Entre o final da década de 1990 e os primeiros anos do século XXI, eu costumava frequentar, em Campina Grande, o Encontro para a Nova...

Tem de fazer cara feia para ser santo?

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Entre o final da década de 1990 e os primeiros anos do século XXI, eu costumava frequentar, em Campina Grande, o Encontro para a Nova Consciência, uma iniciativa que demonstrava ser possível aproveitar o Carnaval para alguma coisa além de ressacas, confissões constrangidas e promessas de abandonar a bebida na quarta-feira de cinzas.

O evento, realizado durante o período carnavalesco, transformava a cidade em território de convivência entre filósofos, psicólogos, cientistas, artistas e representantes das mais diversas tradições religiosas e espirituais. Havia espaço para o diálogo inter-religioso, o pensamento holístico, a ecologia, a meditação e a busca de uma cultura de paz. Enquanto boa parte do país estava em festa, Campina Grande oferecia um evento para o espírito.

Foi nesse ambiente de efervescência intelectual e espiritual que vivi uma das situações mais engraçadas e, ao mesmo tempo, mais educativas da minha vida.

Em determinada edição do encontro, fui convidado a dividir o palco do Teatro Municipal Severino Cabral com o professor Pierre Weil, psicólogo, educador e um dos grandes nomes da difusão da abordagem holística no Brasil. A proposta era interessante: ele apresentaria a perspectiva psicológica da visão holística, enquanto eu abordaria a questão sob o ponto de vista filosófico.

O teatro estava lotado. Na mesa, disposta sobre o palco, estávamos apenas nós dois. Cumprimentei o professor Pierre Weil, acomodamo-nos e aguardei minha vez. O mestre de cerimônias anunciou meu nome, sem grandes formalidades, e me dirigi ao microfone para começar a exposição.

Falei sobre a perspectiva filosófica do tema, desenvolvendo os argumentos que havia preparado. Atrás de mim, porém, alguma coisa começou a despertar minha curiosidade. O professor Pierre Weil permanecia absolutamente calado, imóvel, sereno, usando óculos escuros. Não fazia um gesto, não esboçava uma reação, não oferecia sequer aquele discreto movimento de cabeça com que os ouvintes costumam informar ao palestrante que ainda estão vivos e acompanhando o raciocínio.

Resolvi interagir com meu companheiro de palco. Virei-me para trás e perguntei:

— Não é isso mesmo, professor?

Silêncio.

Nenhuma resposta. Nem um movimento.

Era logo depois do almoço. E, convenhamos, existe um horário em que até as ideias mais elevadas parecem precisar de uma rede. A digestão é uma experiência filosófica que nos devolve à condição animal, lembrando-nos de que o espírito pode ser infinito, mas o estômago tem seus próprios compromissos.

Comecei a desconfiar de que o ilustre professor tivesse sucumbido àquela necessidade fisiológica tão humana. Talvez estivesse dormindo. Talvez a minha exposição, apesar de todos os esforços, tivesse produzido nele uma experiência de transcendência cujo destino final fosse o sono.

O auditório inteiro percebeu. Por alguns segundos, estabeleceu-se aquele constrangimento coletivo em que ninguém sabe se deve rir, tossir ou fingir que está examinando a arquitetura do teatro.

Eu precisava salvar a situação. Afinal, não seria elegante interromper uma palestra para verificar se um dos maiores nomes da psicologia humanista brasileira continuava entre nós ou já havia partido, provisoriamente, para alguma dimensão superior.

Então resolvi dizer:

— Bom, pessoal, vou falar mais baixo, porque parece que o professor Pierre Weil cochilou.

Foi quando aconteceu. Lentamente, com uma serenidade que tornava a cena ainda mais engraçada, o professor levantou os óculos escuros e mostrou os olhos perfeitamente abertos.

O teatro explodiu em gargalhadas.

O homem estava acordado. Prestava atenção. O único adormecido naquela história era o meu julgamento, que havia confundido silêncio com sono e tranquilidade com ausência.

Pierre Weil não precisou pronunciar uma palavra para dar uma aula. Com um gesto mínimo, desmontou minha interpretação da realidade e mostrou que a inteligência também pode ter senso de humor. Eu havia ido ao palco falar de filosofia; ele, sem abandonar a cadeira, ofereceu-me uma lição prática de conhecimento humano.

Existe uma diferença enorme entre a sabedoria que se anuncia e a sabedoria que se manifesta. A primeira costuma precisar de títulos, solenidade, voz grave e, em certos casos, uma expressão facial que sugira que o indivíduo acaba de descobrir os segredos do universo, mas está profundamente decepcionado com a humanidade por ela ainda não ter compreendido nada. A segunda pode simplesmente levantar os óculos e provocar uma gargalhada.

Não sei quantas pessoas, naquela tarde, se lembram do conteúdo exato das nossas exposições. É possível que algumas tenham esquecido os argumentos filosóficos, as categorias psicológicas e as tentativas de compreender o ser humano em sua totalidade. Eu mesmo não me recordo mais do que falei. Mas nunca esqueci aqueles olhos abertos por trás dos óculos escuros.

Talvez porque aquele gesto tenha revelado algo essencial sobre a própria visão holística: não somos feitos apenas de razão, conhecimento e espiritualidade. Somos também feitos de contradições, fragilidades, equívocos e risos. E quem pretende compreender a humanidade precisa começar aceitando que ela não cabe inteiramente nos conceitos que inventamos para explicá-la.

O professor Pierre Weil, cuja contribuição à educação e ao pensamento emergente é inestimável, mostrou-me naquele dia que a profundidade intelectual não precisa vir acompanhada de solenidade permanente. É possível ser sábio sem ser sisudo, espiritualizado sem ser afetado e respeitado sem transformar a própria presença numa cerimônia fúnebre.

Há pessoas que parecem ter medo de sorrir, como se uma gargalhada pudesse comprometer a reputação de sua alma. Caminham pela vida com a testa franzida, distribuindo gravidade aos circunstantes, convencidas de que a santidade exige uma permanente expressão de sofrimento. Se dependesse delas, até os anjos precisariam apresentar atestado de sisudez para entrar no céu. Jesus sabia chorar, também sabia participar de refeições, acolher pessoas e celebrar a vida. A seriedade diante do sofrimento humano não exige mau humor diante da existência. Uma coisa é levar a vida a sério; outra, bastante diferente, é acreditar que precisamos ficar carrancudos para demonstrar que temos profundidade.

Naquela tarde, no Teatro Municipal Severino Cabral, eu aprendi que a sabedoria pode estar sentada atrás de nós, em silêncio, usando óculos escuros. E que, às vezes, a melhor maneira de nos ensinar alguma coisa é deixar que a gente cometa um engano e, em seguida, oferecer-lhe uma boa gargalhada.

Desde então, desconfio um pouco de quem precisa parecer muito sério para convencer os outros de que é sábio. Afinal, se a alma é capaz de alcançar alturas extraordinárias, não há razão para que o senso de humor permaneça rastejando pelo chão.

O professor Pierre Weil me ensinou que não é preciso fazer cara feia para ser santo.

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