As três coisas mais fortes da existência humana, eu vi de uma vez só: a morte, o amor e a vida. Eu era menino e um garoto mais velho da r...

As três feridas

ambiente de leitura carlos romero nelson barros berlim pieta mae com filho morto civis mortos segunda guerra

As três coisas mais fortes da existência humana, eu vi de uma vez só: a morte, o amor e a vida.

Eu era menino e um garoto mais velho da rua foi atropelado.

Naquele tempo, menino brincava na rua, na calçada. O medo não fazia parte. Raul devia ter uns 17 ou 18 anos e foi atropelado por um Opala.

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A gente estava brincando na rua e acho que ninguém viu direito ou entendeu direito o que tinha acontecido. Uma freada, um baque seco, um silêncio... Raul já caiu morto, eu penso... não teve sangue…

Lembro da gente ali, sabendo o que era aquilo mas sem entender o que era aquilo... um silêncio... parece que o mundo ficou mouco, nenhum som, fora a batida do coração. Como quando a gente tapa os ouvidos com as mãos, sabe... e o grito…

O grito veio lá do fim da rua.

Dona Odete chegou correndo, a vaidade toda deixada para trás, um único bob nos cabelos, as alças do sutiã aparecendo, a feiúra da dor…

Aquela mulher se ajoelhou no chão e antes de olhar para o filho morto, olhou para todos em volta. Os olhos dela pediam para que alguém dissesse que aquilo não estava acontecendo. Ninguém conseguiu olhar aquela dor…

Raul era um menino grandão. Ossudo. Pesado. Dona Odete era magrinha. Ossudinha. Olhinhos fundos.

- meu filho, meu filho... ela repetia, repetia, repetia... aí se debruçou para botar Raul nos braços. Lembrei desse fato ao ver a escultura em estilo pietá "Mãe com seu filho morto", em Berlim, que simboliza o sofrimento dos civis durante a 2ª Guerra Mundial.

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Alguém tentou ajudar. - ele é muito grande, dona Odete…

- filho nenhum é grande demais pros braços de uma mãe…

Nunca, nunca mais na minha vida esqueci disso…

- filho nenhum é grande demais pros braços de uma mãe…

Ela pegou o filho, recolheu no colo e embalou. No meio da rua, sentada no chão, desgrenhada e sem deixar nenhuma pessoa do mundo tirá-los dali.

Lembro do seu olhar pedindo para que alguém lhe dissesse que aquilo não estava acontecendo
As outras mães foram chegando. Cada uma, depois de verificar que a sua cria estava viva, se juntava àquela mulher e lhe dava uma reserva de força. Eu vi isso. Eu vi mesmo.

Foram elas que se aglutinaram numa massa única e levaram os destroços de uma mãe e o seu filho morto para casa.

Mamãe me pegou pela mão e me levou para dentro. Olhou para mim e eu olhei para ela.

- fique aqui dentro. Eu vou alí e já volto.

Eu sabia onde era esse "alí".

Tinha muito mistério e uma realidade absurda naquilo tudo.

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Se você pensa que a inocência se vai com a descoberta da sexualidade, não faz idéia do que acontece quando se descobre a morte.

Naquele olhar trocado entre minha mãe e eu, pensei um pensamento louco: - não, mãe, não vou fazer isso com 'a senhora'. Eu prometo (e eu não sabia que essa promessa poderia não ser cumprida) que vou ser forte o suficiente para deixar a senhora ir primeiro, para não ter que assistir a minha morte…

Naquele dia, o som de uma freada brusca e um baque surdo nos paralelepípedos, me apresentaram de uma só vez, as três feridas: a do amor, a da vida e a da morte.

E foi nesse dia que eu perdi a inocência.

Muitos, muitos anos depois, tive que assistir a minha mãe vivendo essa dor, quando meu irmão se foi. Pensei que ela se quebraria no meio. E lembro do seu olhar pedindo para que alguém lhe dissesse que aquilo não estava acontecendo.

Essa dor é a mesma para qualquer mãe.

Da mãe do negro morto pela polícia, da mãe do gay atacado por homofóbicos, da mãe da mocinha estuprada e morta, da mãe do rapaz que levou um tiro do amigo que estava armado ou do garoto que bateu o carro num poste porque dirigia embriagado. Essa dor não tem cor, não tem raça, não tem sexo, não tem classe social, não é de esquerda nem de direita.

Essa dor fica atravessada no peito. Para sempre.


Nelson Barros é psicólogo e cronista
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  1. Eita Nelson, só de ler somem todas as palavras e tudo que a gente quer é entrar no coração e ficar lá bem quietinha, no maior silêncio.
    Que emoção tão grande... 💙

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