Não era tempo. Para algumas raras criaturas nunca será tempo. Ainda mais (para não dizer mormente, que agrediria seu ouvido) quando se trat...

Os guevaras que morremos


Não era tempo. Para algumas raras criaturas nunca será tempo. Ainda mais (para não dizer mormente, que agrediria seu ouvido) quando se trata de um remanescente do rebanho insubmisso de Augusto, o dos Anjos, destinado a fazer vagar na alma do mundo a noção expressa que colheu da vida e do mundo em seu “hidrogênio incandescente”.

Pois incandescem, sim, hão de incandescer e para sempre, petardos em brasa como este que o poeta e homem insubmisso Severino Marcos Tavares (Severino de Ingá, Marcos da Bíblia) dedicou ao filho Rafael num momento de alvorecer das esperanças sempre frustradas dos nativos que ele encarnou:


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Rafael
o que te damos hoje
é uma Constituição.

Ela nos custou
algumas pancadas no porão,
alguns dentes a menos / e neuroses a mais.

Custou os pais
de alguns filhos
e os filhos de alguns pais
que hoje não podem
- como eu -
e dar a Carta da Nação.

Rafael
uma Constituição se faz
menos com palavras
e mais com ações.

A minha geração
criou leis e ditaduras
criadores e criaturas
políticos e polícia.

Escreveu outras Constituições
e no berço esplêndido das paixões
rasgou-as.

Essa que te dou é falha,
errada como tudo que fazemos
frágil como o tempo que vivemos
mortal como os Guevaras
que morremos.

Essa que te dou é falha
uma tralha de Leis 

[......................]

Meu filho
todos são iguais perante a Lei
É só o que sei que está escrito
e sei a tinta que usaram.

Há sangue respingando
dentes quebrados,
choques aplicados
para que se fizesse uma Constituição.

Não que ela seja a Carta
que eu queria te dar.

Mas é a Carta promulgada
e contra ela, nada – eu disse nada -
poderá ser feito.

A não ser, - é teu direito -
que a tua geração
desça de novo ao inferno do porão
e recrie sua própria Constituição.




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É Severino Marcos, Marcos do profeta, Severino do Ingá da Pedra, de um cimo de montanha pregando o seu poema “A dura lei – ou um canto para vocês”, incluído na antologia de “Autores Paraibanos / Poesia”(2005), por escolha de Sérgio de Castro Pinto, companheiro e guardião da chama primitiva do Grupo Sanhauá, a que pertenciam Marcos Tavares e seu irmão, Anco Márcio, outro talento das nossas letras.


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O apelo ao “hidrogênio incandescente” do gênio de Augusto, há de ver o leitor – tem sobradas razões de ser.

Poeta, jornalista, dramaturgo, Marcos Tavares nunca deixou de ser o guevariano de espírito e comportamento anunciado pelos olhos desafiantes daquele jovem de cabelos negros, barba e bigodes fartos. A ironia veio depois, quando, inconformado, indagava ao filho Rafael, a quem dedica o poema: “Rafael, não sei o que você espera desta nação”.

É pena que o povo brasileiro, vestindo a túnica de algodão seridó dos seus poetas, não consiga passar à frente de sua poesia.


Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL
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