Nada para nos incomodar tanto como promessas que ficamos devendo àquelas pessoas que partiram para uma viagem que estava fora do combinado. O abraço que fomos adiando, pedidos de desculpas que protelamos. Coisas assim. O problema é que essas elucubrações ficam martelando nosso juízo e não há como darmos fim a elas.
Pois eu fiquei em falta com um amigo querido que pouco tempo atrás fez a tal viagem, a definitiva, a que não permite regresso. Foi o
Thomas Bruno Oliveira ⏤ historiador paraibano, colunista de A União, colaborador do ALCR, Thomas Bruno, falecido em 27/12/25, deixou deixou um legado de pesquisa e amor pelo interior da Paraíba ▪️ Facebook: @thomas.brunooliveira
Assim, inicialmente, lembremos algumas características que faziam de Thomas uma criatura especial. A primeira delas era aquele fervor quase patriótico que nutria por sua Campina Grande. Para ele, Londres (ela mesma, a capital da Inglaterra) era apenas uma localidade que distava 7.385 km da Rainha da Borborema. Tinha esse amor visceral pelo seu chão e pelas tradições de nossa Paraíba. Historiador e pesquisador de notável cepa, costumava percorrer o Brejo, o Cariri e o Sertão à cata de tradições e das mais diversas manifestações culturais para fazer o devido registro e não permitir que essas preciosidades se perdessem na poeira do tempo.
Guerreiro tenaz na defesa de nosso patrimônio arquitetônico, fosse uma igreja, um palácio ou uma residência dos tempos do Brasil Colônia, como até também uma modesta morada plantada nessas brenhas do nosso interior. Nada deixava escapar.
Mas o melhor de Thomas, no meu modesto entender, era a convivência com os amigos. Um bom cavaco de botequim não é virtude de qualquer um. Molhar a palavra com conversa inteligente, sagaz e com as mais finas ironias é só para almas inspiradas como a dele.
Marcos Mantuan
Não foi um abraço, não foi também um pedido de desculpas, mas algumas notícias ou alguns informes que fui procrastinando, e agora venho aqui revelar publicamente essa minha falta.
Tudo começou cerca de uns sete anos atrás. Vinha eu lá pelas dez da noite na estrada que liga Guarabira a Sapé, quando um companheiro de viagem pediu que eu encostasse o veículo, pois este (ele, e não o veículo) precisava urgentemente “tirar água do joelho”. Achei um local mais apropriado, estacionei. Foi quando nosso companheiro voltou todo assustado dizendo: “Tem um bicho estranho naquele bambuzal”. Bicho estranho? Onça não podia ser, não vivem por aqui. Resolvemos ver o que era.
Pois acreditem: era um bando de sacis. Estavam assustados com nossa presença. Assim por alto, contei uns dez, talvez fossem até mais. Esse amigo, que não acho prudente revelar o nome, chispou para o
GD'Art
Contei o ocorrido a Thomas Bruno e, dias depois, estávamos nós à noite por lá capeando sacis, até que os encontramos. Thomas deixou com as criaturas fumo de corda, pipoca, uma meiota de cachaça, rapadura e um apito.
A partir daí, vou citar nobres amigos que estiveram conosco nessa jornada e podem ser testemunhas até nos tribunais, se preciso for: Zé Edmilson, Zé Pequeno, Zé Ronald. São testemunhas para que nenhum sacripanta que ao ler esta coluna venha me crivar de adjetivos como mentiroso, enrolador, farsante, charlatão e outros de mesmo jaez. Todos os citados tiveram momentos inesquecíveis com essas criaturas (saci nem é bicho, nem é gente).
Bem, por diversas circunstâncias da vida, perdi contato com eles, que deixaram aquela localidade e devem ter se embrenhado sertão adentro. Thomas, que sempre detestou essas manifestações importadas como o Halloween, sugeriu que criássemos o dia do saci, e contava comigo para a empreita.
Estudioso que sou do assunto, não seria tão difícil encontrá-los. Mas, como disse, fui adiando... Agora, Inês é morta.



