Não sei se melhor seria envelhecer por igual, física e mentalmente — o descenso em harmonia com o corpo e a mente —, ou ter o juízo a andar sem obediência ao fôlego e à disposição das pernas e dos pés.
Com a decadência por igual, cabeça e pernas no mesmo tropeço, talvez mergulhássemos menos fundo em nossas depressões. Conformados, propositalmente resignados.
Vem ao caso, na minha lembrança, meu primeiro e único instante com o mestre Coriolano de Medeiros. Mestre desde os primeiros passos do professor do ensino comercial, patrono da Escola de Artífices e da Academia Epitácio Pessoa, abarcando em sua visão as características históricas do seu povo e do seu estado e, exemplo maior, mantendo-se independente dos favores da política e do governo durante toda a vida. Na hora em que teria de recorrer aos favores oficiais, na condição de presidente-fundador da Academia Paraibana de Letras, abriu mão do cargo sem queixa nem soberba.
Jovem aqui chegado, eu já trazia de meu interior a reverência do professor Clodomiro Leal e das conversas na biblioteca de Alagoa Nova sobre o autor do Dicionário da Paraíba, o Dicionário Corográfico, hoje a esgotar-se tantas vezes quantas seja reeditado.
Cedo da manhã, ao cruzar a Avenida General Osório em direção ao jornal, avisto-o debruçado num dos janelões de sua casa, o rosto cheio, avultado ainda mais pelas lentes negras dos seus óculos. Do outro lado da calçada, surpreso, inseguro, retive os passos e a vontade incoercível de parar em sua janela e cumprimentá-lo. “Quem sou eu? Que direi? Me dará ouvidos?” De tão gastos, seus olhos já haviam perdido a luz.
Arrisquei: “Bom dia, professor.” Ouvi dele, em voz forte, um bom-dia receptivo. Avançou os ombros mais para fora, eu me aproximei e ouvi a pergunta: “Com quem estou falando?”
Ia dizendo “com ninguém não, professor”, mas freei rápido e me apresentei, inseguro: “Sou do jornal O Norte, de José Leal, seu amigo, e me chamam Negro Gonzaga”.
E veio de graça, espontânea, de quem nunca me vira nem jogara sinuca comigo, que era o que eu fazia com alguma perícia: “Gonzaga Rodrigues, de O Norte?” Virou-se para dentro de casa e pediu que me abrissem a porta. Veio uma senhora de pano à cabeça e conduziu-me ao sofá em que o grande mestre, tateando, se sentara. Tomou minhas mãos, pôs-as em seu joelho e quis saber como estava Clodomiro, com quem se correspondera na pesquisa do Dicionário, salvando Alagoa Nova das queixas que fez, no prefácio, aos municípios que deram o calado por resposta aos seus questionários. Senti um calor estranho, que não vinha do ar, diante de um notável que sabia de minha existência.
Não me lembro bem do ano. O Norte já não era de José Leal, incorporado aos Associados. Só lembro muito bem, e para toda a vida, que o revisor de 1951 que fui, sem emprego fixo, vulnerável a qualquer arrepio das chefias de seção, começava a existir para o mais consagrado dos mestres. Via seu nome completado por quem jamais pudesse supor. Foi o que me lembrou ao baixar a cabeça para a generosidade da UFPB quando recebi o Honoris Causa, mais de meio século depois.
Publicado hoje, 18/10/26, no jornal A União
