Não é mesmo nada fácil escrever sobre amigos quando se pretende uma avaliação isenta. Por outro lado, sabemos que com os verdadeiros amigos...

No caminho da música

ambiente de leitura carlos romero musica nata rio grande do norte samuel sam cavalcanti pianista potiguar grace elizabeth smith-alves

Não é mesmo nada fácil escrever sobre amigos quando se pretende uma avaliação isenta. Por outro lado, sabemos que com os verdadeiros amigos deve-se cultivar a sinceridade e a boa crítica, porque se trata de um olhar carinhoso com o único objetivo de melhorar, ou, pelo menos, contribuir com o aprimoramento de quem temos estima. Arvoro-me nessa empreitada a falar, desta vez, sobre álbum de grande amiga potiguar-estadunidense.

Nas minhas muitas lembranças do convívio com Grace Elizabeth Smith-Alves, rememoro nosso primeiro encontro, quando nos conhecemos por ocasião de evento pianístico-universitário promovido entre as universidades federais da Paraíba e Rio Grande do Norte.

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À época toquei a Ciranda de Villa-Lobos, "Senhora Dona Sancha", na classe do professor Ney Fialkow.

Grace possui um estilo clássico de comportamento. O modo como fala, como se veste, como se porta em eventos lembra-me vultos do panteão cinematográfico norteamericano do século passado, os quais, de forma natural, nela se manifestam traduzidos em sua persona. E, assim, o seu álbum e sua carreira têm-se deixado imprimir por um toque refinado, inclusive no domínio, por igual, dos idiomas português e inglês.

Resultado de premiação pelo selo Sorel Classics, o álbum "Keys to Rio" é um compilado singelo de repertório que toca primeiramente ao coração de Grace e, por meio da apreciação de seu trabalho, a todos quantos queiram deleitar-se com sua experimentação. Grace, de índole investigativa, não se deu por satisfeita em simplesmente ganhar o prêmio, mas entender o princípio filantrópico da organização "The Elizabeth & Michel Sorel Charitable" – criada pela pianista Claudette Sorel, francesa de nascimento. Não só do papel que tal fundação vem exercendo em promover a figura feminina nas artes, mas também pelo próprio exemplo de pianista e educadora que a foi senhora Claudette. Esta oportunidade lançou sobre Grace forte consciência de atuação enquanto musicista brasileira, nordestina e afeita a causas semelhantes. O ofício do pianista hoje é claramente expresso neste álbum, em que ela, Grace, nos presenteia com honestidade.


Em "Apanhei-te Cavaquinho", de Ernesto Nazareth – chorinho sob codinome mais palatável de “polca” (ala brasileira!), de 1914, “dedicado ao distinto e particular amigo Juracy Nazareth de Araújo” — Grace marca o ritmo característico do acompanhamento, sem pressa e convincentemente. Dá gosto ouvi-la e imaginar o saracotear dessa polca brasileira agregando o tilintar de faca em prato, tão comum como sonoridade brasileira de rodas de samba.

Dizem que Chiquinha Gonzaga, ao finalizar seu tango-brasileiro "Gaúcho", mais conhecido como "O Corta-Jaca de CÁ e LÁ", exclamou:

“Arre!!! São 3 e um quarto da manhã!
Estou cansada, vou dormir…
Felizmente acabei – os galos cantam”

Grace funde a elegância dos bons modos dos velhos tempos à descontraída rítmica que Chiquinha traduz como uma pioneira aos salões nobres: seu toque imbui uma referência da popularidade das obras, tanto de Ernesto, quanto de Chiquinha, pelas mãos dos pianistas domésticos; música que enchia noites a dentro em casas festeiras.

Em "Atraente", ela empresta sua elegância para um toque sem exasperos, reatando a música para piano com o cotidiano de uma sociedade que, infelizmente hoje, pretere um instrumento dos mais ricos já inventados pelo homem, por sintetizadores sem expressividade.

Mas é na relação com Oriano de Almeida que Grace brinda ao seu ouvinte com interpretações de um repertório pouquíssimo conhecido e que nos surge como tesouro ainda inexplorado.

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Oriano – célebre pianista paraense, radicado em Natal desde seus oito anos – passou ao contato de Grace na pré-adolescência, seja por ela já tocar alguns de seus Prelúdios Potiguares – ciclo interessantíssimo para o ensino de música no Brasil – (dois destes inclusos nesta gravação), seja porque teve acesso ao Oriano maduro, em seus últimos anos de vida, em conversações inspiradoras para a então jovem natalense, aspirante da carreira pianística.

"No Caminho do Sertão" é miniatura telúrica, de um pianismo interiorano. Grace, certa vez, confessou-me entusiasmada, da ampliação da tessitura ao repetir o tema em oitavas diferentes, contribuindo, numa liberdade criativa, com o discurso de Oriano.

Já em "Polytheama", Grace parece ter escolhido, literalmente, a dedo: essa simbiose do pianismo da era do cinema mudo, reminiscências de Scott Joplin – conterrâneo de seu pai – e das pianolas de saloon bar, tão comuns pelos estados do sul e centro-oeste norte-americano, são fontes para Oriano e justificativa afetiva para Grace.

Na "Valsa de Paris", a pianista alcança o ponto alto do disco com uma sutileza libertadora tal que a música nos toma por inteiro. Oriano evoca os ares parisienses que a ele foram íntimos em anos de estudo e duro trabalho, e que, em Grace, tornam-se reais, por ela ter estudado a língua de Magdalena Tagliaferro, professora de Oriano e por ter se esmerado em reavivar essa saga simbólico-musical. É peça genuinamente atrativa e cheia de arroubos improvisados com máxima delicadeza estilística. O álbum ainda contém outras seleções de peças de Heitor Villa-Lobos e Marlos Nobre que deixo para os que desejem investigar sobre essa batalhadora artista brasileira.

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Nestes tempos pandêmicos, não devemos deixar escapar as oportunidades de reconhecimento dos laços humanos, sobretudo, aos quais a Arte é aliança indelével. Como tenho refletido: vírus algum nos melhorará enquanto raça. Antes, a pandemia da vez, realçará, temporariamente, o que há de melhor e de pior em nós. Grace – que viveu momentos recentes tensos, inclusive com seu filho, tentando sair dos Estados Unidos para o lar natalense – não só comprova a atualidade em suas reflexões, mas pode nos oferecer, como profissional da música, seu ofício gravado, para que saibamos ofertá-la em retribuição, aplausos em forma de atenção às gravações que circulam pelos meios de comunicação à distância, e pela própria aquisição do já saudoso CD que significa, para o artista que o grava, fonte honesta de seu ganha-pão.

SORTEIO
O Ambiente de Leitura Carlos Romero promoverá o sorteio de três CDs "Keys to Rio", da pianista Grace Smith-Alves. Concorrerão aqueles que comentarem esta postagem até as 23h59 do próximo dia 20 de agosto (sexta-feira).O resultado será divulgado no sábado, dia 21.
Boa sorte!


Sam Cavalcanti é mestre em música, compositor, crítico e escritor
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  1. Concordo com o texto sobre a pianista Grace Smith.
    Tive o prazer de produzir a Turnê Européia do Duo Grace Smith e soprano Diana Danieli e conviver com a Grace por quase um mês. Ela é refinada por inteiro, culta, educadíssima, tem um dom especial para música brasileira.

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  2. Muito lindo tá de parabéns👏👏👏

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  3. Germano Romero17/8/20 22:01

    Impressiona o empenho de Samuel Cavalcanti na divulgação dos valores artístico-musicais brasileiros, alguns nem sempre contemplados com a visibilidade que merecem. Parabéns, Sam. Este também é o papel do legítimo professor! Abraços

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  4. Cristóvam Augusto de Carvalho Sobrinho18/8/20 00:21

    A descrição que Mestre Sam aqui realiza resulta da capacidade peculiar de externar conhecimento musical sem perder de vista o indivíduo no interior da sociedade, em seu próprio cotidiano. E assim tão bem o faz para o caso de Grace, talvez, até com certo cuidado ou, em certa medida, contido pelos laços da amizade com a pianista. Pois que, de fato, essa musicista é uma das expressões de refinamento humano-musical cada vez mais raros em nossos tempos... Tive o privilégio de acompanhar algumas audições de piano no Departamento de Música da UFPB e constatar o diferencial dessa pianista. Interessante também notar que esse olhar lançado sobre nossos valores – essa ação que consegue captar as singularidades, as sutilidades, as particularidades – se dá, em igual medida, sobre outros importantes representantes da música mundo afora e de outras épocas históricas. Se trata de uma condição individual muito importante e, de fato, representa um dos fatores que nos permite a leitura de textos como esse ora apresentado. Realmente, me alegro em perceber que esse espaço de interlocução está conseguindo um feito cultural muito importante... quem puder, e bem souber, valorize esse espaço. Parabéns aos seus idealizadores!

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  5. Parabéns Samuel pelo brilhante texto e pela valorosa indicação musical.

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