Naquele distante janeiro de 1963 o sol impiedoso castigava a fazenda Malhada da Cruz, no agreste paraibano…

O mundo de meu avô

celio furtado pintiura

Naquele distante janeiro de 1963 o sol impiedoso castigava a fazenda Malhada da Cruz, no agreste paraibano…

O único verde existente eram as folhas do umbuzeiro que sombreava a calçada da casa centenária, onde moravam meu avós. Do alpendre eu observava, com angústia e desgosto, o mundo em derredor. Céu limpo, árvores desfolhadas, mato ralo e cinzento. Ao lado estava o curral, que reunia um pequeno rebanho de reses magras, mantidas à sacrifício; mais além, via passarinhos e pequenos animais bebendo do que restava do barreiro, uma poça ocre e espessa.

Aquelas dificuldades iam passar porque sua vontade e sua resistência eram mais fortes que elas
O estalo da porteira se confundiu com o sopro do vento morno, que varreu a poeira da terra ardente. Os passos vieram, venceram os degraus do alpendre, pararam diante da porta.

Dali contemplei meu avô: João Gonçalo Santos Silva, 81 de idade, 5 filhos, 8 netos e casado com Rita de Azevedo Silva, conhecida por dona Ritinha de João Gonçalo.

O cultivo de grãos e o manejo do gado, além de outras criações, numa terra de muitas incertezas, tinham moldado um homem de pele enrugada, semblante cansado, respiração ofegante. Os olhos vivos já não revelavam a vivacidade nem o entusiasmo de antes, e o sorriso meio contido parecia esconder, ou talvez exprimir, dores e desilusões, aquelas passagens que marcam e ficam para sempre, como ferro em couro de animal. E não podia ser diferente, nascera nas entranhas daquele ambiente rude, dele fazia parte, e a ele pertencia, assim como as serpentes e os espinhos.

Passou um tempo na escola, o resto aprendeu na leitura da natureza, e dizia, não tinha lição maior do que ver a árvore desfolhar na ausência de chuva. Tudo tinha sabedoria. Aquela era a sabedoria da árvore.

Um dia as coisas ruins vão bater em nossa porta, e não precisa abrir a porta para saber que estão lá e que querem alguma coisa
Verdade seja dita, era uma alma generosa, de fazer caridade, e até chorar de emoção, mas não tinha ninguém mais realista, resistente e destemido. Se a dificuldade chegava, enfrentava a dificuldade, se para consertar tivesse custo, então que se pagasse o custo. “As secas demoram, mas chegam, porque fazem parte da natureza do mundo... E quando o tempo anuncia sua chegada, ou você corre ou você enfrenta... e não existe meio mais acertado de superar o sofrimento... A gente vence enfrentando, suportando, olhando de cima para baixo.” Assim falava o velho João Gonçalo.

Dona Ritinha passava a maior parte do dia na cozinha, preparando bolos, doces e os guisados do almoço nos tachos de barro no fogão à lenha. Atiçava o fogo enquanto seus olhos miravam o céu e percorriam a estrada através das janelas que iluminavam a mesa comprida onde aconteciam as refeições. A mulher forte, destemida e determinada do passado agora via projetar no espelho uma figura definhada, de saúde frágil, passos miúdos. Religiosa que era e devota de São José, às primeiras horas do anoitecer pegava o terço, ajoelhava-se. Pedia chuva, benção e proteção. O santo parecia abençoar e proteger, mas a chuva não chegava.

As manhãs surgiam sem uma tira de nuvem no céu. As horas se arrastavam, alongavam o dia, encurtava a esperança. Mesmo assim, nunca perdia a fé, que era renovada com a presença da primeira estrela. Também, dizia a quem chegava para uma visita sem demora, que não rezava apenas pela chuva; as rezas a deixavam mais perto de Deus.

A morte é o descanso da vida, e é como a seca, que às vezes demora, mas chega, porque faz parte da natureza de Deus...
Meus avós eram almas diferentes em busca do mesmo propósito, e cada um tinha seus próprios caminhos, o tempo de seguir e a maneira de chegar. Viviam assim, dia a dia, ano a ano, cuidando da fazenda, enfrentando secas, criando os filhos, e, de épocas para cá, rendendo-se às agruras da velhice.

O tempo contou muitos acontecimentos na Malhada da Cruz, uns alegres, como casamentos, festas e vaquejadas, outros tristes, como o assalto de cangaceiros à casa e a estiagem de 1942, que devastou toda a região. Porém nada foi tão marcante quanto a morte do meu tio. Uma manhã meu avô encontrou o corpo dependurado na coberta do curral. Trouxe para casa, entregou à mulher, que entregou a Deus.

Esse mesmo tempo cuidou do resto, mas nem as rezas secaram os olhos de dona Ritinha, porque as lágrimas são a última estação do sofrimento de uma mãe.

Diferente dos irmãos, meu tio preferiu a vida do mato, pois a cidade não lhe despertava interesse nem inspirava simpatia. Seu destino estava ali, amansando cavalo, plantando no inverno, levando a produção pra venda na cidade. Cresceu aprendendo com o pai, que depois começou a aprender com o filho.

Ali no alpendre, continuei contemplando meu avô. Como não era homem de passado nem de futuro, seus pensamentos deviam estar assentados na realidade, em como vencer aquele ano que estava apenas começando. Quando seus olhos encontraram os meus, pareceram entender o que eu pretendia perguntar. Ele tinha a experiência e a verdade, eu apenas a esperança.

O sol corria em direção ao horizonte quando entrou em casa. Foi quando lembrei do que dissera aos filhos semanas atrás: ‘’Um dia as coisas ruins vão bater em nossa porta, e não precisa abrir a porta para saber que estão lá e que querem alguma coisa. E a primeira coisa que desejam é o nosso medo. Se a gente disser que não tem medo, vão desistir da gente e vão bater em outra porta.’’

O ano de 1963 ficou marcado pelos efeitos devastadores da estiagem, um inimigo terrível que tirava vidas e expulsava para longe quem resistia. João Gonçalo não tinha mais forças, nenhuma arma, mas adotara a esperança, por isso resistia, por isso ficava. Ficava, não por teimosia, mas por saber que coisa alguma podia permanecer para sempre. Isso mesmo, o mundo podia se acabar, sua alma não. Mas não era simplesmente por isso, aquelas dificuldades iam passar porque sua vontade e sua resistência eram mais fortes que elas.

Então aconteceu. A chuva voltou. Outra vez as árvores se encheram de folhas e o verde tomou conta da paisagem. Ele, que tinha resistido a tantas incertezas, voltou a sorrir, pois havia chegado o tempo de plantar, de refazer o rebanho. Mas enquanto a invernada devolvia a vida ao mundo, ele via seu mundo perder a vida. Minha avó morreu numa manhã fria e chuvosa de julho de 1964.

celio furtado
As coisas ruins tinham batido à porta da casa, e mesmo sabendo que não era para abrir, elas tinham encontrado uma maneira de entrar, pois, ele mesmo dizia, há acontecimentos que fazem parte da existência humana e não há outra coisa para se fazer, a não ser enfrentar.

Voltei àquela casa algumas vezes. Numa delas entrei em seu quarto, encontrei uma Bíblia na mesinha da cama, do lado em que ele deitava. Folheei e encontrei escrito: “A morte é o descanso da vida, e é como a seca, que às vezes demora, mas chega, porque faz parte da natureza de Deus... E não existe meio mais acertado de superar o sofrimento... A gente vence enfrentando, suportando, sem medo, porque se você enfrentar, a dor vai doendo, doendo, doendo, até deixar de doer. A gente só não consegue deixar de lembrar!"


Célio Furtado é artista plástico e cronista
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