Em tempos de isolamento social, época de pandemia, é dúbio pensar: estou fora! Se a pessoa for idosa e do grupo de risco, o fora é dentro d...

Novamente ela chegou sem avisar

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Em tempos de isolamento social, época de pandemia, é dúbio pensar: estou fora! Se a pessoa for idosa e do grupo de risco, o fora é dentro de casa. Essa constatação ficou bem óbvia quando acordei, olhei para as minhas roupas penduradas na arara e pensei: quanto tempo mais vou viver fora das minhas roupas? Cheguei até a sonhar que estava com meu vestido verde claro, com um tecido mesclado, que gosto tanto.

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Estou fora dos meus desejos, dos meus hábitos, dos meus prazeres. Estou fora do dia a dia dos meus familiares, com exceção do meu filho que vem aqui abastecer com as necessidades básicas. Ele fica fora, mas eu fico dentro de meu isolamento.

Não estou numa situação ruim. Muito pelo contrário. Estou num ambiente claro, ventilado, silencioso e confortável, de onde vejo o verde. Tenho internet e uma gatinha que fica sempre comigo. Faço e recebo ligações diárias da filha e dos netos. Brincamos, conversamos, mas eu cá e eles lá. Sinto daqui os aperreios e as alegrias diárias, mas de fora. Falo com minhas amigas, escuto suas histórias, debatemos a situação e as vidas perdidas, nos deparamos com o sofrimento de quem está na linha de frente e constatamos que estamos fora. O que poderia fazer se estivesse dentro? Será que mudaria alguma coisa?

Agora todos querem viver um “novo normal”, voltar para as aglomerações, ir para fora. A música volta a tocar com o volume alto na rua aqui perto, enquanto eu faço questão de ficar fora desse som alto, e das multidões. Ainda é cedo, fico no meu quarto, fecho tudo, vou dormir e acordo mais isolada do que nunca. Não quero estar num país com tanto descaso com os sofrimentos e necessidades de seu povo, mas estou nele e sem ação.

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Estou fora da possibilidade de mais cedo poder transitar, ir à praia, viajar, fazer compras, comer açaí. Estou fora do que sonhei e planejei para o segundo semestre. Estou fora do convívio com a família. Estou fora da dor que poderia ter nos unido. Estou fora do almoço de domingo. Estou fora do sonho de alguém.

Às vezes, ou por vezes, sou uma pessoa que aguenta uma situação difícil, mas quando chega o limite e digo "tô fora" não volto mais. Assim foram vários momentos, desde o primeiro casamento até episódios de trabalho. Digo sem remorso, digo já estando fora no meu pensamento, só não tinha ainda verbalizado, escrito e trazido à tona.

Não sei por conta de que me vêm essas lembranças. Acho que deve ser pelo fato de não poder dizer, por livre vontade, "estou fora"! Mas a tristeza, em certas ocasiões, não depende de algo externo. Ela fica instalada, guardada a sete chaves, e, num dia qualquer, aparece e nos carrega para um lugar de onde é difícil sair. |Essa tristeza é diferente daquela causada por algo de fora, que passa, e, assim, pode ser considerada leve, mesmo que seja intensa por algum momento.

Ah, se fôssemos como os gatos que pressentem quando algum perigo está a caminho. Dizem que nos locais em que há terremotos, as pessoas criam os bichanos também por eles serem capazes de detectar os tremores com antecedência. Só não sei o que eles fazem para avisar. Talvez fiquem bem agitados.

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Nós, humanos, mesmo sentindo que há algo silencioso acontecendo com o nosso corpo e com a nossa mente, não conseguimos encarar que lá vem "ela" novamente. Não queremos crer, sempre pensamos que será a última vez, mas não existe última vez para quem ainda respira.

Inspira, expira. Inspira, expira. Acho que, com o passar do tempo, conseguimos aprender a lidar com a tristeza, e, nesse aprender, ela tende a chegar mais branda, com menos cara de pânico, de desamparo, de medo. É como diz Caetano Veloso, cada um sabe "a sua dor e sua delícia de ser o que é". Resta só saber onde colocar os dois sentimentos: dentro ou fora.

No meu lugar de confinamento, estou fora de tudo, mas minha tristeza está mais instalada do que nunca. Espero que ela logo vá embora, como uma tempestade. Hoje aqui chove, está nublado, ainda é um dia cheio de tristeza, aquela tristeza profunda, que precisa ser tratada com muita calma.

Inspira, expira!


Rejane Vieira é graduada em comunicação e mestra em saúde pública
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