Eu era rapazote quando ouvi falar nisso pela primeira vez. A roda formara-se na calçada de seu Antônio Leal da Fonseca, ele bem mais alto do que todos nós, a gravata solta ao vento e seus olhos esverdeados dando um brilho incomum às suas palavras.
Reclamava da falta de educação do povo, que sacudia o lixo pela janela sem ligar onde ou em quem batesse. A bronca mais recente, que devia ser o motivo da conversa, era que, da janela de um dos poucos sobrados da
___▪️
Aqui em João Pessoa, Damásio recorria muito a essas leis para cobrar mais respeito com o pedestre destes novos dias motorizados. E respeitá-lo era, primeiramente, assegurar o nivelamento e o desentulho das calçadas, tudo o mais vindo depois. Os cegos podiam confiar no tato e em suas bengalas. Chegou-se a adotar um padrão de mosaico, o Copacabana em tamanho menor, para a calçada das praças e dos prédios públicos, que as casas particulares passaram a seguir.
E o que vieram dizer, depois, os sucessores do velho tabelião? Que Damásio estava arrastando os pés. Que me lembre, foi quando se levou a sério a lei de postura.
Agora me volta às mãos uma revista desaparecida de arquitetura, a “Art-Studio”, com uma abordagem desses cuidados, desta vez defendidos por arquitetos e entidades ligadas à arte. São as normas de acessibilidade, “uma forma de garantir o direito de ir e vir do cidadão”, na expressão cidadã de uma entrevistada.
Calçadas de João Pessoa (PB) ▪️ Foto: Jéssica Lucena
Mas, a 100 metros dela, na avenida paralela, tombei de cabeça numa saliência entre calçadas, levantada de véspera para disfarçar o batente antigo a que nossos passos, a caminho da padaria há mais de vinte anos, haviam se acostumado. Na dor, estendido no chão, a vista escura, supus que ninguém houvesse passado naquela hora para me assistir. Mas o desengano foi mais longe: surgiu, sim, quem achasse mais urgente levar a sacola de pão e leite trazida da padaria.









