Vamos à sessão de despedida. Ou melhor, de desapego! Não é sessão de “descarrego”, alto lá, que pode até ser assunto de outro texto.

Terapia do desprendimento

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Vamos à sessão de despedida. Ou melhor, de desapego! Não é sessão de “descarrego”, alto lá, que pode até ser assunto de outro texto.

Desapegar-se é saber diminuir laços que nos apertam. É preciso exercitar o desapego sempre que a salutar luzinha da vigilância se acender na consciência. Um exercício do qual se tira bom proveito.

O apego é perigoso e pode se estender a muita coisa. Até à própria vida. O amor à vida é saudável, talvez nato, intrínseco ao instinto de sobrevivência, entretanto jamais devemos nos esquecer da efemeridade com que flui a experiência terrena, volátil como as nuvens.

Comecemos com o apego às coisas materiais, que tanto seduzem, provavelmente o mais equivocado dos sentimentos. Vamos às miúdas, por exemplo. Uma jóia, uma caneta, um relógio, um objeto de estimação. Procuremos um destes, retenhamo-lo na mãos e fitemo-lo, com toda meiguice, o fascínio que exerce. Em seguida, imagine-se em quais mãos este objeto se haverá, daqui a algumas dezenas de anos, quando não mais estivermos vivos no corpo. A quem seduzirá, iludirá…

Agora, as roupas. O terno ou o vestido mais bonito, mais caro, mais querido. Componha-se com uma destas peças, à frente do espelho, mesmo sem vesti-la. Corteje-a! E pense em quem estará usando-a, num futuro — quem sabe — não muito distante…

Passemos às coisas maiores. O carro, por exemplo. Este objeto que tantos egos infla, tanta vaidade esbanja, principalmente ao desfilar luxo e conforto por onde gritam as desigualdades e indiferenças urbanas. Caso possua um, estando nele ou não, suponha quão pouco tempo de moda dura o glamour de um veículo. Talvez nem valha a pena pensar em quem estará ao seu volante, pois logo logo será um carro sem futuro.

E a casa, o apartamento, a chácara, a fazenda, estes bens maiores que enchem a vida e a vista? Se tiver uma, bem bonita, quanto mais aprazível, melhor. Contemple-a do jardim, do lado de fora, ou, estando em seu interior, lance o olhar pela paisagem que costuma ver da varanda, de uma janela, do terraço. Comece a pensar sobre quem a habitará, usufruindo de tudo, dormindo no seu quarto, circulando pelos sonhos que ali foram vividos.

Agora a melhor parte da sessão. Depois de refletir sobre aquilo a que tanto nos apegamos, sejam livros, roupas, carros, jóias, casas, lembremos das pessoas que nos cativam, que são caras e amadas. Assim como os anéis, nenhuma nos pertence para sempre. Não chegaram aqui conosco, nem conosco partirão. E, como tudo que nos cerca, estarão presentes, em carne e osso, apenas temporariamente. No futuro, quem sabe, frequentarão as mesmas órbitas… é possível.

Se o mundo que nos cerca, o visível é passageiro, fugidio e evapora com o pó que nós seremos, o oculto não se vai. O que é edificado com emoção e sentimento das virtudes e lembranças, e de outros “objetos”, será visto para sempre com o olhar que sobrevive.

Na sessão de desapego estes itens não se inserem. Nem há como evitá-los, pois nasceram enraizados. É o que se chama carma, vestimenta cultivada, que se tece evoluindo, da qual nunca nos despimos. Se quisermos que suaves sejam as cores que veremos, com macia vestimenta e o conforto de viver sem apego ao que se perde, conquistemos, desde já, só o que daqui, um dia, para sempre levaremos.

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  1. Belissimo texto Germano... O desapego é " Ter sem possuir" ..Os béns materiais são efemeros!!!
    Concordo "ipsis literis"...
    Felizmente já tenho essa facilidade!!!
    Paulo Roberto Rocha

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  2. Perfeito, Germano Romero. Os pomposos romanos dos tempos do Império tinham por hábito fazer com que junto de toda pessoa aclamada num desfile triunfal, seguisse alguém que ficasse lhe repetindo "Lembre-se de que vai morrer", "Lembre-se de que vai morrer". Todos temos orgulho do teto da Sistina, porque sabemos que foi um ser humano - como nós - que o criou. O coro da Nona Sinfonia? Foi obra de um de nós. O zero? De um de nós. A escrita? De um de nós. O computador? De um de nós. Por isso Neil Armstrong deixou na Lua uma placa onde se diz que ali foi dado um pequeno passo humano, um salto da humanidade. É isso que deixamos. Do quadro "Casal Arnolfini" - arte suprema, assinada por um tal de van Eyck, ao espelho "olho de peixe" que se vê na parede ao fundo do quarto dos retratados, com a moldura contendo os passos da Paixão, preciosidade de um anônimo artesão, como o lustre no teto, - e como é belo o trabalho meticuloso de quem concebeu e costurou o vestido da senhora, o ceramista que produziu o piso caprichado do apartamento.Todos se foram, mas o que nos deixaram ... permanece. The rest... is silence.

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