“Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enla...

Como uma onda no mar

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“Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos.)
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente E sem desassossegos grandes.” Ricardo Reis / Fernando Pessoa

Elaine foi minha aluna no ano em que concluiria o curso. Eu sempre pronunciava o nome dela em inglês, e expliquei a ela que assim o fazia para homenagear o bar onde Woody Allen costumava tocar seu clarinete. Ela parecia manter o interesse pelas minhas aulas o tempo inteiro; não bastasse, não era incomum ela entrar numa aula minha, em que não estava matriculada, sem pedir licença, e sentar na última fila, concentrada como um beija-flor, até o final da aula. Suas raras intervenções, não muito pertinentes, suas discretas participações nos seminários e suas provas fracas talvez explicassem a sua aparente concentração e seu interesse.
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David Iskander
Como eu sempre fui menos professor do que camelô de palavras, ela não tinha como aprender literatura; acho que ela gostava mesmo era de estar em sala de aula.

Sempre caminhávamos até a cantina, na hora do intervalo, e conversávamos um pouco, quase sempre sobre futilidades, e a única alusão à literatura nessas conversas era sempre em tom de blague, pois ela sempre perguntava como ia Julieta (referindo-se à minha esposa), e eu sempre perguntava como ia o Esteves sem metafísica, referindo-me ao namorado dela.

Ela insistia comigo para que a orientasse em seu TCC, mas não havia como aceitar, pois ela queria fazer um trabalho na área de lingüística, e eu sempre fugi dessa disciplina.

Ela insistiu para conhecer a minha biblioteca. Eu não via motivo algum para isto, mas aquiesci, e lá foi ela, num sábado à tarde, criar problema para mim, pois sendo a única aluna a ter acesso a minha biblioteca, a minha esposa não gostou muito, ficou entrando e saindo e concluiu que Elaine não sabia sequer pegar num livro, que seu interesse era outro. Mesmo assim, Elaine arrancou-me dois livros emprestados, e quando minha esposa soube disto, ficou possessa, pois sabia como me atormentava a simples idéia de emprestar um livro. O pior é que Elaine ficou insistindo para ir todo sábado à tarde ver meus livros. Ora, como se não bastasse eu ter de agüentar alguém manuseando meus livros, minha esposa jamais iria aceitar uma visita dessas. Elaine desistiu das visitas, mas disse que queria ficar pegando, toda semana, um livro meu emprestado para nunca ler... Achei estranho, mas alimentei essa estranheza até o final do ano.

Ela concluiu o curso e, logo em seguida, passou a enviar-me alguns e-mails; eu não respondi a nenhum, ela parou de mandar, e por cinco anos perdi o contato com ela.

Era sábado, a Lua e a Estrela Dalva acendiam o céu e já passava das 22 horas, eu tomava o último uísque com água de coco, sozinho, na que passara a ser minha mesa cativa, na barraca Cabo Branco, conversando em silêncio comigo mesmo.
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Jon Asato
Da noite, surge uma voz: “Professor... Isto é hora de um homem casado estar sozinho num bar?” Era Elaine, e o uísque, com a presença de espírito que eu nunca tive, incontinenti respondeu:

“Eu estou separado há três anos, e venho aqui todas as noites só esperar por você.”

“O que é isso, professor? Sou uma mulher casada.”

Casara há dez dias, e o Esteves sem nenhuma metafísica, que tinha sido contratado para ensinar Matemática no IFPI, fora há uma semana para Picos, para alugar e arrumar um apartamento lá. Ela viera à praia de Cabo Branco só para caminhar na calçadinha e despedir-se do mar, pois iria ao encontro do marido no dia seguinte e não sabia quando voltaria a ver o mar. Paguei a conta e fomos caminhar na calçadinha.

“Eu não sei nadar. Tenho um medo enorme do mar; fujo até de banho de mar, mas como gosto de ver o mar a essa distância! A visão do mar sempre me arrebata; ele parece convidar-me ao perigo, com o qual só me permito enredar à distância.”

Era quase exatamente o meu caso, que ainda me molhava à beira-mar, onde não há como arriscar sequer um mergulho. Duas crianças medrosas, enfim.

Depois de alguns minutos já conversávamos com aquela naturalidade de quem deixou uma conversa ao meio, no dia anterior. A nossa conversa, que sempre foi fiada, não sei por que naquela noite quis pagar algum tributo à filosofia, só que, no final das contas, ficaríamos devendo muito, porque nosso conhecimento de filosofia restringia-se às idéias feitas e simplificadas que circulam em mesa de bar, sempre com fins práticos. Íamos, nos melhores momentos, até a Coleção Primeiros Passos; na maior parte da conversa, descíamos a filosofia ao rés do chão, ou à lama, como o fazem as pessoas em geral, que falam sobre tudo sem conhecer nada.

Com a nossa filosofia de algibeira, Jacques Monod foi o primeiro, é claro, a ser deturpado com seu O acaso e a necessidade. Isso rendeu um pouco, porque o nosso encontro, naquelas circunstâncias, era um evento interessante.

Depois tropeçamos em palavras escorregadias como vicissitude, inexorabilidade, daí para se Deus não existe, tudo é permitido – e Nietszche flutuou, irresponsável, entre a ousadia e a falta de ética. Sempre simplificando, mas sem sair do perigo, tergiversamos sobre apolíneo ou dionisíaco.

Como a filosofia já não era filosofia, pulamos para o “Eu sou eu e minha circunstância”, que os escusos fins pragmáticos sempre interpretam de forma linear.

Maquiavel entrou na história, e como a queda era uma possibilidade, ainda respingou para Camus, mas a caminhada terminava com o senso moral de Kant, apontando uma proposta para o processo civilizatório.

Depois de uma chuva breve e fina, estávamos de volta à barraca, e o céu voltava a ficar limpo. As ondas não estavam em tempo de Capitu e o mar repetia o seu incansável gesto de expansão e recolha, avançando com pequeno ímpeto, para desfazer-se espraiado em espumas de nada. Com um vago olhar, não sei se de alguma saudade ou de despedida, ela repetiu que estava ali para despedir-se do mar.
De um carro, vinha “Manhã de carnaval”, na voz expressiva de Sinatra, na versão de Carl Sigman, que, para a minha sensibilidade, é bem mais adequada à melodia de Luiz Bonfá do que a letra de Antônio Maria. Virei-me para o carro e me emocionei pela milésima vez ao ouvir:


“I stop just across from your door / But you’re never home anymore / So back to my room / And there in the gloom / I cry tears of goodbye.”

Quando me voltei para Elaine, ela já havia se afastado sem nenhum “goodbye”. Já estava a uma certa distância e não se voltou uma vez sequer para um simples aceno. Foi diminuindo ao longe até desaparecer como se nunca tivesse estado ali.

Antonio Morais Carvalho é professor e poeta
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  1. Parabéns, Antônio, muito bom o texto. Intrigante, ao mesmo tempo, leve e inspirador de continuidades, a exemplo das caminhadas...

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  2. Obrigado, Regina, pela leitura e apreciação.

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