Num desses paradoxos da vida, passei nove meses calado, em 1997, pintando minha homenagem ao mestre supremo da palavra - William Shakespea...

Palavra e cor


Num desses paradoxos da vida, passei nove meses calado, em 1997, pintando minha homenagem ao mestre supremo da palavra - William Shakespeare – no retângulo de 3,60 X 7,20 m, composto de trinta e seis telas, que está lá no auditório da reitoria da UFPB. Em lugar de criar espetáculos teatrais, seus textos me proporcionaram “fotogramas” deles. Foi o que vi Miguelângelo fazer no teto da Sistina, com os versículos do Gênesis.

As artes estão todas interligadas. A do escritor (de poesia ou prosa) consiste em estabelecer ideias e realizar imagens… na mente de seus leitores, o que dá sentido à declaração do grande autor de
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Por Quem os Sinos Dobram, Morte na Tarde, Paris é uma Festa, Adeus às Armas, além de O Velho e o Mar, de que ia aos museus ver Cézanne pra aprender a escrever.

E talvez porque a primeira arte em que me empenhei tenha sido a da pintura, acho que mais do que ele, me servi de ilustrações de livros e revistas – principalmente os dedicados à Arte - para me ativar o exercício da escrita. No meu poema longo Trigal com Corvos, digo, lá pelas tantas, com certa ironia, que ao olhar a imagem de uma moto com a metálica musculatura à mostra, esforço-me para criar um verso como “a grande moto com a metálica musculatura à mostra” e, ao ver a foto de uma corrente ajoelhando-se no que se derrama numa chapa de aço, tento algo como “a corrente ajoelhando-se nos elos no que se derrama numa chapa de aço”. Foi a maneira que encontrei para suprir a impossibilidade – por absoluta falta de tempo, em meus primeiros trinta anos de literatura – de me servir do expediente, comum nos romancistas, de sair por aí com um caderno de notas, anotando tudo que pudesse mexer com a minha imaginação, já que passava boa parte do dia trabalhando no Banco do Brasil.

É estranha, no entanto, a diferença do comportamento da mente de quem escreve para a de quem pinta. O verbo corre frouxo no cérebro do escritor, claro. Mas com pincel na mão, algo clica a tecla “mute” no criador, e as ideias lhe vêm traduzidas em cores, linhas, luz, sombra, volumes.
Ao ilustrar o “Júlio César”, de Shakespeare, por exemplo, para o dito painel da Universidade, como eu sabia que se tratava de alguém que queria o poder absoluto, mas estava cercado de senadores – como Bruto e Cássio - que queriam derrubá-lo e matá-lo, vi, na memória, que os bustos (cegos, na precariedade do mármore branco) do homem decidido que disse “Alea Jacta Est”, tinham similaridade com os vincos firmes de Clint Eastwood, que – como num retrato falado – vi imediatamente calvo, como o romano, e de nariz mais adunco.

Em suas mãos surgiu a coroa de louros que ele queria, mas na sua couraça dourada apareceu na mesma hora um belo desenho de Charles Schwabe - Spleen et Idéal (imagem criada a partir d'As Flores do Mal, de Baudelaire), que transformei mentalmente num baixo-relevo angustiante, onde se vê o Ideal - simbolizado por um belo nu alado feminino - agarrado pelo monstro que quer trazê-lo para a água que o sufocará. Claro que toda a série emerge sem nomes – Clint Eastwood, Spleen et Idéal, Schwabe, o que quer que seja. Apenas “sei” que se trata de cada um deles, ao “vê-los”. Do mesmo modo, procuro um rosto perfeito para o jovem estouvado que será o futuro Henrique V… e encontro – na memória – o de uma foto de Bruna Lombardi, de quem imediatamente tosei os cabelos no que lhe tirei os seios,
meti-a numa roupa masculina de época, pondo-lhe na mão direita um longo copo que eu vira num autorretrato de Rembrandt que faz um brinde com a esposa no colo.

Quando a exata imagem final não emerge com facilidade, o artista, obviamente, se angustia. São conhecidas as experiências do fisiólogo russo Ivan Pavlov com os reflexos condicionados, que ele fazia com cães. Numa delas, habitua o animal a salivar assim que vê o desenho de um círculo no quadro colocado à sua frente, sinal de que em seguida lhe será servida a ração e, se o que surge é uma elipse, de que não haverá comida. Aos poucos, então, ele foi achatando o círculo e engordando elipse, até chegar num ponto em que o cachorro, aflito, se punha a ganir, sem compreender o recado.

Quando escrevi, com Marcus Vilar, o roteiro de “A Canga”, a preocupação era a de transformar parte da narrativa de meu romance homônimo em imagens – como na Homenagem a Shakespeare – mas em movimento. Já ao fazer, para a coreógrafa Rosângela Cagliani e o Maestro Carlos Anísio o roteiro para o balé “Caldo da Cana”, a preocupação – evidentemente – era a de contar uma estória sem palavras e com imagens em movimento… mas dançado. Por último, ao fazer em argila o busto do meu grande amigo Dr. Atêncio Bezerra Wanderley, depois transferido para o bronze, nada de movimento, nada de cores: formas. A presença.

Em meu poema longo Esse é o Homem, esboço – logo nos primeiros versos - o que teria sido o milagre da palavra no início de nossa evolução:

Pela primeira vez ele disse o equivalente a
- Água
e,
assombrosamente,
viu
água;

- Pedra

e lá estava,
na assombrosa mente:

pedra.

Mais adiante, acompanho outro milagre, maior, o da leitura:

Flagrem-se os olhos correndo por estes versos como num aqueduto,
ou como trem, célere, num viaduto,
a sombra a se precipitar,
encosta abaixo,
pro vão nas pedras, nas quais salta – numa zoada de sismo - do close pro abismo.”

Isso dá sentido a célebres frases, como estas:

“ - Faça-se a luz!
E a luz foi feita.”

Quem escreveu isso sabia o que estava fazendo.


W. J. Solha é dramaturgo, artista plástico e poeta
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