De uma chuva o prelúdio terminou virando música. Do céu de Valldemossa, nas janelas de Maiorca, no Mar das Baleares, ou mesmo da Po...

A chuva em colcheias

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De uma chuva o prelúdio terminou virando música. Do céu de Valldemossa, nas janelas de Maiorca, no Mar das Baleares, ou mesmo da Polônia, em Zelazowa Wola, onde antes renasceu, foi colhido o lampejo para tal composição. Imaginem que beleza! Decerto a gota d’água escorrendo da biqueira, respingando o solo frio, ressoava na emoção. E Chopin enternecido com o cenário enevoado recolheu daquele céu tenebroso e fascinante, para o “lá” da partitura, a cadência que enfatiza o início desta obra. Quem quiser assim escute, com a mente transportada às belezas de Maiorca, onde dizem que o prelúdio ao piano foi gestado para o opus 28. Começa tão suave, no lirismo de três notas… Um chamado afetuoso sugere observarmos que num simples respingar melodia também há. E daí Chopin profere nas frases a seguir tudo aquilo que pretende. Faz da chuva, em colcheias, a poesia genuína. E na nota repetida ao fundo se escutam gotas d’água de verdade irrigando a melodia. Declarado o motivo, teorias se sucedem reforçando a riqueza do que a chuva é portadora. Reiteram o que foi dito de maneira variada e enfatizam a intenção do que tem a nos contar. E os graves bem marcados vão criando, paulatinos, a ideia de que a chuva já começa se encorpar. Pouco a pouco se avolumam em acordes vigorosos e evocam a essência do que é inexorável. Com certeza, a essa altura, Chopin já vislumbrava nuvens densas pelo céu das janelas de Maiorca. Nessa hora é difícil de conter o que se enxerga no horizonte fabuloso estampado no prelúdio. O cenário indomável da ilha montanhosa emerge fascinante do mistério musical, da vida em melodia, da bruma em harmonia. Mas a fase é passageira e a chuva se dissipa. A calma é retomada nas três notas do motivo que deu vez à prima voz. Ralentando se esvai sugerindo calmaria e em fermata suaviza o adeus à gota d’água. O desfecho se esmera intuindo a inebriante transparência de uma relva que renasce do orvalho e na alma se eterniza...


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  1. Prosa, rima, música... Que mais lhe falta, tanto talento exibindo?
    E tudo com gosto esmerado.
    Deu para perceber a aproximação da tempestade, sentir o tempo escurecendo, a temperatura caindo, folhas esvoaçando, pássaros buscando abrigo.
    Puxa, Germano, que peça! Parabens!

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    Respostas
    1. Meu amigo Zemário, sua sensibilidade nunca se ocultou, pois se expressa na observação astuta e refinada de suas experiências retratadas em seus envolventes textos. Obrigado

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  2. Parabéns🖐🖐🖐 Germano!!Curti a todos os comentários inseridos.. os quais disseram tudo sobre sua "obra musical" ...!!
    És realmente um artista na íntegra!!
    Paulo Roberto Rocha

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