Friedenswerke) VI - Saída do mundo, consumação e transcendência (Des Helden Weltflucht und Vollendung)

Na primeira, a figura central é emoldurada com traços completos do espírito heróico em enérgica construção musical que evoca suas virtudes e características mais marcantes da entidade a ser narrada .


E a música assim desfila pelas nuances da personalidade do herói entre ternas, gloriosas e agitadas passagens em torno do tema que se reapresenta sempre destemido e conclui-se com merecida vivacidade.

Na seção seguinte são mencionados os adversários do herói. Os invejosos, falsos, os rivais e obstáculos por eles criados simulam-se com diálogos irrequietos, entre sopros e tubas, sarcasmo e ironia nos contrastes jocosos de graves e agudos. Há quem suponha que Strauss também se refere aos críticos de arte maldosos que dificultam a carreira dos artistas. São considerações que o deixam pesaroso como se ouve no trecho a seguir . Em meio a tudo, o tema heroico inicial aparece constantemente ao fundo, nos baixos e cellos, infundindo respeito e reiterando sua soberana preponderância.

Na terceira parte, surge a figura da companheira que se introduz com a devida importância em sua vida. As nuances da relação soam, a princípio conflitantes, como acontece entre casais, com o violino representando o ente feminino, sutil, às vezes irritante, provocativo, dialogando com o companheiro
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na voz dos metais com cordas, em tons bem mais graves .

A conversa prossegue oscilando entre divergências e bom entendimento, mesclada com pitadas afetuosas que também revelam momentos de doçura da companheira. Embora logo se “desentendam” como se ouve no agitado temperamento feminino sempre ponderado pelas respostas graves e compreensivas do herói nas cordas e metais . Alguns amigos de Strauss identificaram nos temperos e destemperos femininos uma referência à própria esposa.

Nesta parte dedicada à companheira, assim como em outras, o violino é bem valorizado com instigantes passagens de complexidade virtuosística e algumas dissonâncias, em plena liberdade tonal. Os solos mais extensos podem até ser interpretados como uma verdadeira cadência .

Ao fim da exposição deste rico e intenso fraseado entre o herói e sua companheira, é o amor que prepondera como esteio importante para os desafios e conquistas de sua trajetória e se consagra com incrível beleza e paixão .

O colóquio assume ares de confidências amorosas e soam como declarações de afetuoso lirismo enunciadas no oboés, clarinetes, trompas, imantados na harmonia das cordas em uníssono . Curiosamente, “os adversários do herói” (da parte 2) “beliscam” a cena final ao se concluir em absoluto clima de paz .

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O leitmotiv, expressão atribuída ao elemento, tema, frase que se repete ao longo de uma peça sinfônica, faz-se presente nos poemas como característica da forma. Tal como na literatura, é traço muito constante no poema sinfônico. As reaparições conferem unidade ao tecido musical e moldam a personalidade do romance. Este modelo de recorrência temática muito usado por Wagner e outros compositores de ópera é inserido com maestria, nos instantes propícios mantendo os elos entre as diversas abordagens da narrativa. Em Uma vida de herói, o leitmotiv ganha destaque maior, porque além de variado se emula por todas as seções, alternando as matizes que as distinguem assiduamente, ao longo de cada fragmento, sobretudo no arremate. Este artifício oferece colorido especial ao poema, mantendo os assuntos não apenas lembrados permanentemente, mas integrando-os em “hibrida” homogeneidade.

O ápice orquestral se nota obviamente na ilustração dos campos de batalha do herói (4ª parte), que no enredo se referem às lutas por ideais e causas nobres. Os embates são inicialmente anunciados pelos metais distantes do palco, que se mesclam com a reexibição do tema principal, com relevância extraordinária neste borbulhante trecho.
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A frase exibe-se repetidamente com matizes e timbres diversos, ora fragmentada, ora inteira, com a imagem do herói surgindo em palras contrapontísticas artisticamente bem entrosadas .

Agora a atmosfera invoca o personagem a enfrentar o combate. Toda a orquestra conclama os cenários de luta, com ritmos freneticamente marciais, permeados por pequenos excertos dos temas de partes anteriores .

O espetáculo se intensifica para cumes de sonoridade feérica condizente com o panorama de duelos e contendas, ao som de tiros em uma pirotecnia de percussões poucas vezes vista no mundo sinfônico .

A densidade sonora se espirala em hemiciclos e culmina apoteoticamente com a mais esfuziante aparição do tema protagonista que descerra as cortinas do cenário de batalhas .

Sem intervalo, o quinto movimento começa por enunciar as conquistas de paz que advêm dos desafios destes embates, estrondosamente encenados. Desfilam sequenciados e cravados como emblemas apregoados pelos tímpanos em um mural de vitórias.

Um interlúdio súbito , inquieto e agitado separa o clima bucólico que se instaura pelas harpas, seguidas de suaves e poéticos fraseados melódicos nos sopros e cordas a se entrelaçarem, fazendo emergir sentimentos de consciência serenamente tranquila pelo dever cumprido em suas obras de paz .

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A exposição dos feitos heróicos se conclui com solos mais extensos, ainda com ares de elegia, e se conecta imediatamente à última parte.

Eis de volta o suspense, agora mais intimidador. É chegada a hora de, após o dever cumprido em uma vida agitada e plena de realizações, retirar-se de cena. A volta do interlúdio da seção anterior pressagia o que acontecerá e a angústia da fatalidade se estampa perante a iminente despedida .

Mas a resignação sobrepõe-se e a calma se instala nos solos crepusculares do corne inglês, que se revezam com cordas que anunciam a aurora grandiosamente sublimada. É o adeus de um herói resignado e convicto dos feitos exitosos da trajetória terrena. Silencia a orquestra e ouve-se um dos momentos de maior transcendência lírica na obra de Richard Strauss. O herói - que para muitos é auto-retratado pelo compositor - despede-se do mundo emocionado pela visão retrospectiva de uma existência proveitosa e profícua .

Para concluir o poema, após suspense introdutório do mesmo interlúdio já exibido nesta e na seção anterior, ora mais trágico e intenso, estabelece-se o enternecedor diálogo final. Como se o herói conversasse consigo, com suas memórias, com sua amada,
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com sua vida, na fusão de seu eu com o passado, presente e o futuro que se descortina inexorável.

As falas se abrem com o violino suave e romântico, quiçá referindo-se ao amor que desfrutou com sua esposa, respondido pela trompa, no mesmo tom, reiterada docemente por fagotes, oboés e clarinetes em colóquio comovente que progride se alternando entre os três timbres .

Chega, então, o epílogo, possivelmente uma das mais encantadoras conversas musicais da era romântica. Trompa e violino se comunicam divinamente a confessar toda a poesia imaginada pelo autor para descrever o magnífico trabalho. Entre eles não estão somente o herói e a companheira, como dantes o fizeram, mas a existência completa de um personagem ricamente imaginado .

Por fim, a consagração divinizada no extasiante desfecho ao estilo de Assim falou Zaratustra , outro grande poema sinfônico deste compositor que fez o gênero atingir o ponto culminante, glorificando-o como modelo mais requintado de narrativa musical, e a si próprio igualmente como um herói. Um herói capaz de nos fazer navegar em sua música com “sentimento oceânico”, a “sensação de eternidade” tão bem definidos por Romain Rolland como “vínculo indissolúvel com o universo”.

A capital paraibana já se tornara um destino para o qual convergia, aos poucos, toda a família. Primeiro veio um filho. Depois trouxe a mã...

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A capital paraibana já se tornara um destino para o qual convergia, aos poucos, toda a família. Primeiro veio um filho. Depois trouxe a mãe, Maria Antério, uma mulher abençoada, heroína que deu conta de criar os sete filhos com a maior das conquistas: o amor familiar.

Em seguida vieram as filhas, alguns netos e o caçula que se estabeleceu em Campina Grande. São de Patos, sertão bom, de gente boa. Faltavam Dennes, o “guerreiro”, o mais velho, que passou muitos anos trabalhando no Norte, e outro, em Santa Catarina, depois de morarem em vários estados.

E a vida foi passando… como tudo neste mundo. Com natais, reveillons e tantos encontros memoráveis de família que se ama. Após uma década, Maria adoece e alça voo. Mas foi e não foi, porque vive em todos, ainda hoje, que a têm como mãe que nunca se deixa nem deixa ninguém.

No último Natal, Dennes, o mais velho, mudou-se para cá. Sonho maturado, esperado, mesmo com a ausência da mãe que não foi… Brincalhão, jeitão de menino, símbolo inaugural de uma ninhada de amor, unida, amiga, de mais seis irmãos. Recém aposentado, com muitos anos de Amazonas, o derradeiro desejo foi vir para onde estava a família. Juntar-se aos seus e às praias queridas, com os amados irmãos, amigos-irmãos. O mundo para ele era todo irmão.

E assim chegou, no último Dezembro. Mesmo sem contar com o clima que sua vinda merecia, por causa da doença que assombra o planeta, encheu o coração de alegria. Pedalou, jogou, passeou, viu o mar, matou saudades de tantas saudades. Até de Maria.

Mas, quem diria?… Só o destino, que não se pondera, que não se prevê. Às vezes confuso, injusto ou cruel, aos olhos pequenos, mas tão soberano perante o Divino.

Quem diria que apenas seria um breve adeus?… Nem esquentou o lugar que pousou. Mal chegou e assim nos deixou. Culpar a doença, a pandemia? Não. Não há culpa no destino. Do caminho que é traçado por alguma razão. E por alguma razão há razão no destino.

O guerreiro não disse estar só de passagem. Que o sonho era lá, juntinho de Maria. Aqui flanou, nadou, caminhou, viu e reviu o que tanto queria. Mas não encontrou a paz esperada, aquela dos tempos de sua Maria. Do jeito que veio, largou sua roupa no mesmo lugar que ela deixou. Ali no Parque, que dizem de acácias, em busca de outro, do parque sublime, ao lado daquela que nunca se foi nem nunca irá.

Assim estará também o guerreiro, vindo e revendo sem nunca ter ido. No meio de todos que amam e se amam, em torno de todos, agora de todos.

Dennes chegou e já se mandou. Ah, seu guerreiro, amado e querido, segue brincando, eterno garoto!

Aqui ficaremos, ainda um tanto. Quem sabe o quanto, mas nunca em pranto, porque lembraremos de tua alegria, agora maior que todos os sonhos que é de abraçar a nossa Maria.

Vem por aqui, sempre que der. Aprende com ela o mesmo caminho. Ou venham abraçados, do jeito que estão, brincando ao léu no mundo do céu. Serás um ausente mais que presente. Presente de todos que te conheceram e que te admiram, hoje até mais. Pois aqui estarás e sempre serás o nosso guerreiro.

Muito já se disse, muito já se escreveu e muito se sabe sobre o senador José Maranhão. Sobre suas qualidades políticas, parlamentares, adm...

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Muito já se disse, muito já se escreveu e muito se sabe sobre o senador José Maranhão. Sobre suas qualidades políticas, parlamentares, administrativas, profissionais, empreendedoras e até pessoais como de bom piloto, fazendeiro, pecuarista. E olhe que gente de valor e saber literário como Ângela Bezerra de Castro e Gonzaga Rodrigues se dispôs a escrever sobre ele com o merecido título “Uma vida de coerência".

Imperceptível ou mesmo que negado seja, há nos íntimos recônditos da nossa consciência um traço, uma intuição, algo que nos sussurra um so...

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Imperceptível ou mesmo que negado seja, há nos íntimos recônditos da nossa consciência um traço, uma intuição, algo que nos sussurra um sopro divino diante do existir. É difícil não sentir, ainda que ínfima, uma ponta de entusiasmo, de emoção, ao contemplar o mundo, o céu, o mar, a vida, flores, estrelas, animais, plantas, e tudo o que existe.

“Estamos brincando de Deus” – foi o que nos disse, recentemente, um cientista da histopatologia, amigo nosso, ao se referir às incertezas ...

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“Estamos brincando de Deus” – foi o que nos disse, recentemente, um cientista da histopatologia, amigo nosso, ao se referir às incertezas e consequências das vacinas produzidas para nos imunizar contra o vírus corona. Em sua advertida colocação, ele leva em conta os riscos de um experimento que não dispôs do tempo necessário para mais testes de segurança, a exemplo de outros imunizantes historicamente utilizados.

No meio de uma das extensas escadas rolantes do secular metrô do centro de Londres, muito profundo em certas estações, um grupo de garotas...

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No meio de uma das extensas escadas rolantes do secular metrô do centro de Londres, muito profundo em certas estações, um grupo de garotas, entre jovens e adolescentes, entoava eternas canções. Não pareciam se incomodar em ser vistas, admiradas, ouvidas, encobertas pela aura de alegria e espontaneidade com que cantavam. Afinal, a autenticidade dá brilho às manifestações nas quais o entusiasmo ofusca qualquer indício ou resquício de timidez.
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Era início da noite de sexta-feira, em um outono de Londres, e quem sabe aquela empolgação se houvera acrescida ao término de um dia de escola, de olho no fim de semana…

A cena perpassou da observação ao encanto em todos nós, surpresos ao ver que, após 50 anos, quase o triplo da idade daquelas garotas, a música dos Beatles permanecia viva. Viva porque é clássica, e como clássica se eterniza. É possível se antever que no próximo século outro grupo de adolescentes, talvez em um metrô aéreo ou numa jornada às estrelas, solfeje as inesquecíveis melodias.

Muito já se disse, muito já se escreveu, estudos abundantes confirmam os Beatles como fenômeno incomparável. Não apenas sob aspectos sociológicos, ideológicos, psicológicos, mas sobretudo pela qualidade musical de suas obras.

Concebidas em processo evolutivo que acompanhou o tempo, criou e influenciou conduta de gerações que as vivenciaram e sucederam, suas músicas refletem exatamente a amplitude diversificada de estilos, mensagem e poesia.

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Bem além das partituras em que registrou a beleza das frases melódicas, o quarteto transmitiu ao mundo um manifesto inovador em prol do amor, do romantismo poético, causando ruptura paradigmática de costumes, contagiando, convidando à reflexão sobre as relações humanas, urbanas, principalmente por entoar um clamor à paz.

A arte dos Beatles impressiona qualquer estudioso de música erudita. Na tessitura composicional se insere cronologicamente uma estrutura enriquecida gradativamente, ao longo do exercício criativo, com processos mais ousados e bem elaborados, como ocorreu com grandes compositores da história. A simplicidade presente em um minueto de Bach, numa sonata de Mozart,
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numa sonatina de Beethoven, que se enrobustece em obras posteriores, a exemplo das grandiloquentes missas e sinfonias corais, é fenômeno circunscrito ao trabalho dos geniais rapazes ingleses.

Da bucólica inocência de Love me do, à pulsante alegria rítmica de Help e She loves you, do lirismo de The long and winding road às declarações amorosas de versos plenos de poesia, à instigante Sgt. Pepper's e à densidade dramática de A day in the life e Lucy in the sky with diamonds (com requintada participação do cravo), o espectro construído pelos Beatles é artisticamente completo. Não faltou por onde distribuir talento na obra que alcançou infinitas possibilidades.

Desde as canções primeiras, ainda restritas ao reduto britânico, já se percebe a arte de criar planos sonoros justapostos em aspecto contrapontístico, estabelecidos tanto nas vozes distintas como nos coros em background e na criativa instrumentalização. Já eram composições em que se denotava apuro técnico, ainda que adquirido pela talentosa inspiração, que tantas vezes se sobrepõe ao conhecimento acadêmico.

A afinidade com a concepção clássica de música se faz nítida sob vários ângulos, principalmente na sonoridade harmoniosa de linguagens simultâneas, rítmica, vocal e instrumental.
Paul McCartney revelou em entrevista possível influência da Bourrée em ré menor, de Bach, na melodia de Blackbird. O empresário e músico George Martin, tido como “o quinto Beatle”, fez menção à “Ária na Corda Sol”, também de Bach, na trilha sonora do filme Yellow Submarine. Há quem relacione os acordes iniciais de Because com os da Sonata ao Luar, de Beethoven, e a afinidade com a música erudita também se percebe nos solos dos instrumentos de cordas que acompanham, por exemplo, She’s living home e Eleanor Rigby — uma elegante composição com traços genuinamente clássicos. Ressalte-se igualmente a requintada participação do piano e outros teclados, em que desfilam tantas de suas músicas, como em Let it be e Hey Jude, na "barroca" parte central de In my life , no órgão que acompanha Long long long , sem esquecer da valorização da guitarra como voz de expressividade cantante singular exaltada em While My Guitar Gently Weeps .

Esta sintonia certamente estimulou as orquestras sinfônicas de Londres, Vancouver, Miami, São Petersburgo e a italiana Mitteleuropa Orchestra, entre outras, a produzir célebres arranjos e transcrições em cobiçados palcos, inclusive para gravação de álbuns.


A riqueza artístico-musical dos Beatles se estendeu e se enriqueceu por seus dramas e experiências de vida até os prenúncios e concretização da separação. Uma separação apenas física, com o espírito perpetuado nas carreiras solo.

A vivência mística com o psicodelismo, as conturbações existenciais, a busca pelos insights divinos por meio de alucinógenos, a aproximação com o hinduísmo e outras inserções em planos espirituais também pontuaram notória e notavelmente sua obra de maneira impactante.

A exploração instrumental foi igualmente profícua, em vários timbres, nos sopros, metais, cordas, teclados e até em cítaras. A percussão que recheia Revolution, o ritmo sincopado de Ticket to ride, a orquestração dos álbuns Magical Mistery Tour e Yellow Submarine,
o dissonante cromatismo de Being for the benefit of Mr. Kite e Tomorrow never knows atestam claramente a intimidade com a harmonia dos instrumentos.

Os Beatles excederam os limites e contornos de todos os outros grupos de música pop. Foram muito além de tudo. This boy, Girl , e You've got to ride your love away são exemplos da essência que caracteriza a plenitude de uma balada romântica. I me mine, o espelho da nostalgia, Penny Lane resume a força telúrica-urbana, o jingle dançante é imbatível em From me to you. O mistério se escuta em Blue Jay Way, a poesia permeia I'll follow the sun como em poucas canções, a doce harmonia coral de Because e Michelle é comovente. A religiosidade tem registro impressionante em Within' you without you . Em Helter Skelter a alma do rock se eterniza, para citar alguns exemplos alcançados pelo histórico conjunto.

A grande importância da criação desta inesquecível banda se imprime justamente na originalidade e abrangência de seu universo. A manifestação solidária, a relação entre a urbe e o ser humano, a rebeldia, a liberdade, o romantismo consolidam-se emblematicamente na grandiosa mensagem de paz, poesia e amor, presentes nas três memoráveis canções: All you need is love , Something e Yesterday . Melodias que indubitavelmente soarão pelos lábios das futuras gerações, por infinitas eras, em metrôs, naves espaciais ou na simples fantasia de um submarino amarelo.

Vejam que encadeamento interessante, no qual surpreendentemente se entrelaçam diversas manifestações do imaginário, nascidas umas das outr...

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Vejam que encadeamento interessante, no qual surpreendentemente se entrelaçam diversas manifestações do imaginário, nascidas umas das outras e ungidas com o néctar da inspiração criativa.

Na metade do século 17, durante a revolução inglesa que conseguiu combater o absolutismo estatal, reestruturar a política do país com adoção da monarquia parlamentarista que perdura até hoje, um grupo idealista protestante se destacou conhecido como “Os Puritanos”. De origem calvinista, eles combatiam a igreja romana, o poder real e rivalizavam com “Os Cavaleiros”, defensores do rei Carlos I, como protagonistas da guerra civil durante vários anos.

Este significativo e turbulento período exerceu influência em escritores como o poeta e dramaturgo escocês Walter Scott, nascido em Edimburgo no século seguinte, considerado o criador do gênero “romance histórico”. Entre os seus mais apreciados livros, está “Old Mortality”, que faz parte da série “Contos do meu senhorio” (Tales of my Landlord), dramatizado exatamente na guerra civil inglesa. Curiosamente, Scott influenciou músicos como Franz Schubert e Beethoven. O lied de Schubert, “Ellens dritter Gesang”, que se popularizou como uma “Ave Maria” católica, foi, na verdade, baseado em seu poema “A Dama do Lago” (Fräulein vom See), que forma parte do “Ciclo de Canções” do compositor austríaco. Já Beethoven utilizou poemas de Walter Scott em três de suas “25 Canções Escocesas, opus 108”.

O período revolucionário inglês influenciou o romancista escocês e contagiou dois grandes músicos. Há outros personagem, um ilustre compositor italiano, que foi mais além nesta história: Vincenzo Bellini.

No verão de 1833, dois anos antes de sua morte, Bellini se dirigiu a Paris para tentar conseguir a estreia de sua nova ópera, “Os Puritanos”, no cobiçado palco da Ópera de Paris. Além disso, duas de suas onze óperas – “Os Piratas” e “Montecchios e Capuletos” seriam encenadas naquela temporada de libretos italianos da “Opéra Comique”.
Somente no ano seguinte, Bellini se decidiu pela melhor oferta, do “Théâtre-Italien”, em valor superior à do Garnier e a obra estreou com retumbante sucesso em Janeiro de 1835. Dez meses depois, Bellini desencarna, ainda sob a formidável repercussão de “Os Puritanos”, que, com “Norma”, “A Sonâmbula”, “Os Piratas” e “Montecchios e Capuletos” figura entre as óperas italianas mais apresentadas pelo mundo até hoje.

Como se vê, o triunfante drama lírico também guarda ligações com a guerra civil inglesa e com o escritor Walter Scott, mencionados inicialmente.

O libreto encomendado por Bellini para “Os Puritanos” foi escrito por dois dramaturgos franceses, Jacques-François Ancelot e Joseph Xavier Saintine, inspirado na peça de teatro histórico “Cabeças Redondas e Cavaleiros” (Têtes Rondes et Cavaliers), cuja première aconteceu no Palais Royal de Paris, logo após “aquele” verão de 1833. O título se refere exatamente aos dois grupos que se opuseram na revolução inglesa: Os Cavaleiros, que defendiam o trono, e os Cabeças Redondas, contra o absolutismo estatal, assim chamados por causa do corte de cabelo curto, em contraponto às longas cabeleiras do lado oponente. A ópera, no entanto, é dramatizada em um cenário de dor e frustração amorosa em consequência dos horrores causados pelas guerras, civis ou militares, tema muito abordado historicamente na dramaturgia, seja no teatro, na literatura ou no canto lírico.


A primeira exibição se constituiu num grande acontecimento. Sua concepção em estilo de “Grand Opéra”, com orquestração ao nível do peso dramático do enredo e da riqueza melódica a exigir talentosa capacidade técnica dos cantores, deixaram o ambiente musical parisiense em êxtase durante muito tempo.

Dentro deste contexto de bravura e heroísmo, o enredo reserva aos puritanos um lugar de realce pelos ideais legítimos de justiça e liberdade. A eles Bellini dedica a triunfal marcha “Soe a trombeta sem medo” (Suoni la tromba e intrepido), um dueto em allegro fervoroso que instiga a lutas populares pela conquistas sociais e finaliza o 2º ato da ópera, sempre seguido de esfuziantes aplausos:

“Suoni la tromba, e intrepido Io pugnerò da forte; Bello è affrontar la morte Gridando: libertà!”
“Soe a trombeta, sem medo Eu esmurrarei com força Belo é afrontar a morte Gritando à liberdade”

Este entusiasmado duo de contrabaixo e barítono emociona plateias desde sua estreia em Paris, quiçá por exaltar a libertação de um povo explorado. É quase invariavelmente o trecho mais empolgante do drama.

Em meados do século 19, uma escritora italiana, princesa, jornalista, feminista, amante da música clássica, chamada Cristina Belgiojoso, distinguiu-se acima da nobreza de seu título pelos méritos de coragem e heroicidade.
Herdeira de uma fortuna considerável, após um rápido e fracassado casamento foi exilada do país em consequência do ativismo político na defesa da libertação da Áustria e se refugiou em Paris, sem poder usufruir do patrimônio. Mesmo assim, consegue sobreviver, constrói amizades importantes com os poetas Alfred De Musset, Heinrich Heine, o historiador François Mignet, o compositor Franz Liszt e cria um dos badalados salões literomusicais da capital francesa.

Após ter acesso à herança, foi assediada a empreender pela independência da Itália e por um mundo melhor. O ambiente em torno de si enriqueceu-se de boas relações, não apenas com os revolucionários Vincenzo Gioberti , Niccolò Tommaseo e Camillo Cavour, mas com intelectuais e artistas a exemplo de Tocqueville, Balzac, Victor Hugo, Augustin Thierry e François Mignet, todos importantes e influentes em sua vida.

Apaixonada por música, não podiam faltar recitais e concertos em sua bem frequentada sala no bairro de Montparnasse, que se prolongavam até tarde. Numa noite da primavera de1837, a princesa Cristina promoveu um célebre duelo pianístico entre Liszt e Thalberg para que a plateia apontasse quem era o melhor pianista. Os convidados conferiram-lhe a decisão, que ela inteligentemente anunciou: “Thalberg é o maior pianista, mas, como Liszt não existe”. Um diplomática saída. Apesar da crítica ter sempre considerado Liszt o mais virtuoso pianista da história até os dias atuais.


Certas lendas, possivelmente verdadeiras, contam que Liszt foi tão ovacionado pela capacidade técnica de compor e interpretar, além de ser portador de elegância e beleza física, que teria levado a alterar a tradicional posição de tocar de costas para o público”, como se apresentavam os pianistas da época, passando a se colocar de perfil. Contam também que Chopin admirava tanto o seu virtuosismo que confessava certa “inveja” ao escutá-lo executando suas peças, sobretudo quando já se encontrava com a saúde debilitada por conta da tuberculose.

As apresentações de Liszt no já comentado salão da princesa Belgiojoso tornaram-se disputadas. Todos queriam ver o “Paganini do piano” dedilhar com técnica e aptidão humana nunca vistas. E ele soube explorar bem a espantosa habilidade para compor, executar e transcrever para o piano como nenhum outro pianista da história. Sem falar na notável capacidade de orquestração demonstrada, por exemplo, em seus treze magníficos poemas sinfônicos.
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Transcreveu as 9 sinfonias de Beethoven para o piano, além de várias paráfrases, árias, aberturas e temas de óperas de outros compositores. Os seus dificílimos “12 Estudos de Execução Transcendental” levaram o pianista chileno Cláudio Arrau a dizer publicamente: “não houve e nem haverá humano capaz de executá-los como Liszt”. A Sonata Dante (“Après une lecture de Dante”) e a Sonata em Si menor estão classificadas entre as mais complexas e difíceis obras pianísticas.

As afinidades com as ideias socialistas do filósofo francês, Conde Saint-Simon, em defesa das classes operárias, que muito influenciavam a sociedade parisiense àquela época, atraíram Liszt para a ópera “I Puritani” ao ponto de compor duas produções inspiradas na primorosa partitura de Belinni, que estiveram presentes no seu repertório até o fim.

A primeira, “Réminiscences des Puritains”, uma "Grande Fantasia" fundamentada no respectivo drama,  logrou sucesso imediato e foi expressamente dedicada à princesa Cristina de Belgiojoso. Logo depois, a alteza lhe sugeriu criar outra peça baseada na mesma ópera para um concerto em benefício da comunidade carente das redondezas, em 1837. A ideia era convidar mais 5 compositores para contribuir, cada um com sua parte, na concepção do que se chamaria “Hexaméron”, um “Morceaux de Concerto” (peça de concerto) exatamente com transcrições da “Marcha dos Puritanos” (Suoni la tromba) para o piano.

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Inicialmente, Liszt imaginou-a para orquestra e dois pianos, depois a concebeu para piano solo. Mas, infelizmente, não foi possível concluí-la em tempo hábil para o evento filantrópico e Hexaméron, consagrado como epítome virtuoso do romantismo, igualmente dedicado à princesa Cristina, teve o seu honroso lugar na história da Música de outras maneiras. Para a criação destas 6 heróicas variações sobre o tema da marcha, célebres músicos de seu tempo, Sigismond Thalberg, Johann Peter Pixis, Henri Herz, Carl Czerny e Frédéric Chopin aceitaram o desafiador e ousado convite. Liszt escreveu a introdução, a primeira apresentação do tema, a 2ª variação (a 1ª é de Thalberg), o final e mais 3 interlúdios que ligam as demais partes conferindo unidade ao hexâmero. Terminou se apaixonando pela ideia, à qual acrescentou duas versões para dois pianos e mais uma para piano e orquestra. Outras formas surgiram ao longo de quase 2 séculos, incluindo uma composta por 6 pianistas da atualidade, que estreou em 2010, no Festival da American Liszt Society, em Nebraska.


Na concepção original, cada partícipe desta inusitada criação imprimiu sua personalidade. Ainda que imaginado por Liszt com perfil de concerto, o Hexaméron é estruturado no estilo “Tema com Variações”, uma forma muito diversificada e utilizada por compositores de todas as eras como Bach, Haendel, Mozart, Haydn, Beethoven, Chopin, Tchaikovsky, César Franck, Mendelssohn; Brahms, Poulenc, Schubert, Schumann, Glazunov, Rossini, Paganini, Richard Strauss, Elgar, Scriabin, e tantos outros que reconstruíram sua personalidade sobre temas e melodias alheias.

Neste exemplo tão especial, o espírito é o mesmo, porém substancialmente reforçado pela admirável criatividade com que os artistas do talentoso “sexteto” se abraçaram em total sintonia, incentivados pela nobre princesa. A sequência em que eles aparecem com suas variações, sem considerar o “regente” da ideia, e Bellini, autor da marcha operística que o originou, é a seguinte:


1º / Franz Liszt (1811-1886) 2º / Sigismond Thalberg (1812—1871) 3º / Johann Peter Pixis – (1788-1874) 4º / Henri Herz (1803-1888) 5º / Carl Czerny (1791-1857) 6º / Frederic Chopin (1810-1849)

A introdução , claro, coube a Liszt, que constrói um solene portal de entrada, com células de colcheias e semicolcheias sincopadas, anunciando o que pretende e já exibe, por entre o suspense dos graves trinados, pequenos fragmentos do tema principal, sem mostrá-lo por inteiro. Em seguida, doce e delicadamente, descortina-o com a força de sua personalidade virtuosística, quando procede à primeira exibição da marcha com merecida pompa.

A primeira variação é cedida a Thalberg, que se posta em merecido nível pianístico, muito próximo do perfil lisztiano. Embora curta, menos de um minuto é suficiente para emoldurar o tema com bonitos e complexos arroubos cromáticos.

A segunda variação é de Liszt, que bem reflete o carinho com que se esmerou nesta realização. A melodia oscila e passeia por incrível habilidade em que ele imerge completo. Ecoam rapsódias, paráfrases, concertos, sonatas, com as quais impressiona o mundo até hoje na sua insuperável pirotecnia de composição e interpretação.

Sucede-se de imediato a terceira, de Johann Pixis, que contempla certa polifonia, com vozes se entrelaçando alegremente entre uma mão e outra, em graves e agudos, ornada com repetição de acordes, melodia em oitavas, trinados de terças e ritmos contagiantes. Ao final, se conecta ao primeiro interlúdio, com que Liszt arremata-a em apenas 20 segundos, criando um elo de ligação à próxima parte, de Henri Herz. É quando Herz transfere todo o tema da marcha para a mão esquerda, enquanto a direita se estende em profusa guirlanda de escalas ornamentais, muito bem entrosadas à melodia que se entoa nos graves. Chega, então, o privilegiado aluno de Beethoven e professor Carl Czerny, grande sinfonista, concertista, dedicado aos métodos para ensino do piano por meio de belas peças de caráter tecnodidático, que integram programas de escolas de música até hoje. E o Czerny do Hexaméron honra sua participação demonstrando que é realmente um mestre da música para teclado.

Surge Liszt com mais um opulento interlúdio, o segundo, que prepara com nítida reverência a última variação: a de Chopin! Após o triunfal prenúncio, com as células que esculpiu o portal do início, Liszt vai calmamente se retirando de cena, deixando a suavidade chopiniana se aproximar.

Ouve-se então a delicadeza inconfundível do amigo, talvez o mais próximo de si, no espírito e admiração mútua: Chopin (!), que desfila genuinamente burilado em singularíssima participação. Um deleitoso momento, este sublime epílogo do triunfante “sexteto”.
Liszt parece infundir profundo respeito à variação de Chopin, sequenciando-a com o último interlúdio, que flui com refinada sonoridade.

Mas o universo de delicadas filigranas dura pouco. Chega o estupendo “Finale” com toda autenticidade de Liszt, em que a Marcha dos Puritanos é ovacionada no merecido e radiante coroamento. A aclamação e frequência com que uma marcha tão curta, construída com melodia simples, é acolhida até hoje intrigam estudiosos e admiradores da Música. A maioria lhe atribui popularidade associando-a aos ideais de justiça e cantos de liberdade de todo o mundo ocidental, pois pôde ser entoada com o mesmo ardor tanto em um bistrô dos Pirineus, numa taberna da periferia de Madrid, em recitais para renomada aristocracia nos salões palacianos ou em concertos de gala para a nobreza real. Sobretudo sendo a ópera “Os Puritanos”, estruturada em uma história de amor vivida sob a guerra, suas terríveis consequências, inspirada em aventuras bélicas, ao estilo dos romances históricos de um escritor escocês, com libreto de autores franceses e escrita para o público parisiense.

Sem dúvida, uma inteligente e requintada escolha de Vincenzo Bellini, imortalizada por sua beleza, revivida por meio de um pequeno trecho — uma marcha de apenas 24 compassos —, recriada por 6 ilustres pianistas unidos pelo elo mágico de um precioso rosário com estreitos laços entre música, história, drama e literatura.