São conhecidos os fortes laços que unem Gilberto Freyre à Paraíba. Não vou, portanto, trazer novidade para o leitor. Mas isso não deve ...

Gilberto Freyre e a Paraíba

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São conhecidos os fortes laços que unem Gilberto Freyre à Paraíba. Não vou, portanto, trazer novidade para o leitor. Mas isso não deve ser impedimento para revisitarmos o tema, nem que seja para, neste particular, exercitarmos um justificado orgulho de uma paraibanidade que, em outros aspectos mais recentes, tem deixado a desejar.
Creio ser justo afirmar que, de todos os estados nordestinos, a Paraíba foi o mais próximo do grande pernambucano. É possível que a proximidade geográfica tenha facilitado essa aproximação, mas lembremos, por exemplo, que Freyre não se ligou tanto aos seus vizinhos ao sul, os alagoanos, igualmente próximos do ponto de vista físico. Mas vamos aos fatos.

O episódio nº 14 da Pauta Cultural entra no ar na ALCR TV com atualidades do mundo cultural participação dos autores leitores e telespect...

Pauta Cultural (Ep. 14)

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O episódio nº 14 da Pauta Cultural entra no ar na ALCR TV com atualidades do mundo cultural participação dos autores leitores e telespectadores do Ambiente de Leitura Carlos Romero.

A violência à mulher é, sem qualquer dúvida, consequência do machismo que ainda perdura na nossa sociedade. Continua na cabeça de muitos ...

Ainda somos uma sociedade machista

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A violência à mulher é, sem qualquer dúvida, consequência do machismo que ainda perdura na nossa sociedade. Continua na cabeça de muitos homens a ideia de que a mulher é sexo frágil e que podem fazer dela sua propriedade. Consideram-se em nível de superioridade e não aceitam facilmente a independência que elas vêm conquistando ao longo do tempo. As marcas do ciúme e do preconceito são promotoras dos atos de violência, sejam verbais, ou físicas, praticados contra elas.

Os frutos sedosos vinham carregados na cesta de vime. O portão de nossa casa rangia. Ela vencia cada degrau com sacrifício: os joanetes...

Os abacates de Ernestina

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Os frutos sedosos vinham carregados na cesta de vime. O portão de nossa casa rangia. Ela vencia cada degrau com sacrifício: os joanetes a forçá-la em cuidados, as pernas trôpegas. Mamãe acolhia a vizinha da frente, a do bangalô elegante. O sorriso sonoro de d. Ernestina, a alegria em presentear-nos com os abacates cultivados no quintal de sua moradia.

Casada com seu Carlos, trabalhava ela nos “Correios e Telégrafos”, quando estes demoravam instalados no lindo prédio da praça Pedro Américo.
Uma mulher simples, cativante, liberta. Sentada no terraço, o rádio de pilha sobre o avental, escutando o rádio transistor. Nunca tivera filhos. O marido já aposentado, vestindo um paletó invariável, fechado, caladão, somente de cumprimentos rápidos. E protegendo a careca com um ramenzoni bem cuidado que o portador não deixava quieto, sempre se descobrindo e cobrindo a cabeça. Um tique que se lhe incluía na personalidade enigmática.

Mas, voltemos aos abacates: amassados e peneirados eram a delícia do pós-almoço. As crianças apostávamos: aquele que terminasse de consumir por último a pasta verde depositada num prato de ágata seria o vencedor. Cada qual que se contivesse, porque o paladar exigia fortemente. Era um divertimento. As tias reclamavam de nossas brincadeiras ingênuas. E nós medindo cada colherada. Muitas vezes, eu não tinha paciência e raspava o prato, mesmo que fosse alvo de chacota.

D. Ernestina simbolizava a amiga sem subterfúgios, sincera, pronta e solidária. Foi madrinha de crisma de uma prima minha, Vitória, já falecida, o que confirmou o entrelaçamento afetivo entre nós. Contava histórias interessantes, abria sua vida privada, em desabafos de confiança. Nem uma rusga, nem um sinal de desavença houve entre nós. No dia em que anunciou sua saída da rua, por motivos particulares, ficamos transtornados, querendo retê-la e quase sem acreditarmos.

Lamentei a mudança de d. Ernestina. Pensei nos abacates sedosos que ela nos trazia com tanta satisfação.

Thomas Edison não era considerado um cientista. Na Matemática, o engenhoso inventor norte-americano somente dominava as quatro operações d...

A primeira voz gravada no Brasil

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Thomas Edison não era considerado um cientista. Na Matemática, o engenhoso inventor norte-americano somente dominava as quatro operações da aritmética. Também não tinha proficiência nos fundamentos da Física. Apesar dessas aparentes deficiências, Edison possuía uma extraordinária capacidade de observação que lhe permitia aperfeiçoar ideias, suas e dos outros, dando-lhes aplicação prática. Em seu laboratório de Melon Park, em Nova Jersey, ele comandava um grupo de habilidosos técnicos em vários ofícios. De lá saíram mais de duas mil patentes de engenhocas diversas, muitas delas incorporadas, até hoje, ao nosso cotidiano.

ADEUS ADEUS Lá vem o trem, De longe vem apitando, Vem avisando gemendo, Adeus, adeus! E a estação vai deixando.

Por onde caminha o meu olhar?

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ADEUS ADEUS
Lá vem o trem, De longe vem apitando, Vem avisando gemendo, Adeus, adeus! E a estação vai deixando.

Deu em A União, em reportagem de Francisco José, ter desabado parte da cobertura do mercado público de Campina Grande, agravando os probl...

A feira de todos os tempos

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Deu em A União, em reportagem de Francisco José, ter desabado parte da cobertura do mercado público de Campina Grande, agravando os problemas de acessibilidade, segurança e infraestrutura. No dia seguinte, no mesmo jornal, Laura Luna vem com a mudança do Ponto de Cem Réis em feira de frutas, verduras, eletrônicos, panos de prato, açaí, brinquedos e o mais que coube.

João Guimarães Rosa, para além de grande obra que produziu, soube como ninguém criar ditos, alguns tornados aforismos, dignos de serem rep...

A vida, sem desnorteios

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João Guimarães Rosa, para além de grande obra que produziu, soube como ninguém criar ditos, alguns tornados aforismos, dignos de serem reproduzidos em qualquer roda erudita, sem perder, contudo, o sabor popular de um saber que atinge as pessoas na medula, não importando a classe social ou o grau de escolaridade. Um deles, de que mais gosto, encontra-se em "O burrinho pedrês", de "Sagarana": "quem é visto é lembrado" —, aprecio sempre dizer na negativa:

Um catador de papel era um assíduo transeunte de minha rua. Além do seu esforçado mourejar diário, conduzia o hobby de caminhar cantando e...

Catando e cantando

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Um catador de papel era um assíduo transeunte de minha rua. Além do seu esforçado mourejar diário, conduzia o hobby de caminhar cantando e cantar caminhando. Esgrimindo, fazia vibrar o som da voz que entoava as mais variadas melodias do cancioneiro popular.

Com a sua carroça tecia o seu itinerário seguindo e apanhando pedaços de sua remuneração encontrados no meio do caminho. Nada muito estranho. No entanto, foi olhando para aquele trabalhador de rua - de sol a pino e mesmo assim cantando - que reli um certo capítulo da história, aquele que um dia me deu lições sobre a aurora. Logo recapitulei: viver amanhecendo é amanhecer vivendo.

Protestos em favor das massas, contra a histórica exploração do povo pelo poder absoluto, mantenedor de gritantes desigualdades em regimes...

Música a serviço da justiça social

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Protestos em favor das massas, contra a histórica exploração do povo pelo poder absoluto, mantenedor de gritantes desigualdades em regimes políticos ditatoriais, também estiveram presentes na música erudita. Na popular atingiu de forma mais abrangente as classes sociais, sobretudo em eras com mais liberdade. No Brasil, Chico Buarque e Geraldo Vandré talvez representem as icônicas bandeiras que tremularam por justiça, principalmente no período de repressão dos anos 60.

A história de mártires emblemáticos que lutaram em defesa dos oprimidos inspirou compositores clássicos em extraordinárias produções, como a trajetória do cossaco que liderou uma rebelião contra a nobreza aristocrática e os tsares do sul da Rússia. De origem camponesa, o ruteno Stenka Razin empreendeu, no século 17, longo trajeto pelas margens do Volga, influenciando o povo das estepes a se unir contra a tirania, expulsando cobradores de impostos, atacando a aristocracia, dominando cidades e destronando líderes do império tsarista.

O movimento empunhado por Razin eclodiu e transcendeu a diferenças inimagináveis a ponto de lograr convergência ideológica tanto de muçulmanos como de cristãos ortodoxos, cossacos e eslavos, inclusive de Moscou.

O poder imperial, no entanto, sufocou o plano de ação, que não chegou a 4 anos, e Stenka Razin terminou esquartejado em praça pública. O líder passou a ter sua saga inserida na lírica de respeitáveis poetas, músicos clássicos, no cancioneiro popular e transformou-se em símbolo da resistência contra a tirania do império durante séculos. Entre outras homenagens, após 238 anos de sua morte, uma estátua sua foi erguida a mando de Lênin, no dia do trabalhador, na cidade de Rostov-on-Don, sul da Rússia, próximo de onde nasceu.

Um dos maiores músicos do século XX, Dmitri Shostakovich, nascido em São Petersburgo, 1906, compôs uma sinfonia suntuosa inteiramente dedicada à memória de Stenka Razin. Ilustrada com poemas do notável poeta siberiano revolucionário,
Yevgeny Yevtushenko, a obra-prima também ficou conhecida como “Babi Yar” (um dos poemas), que se refere à área ucraniana, um vale imenso, onde foram executados milhares de judeus, na segunda grande guerra, em 1941.

Yevtushenko ganhou notabilidade por pautar sua criação poética na denúncia explícita contra o anti-semitismo, à qual Shostakovich, que serviu ao Soviete Supremo, moldou sua 13ª sinfonia. Concebida em caráter recitativo, é tida como grande cantata para orquestra, voz (baixo) e coral masculino, mas bem que poderia ser encenada como uma magnífica ópera. O resultado foi estupendo. São cinco movimentos que duram uma hora de pura simbiose artística entre história, arte, drama, música e literatura.

O perfil declamativo marca toda a obra. As narrativas letradas (coro e solista) são melodramáticas e dialogam constante e intrinsecamente com a orquestra, o que faz a eloquência romântica preponderar. O incisivo caráter de protesto, às vezes marcial, emerge pontualmente com o texto envolvido pela majestade sinfônica, entrelaçados com a música sob total integridade harmônica. Contém passagens e cenários que vão do jocoso ao trágico, durante os quais toques de sino estão sempre a lembrar o ambiente inquisitório em que se desenvolve a brava sagacidade de Stenka Razin.


No primeiro movimento, “Babi Yar”, Shostakovich manifesta-se em tom de hino contra o massacre na região próxima a Kiev, em 1941. O contorno teatral sugere episódios dramáticos da vida de Razin, com alusões à hipocrisia dos poderosos que se dizem “protetores do povo”. É uma ampla denúncia oral-musical contra a repressão, contra o destino do personagem principal, em estrutura operística, interlúdios, com referências a obras como o “Caso Dreyfus”, o “pogrom de Białystok“ e a história de Anne Frank. Mas a trajetória do protagonista, que concedeu o nome mais importante à sinfonia – “A execução de Stenka Razin” – é o cerne temático desenhado com todo o suspense e emoção que o heroismo descrito requer, como mostra o trecho a seguir (em tradução informal):


“Em Moscou, capital de paredes brancas, um ladrão desce rua abaixo com um pão de semente de papoula. Ele não teme ser linchado. Não há tempo para pães Estão trazendo Stenka Razin! O czar abre um vinho de Malvasia, Diante do espelho sueco, espreme uma espinha, experimenta um anel de esmeralda e olha para a praça … Estão trazendo Stenka Razin!”

Na segunda parte, chamada “Humor”, predominam o clima burlesco, o deboche e a sátira popular, virtudes das massas que os tiranos frequentemente tentaram sufocar. Com intenção de zombaria, o autor cita um poema escrito pelo escocês Robert Burns,
da época de Razin, sobre um fora-da-lei que na véspera de ser executado escreve um bem-humorado lamento.

O terceiro movimento é um adagio rito-litúrgico que ressalta a carestia sofrida pelo operariado, com limitação de acesso a bens materiais. Basicamente composto de bonitas e lamentosas canções, bem ritmadas, acompanhadas por cordas graves e trompas, entoadas em alternância entre o coro e o baixo. que caminham para o auge da dramaticidade, com a orquestra se sobrepondo a tudo num explosivo crescente, reforçado pelo grande coro, no ápice em forma de desabafo.

Profundamente sombrio e misterioso inicia-se o 4º movimento, um Largo nomeado como “Medo”, todo cantado com o texto de Yevtushenko, que a crítica costuma citar como um das mais ousadas orquestrações de Shostakovich. Há nele maior veemência no clamor contra a repressão soviética, enfatizada por furiosos arroubos que se alternam com suavidade musical, sempre em tom de suspense. Algumas dissonâncias propositais anunciam a coragem dos que marcham pela revolta, quando é declamado o excitante trecho (em tradução informal):


"Os medos estão morrendo na Rússia. Não temos medo de obras em nevascas Ou de entrar em uma batalha Sob o fogo de granadas. Corajosamente, camaradas, marquemos nosso passo”

Sucede-se a tensão rumo à apoteose sinfônica estonteante a prenunciar o desfecho com os derradeiros lamentos do cantor.

A última parte inicia-se suavizada pela melodia delicadamente emoldurada por sopros, sugerindo cores de esperança em ritmos saltitantes que se mesclam à festiva conversa entre o cantor e o coral. É um doce final, mais lírico, mais romântico, embora a sátira se faça pontualmente presente, como o compositor ousou surpreender na finalização inusitada de outras sinfonias. Conclui-se que haja neste último movimento um sentimento reconfortado de missão cumprida. Tanto de Stenka Razin, o herói, como do autor, igualmente laureado pela concepção de tão magnânimo trabalho.

A beleza criativa desta sinfonia, que reúne poesia, realidade e música grandiosamente lapidada pelas posições políticas e dons artísticos de Shostakovich, até hoje encoraja ativistas e idealistas que se empenham por um mundo melhor. O que nos faz desejar que a Arte continue a refletir os anseios de justiça e liberdade, em todas as formas de expressão, seja clássica ou popular.

Parti cedinho, saindo do deserto do Atacama, no norte do Chile em direção ao sudoeste da Bolívia, em comboio, junto com outros turistas dis...

Espelhos do infinito

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Parti cedinho, saindo do deserto do Atacama, no norte do Chile em direção ao sudoeste da Bolívia, em comboio, junto com outros turistas dispostos e curiosos.

A primeira parada em minha rota rumo ao Salar de Uyuni foi na Laguna Blanca, já nos Andes bolivianos. Em suas margens há um solo rochoso com pequenas poças de água que dividem o panorama com o capim amarelo característico de lá.

* (os derradeiros momentos de Augusto dos Anjos) A febre não passava. Vinha com calafrios, tosse, dores nas costas. Bem que não deveria ...

Última revelação

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* (os derradeiros momentos de Augusto dos Anjos)

A febre não passava. Vinha com calafrios, tosse, dores nas costas. Bem que não deveria ter comparecido ao enterro de João Lourenço Ferreira de Lacerda. Chovia muito, e ele já estava gripado. Ester o prevenira de que poderia contrair pneumonia ou coisa pior. Ele tinha consciência de que se arriscava, mas não poderia deixar de prestigiar a memória de um patriarca de Leopoldina, cidade que o havia recebido como a um filho. Se não fosse, sentiria remorsos (a velha culpa o espreitava a propósito de tudo!). Soaria como ingratidão, que sempre lhe pareceu o pior dos sentimentos humanos. Fora ao enterro e voltara febril. Nesse estado, também contra os conselhos da mulher, deu aulas à tarde e à noite. Não poderia faltar, pois sempre teve em alta conta o cumprimento do dever. O resultado fora mesmo uma pneumonia, conforme diagnosticou o Dr. Custódio Junqueira, que cuidava dele em companhia de três colegas e do farmacêutico João de Moura.

Se você escolheu representar um povo deve SABER QUE: 1... um passo errado pode prejudicar, de forma definitiva, a vida de todos que con...

Pessoa pública

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Se você escolheu representar um povo deve SABER QUE:

1... um passo errado pode prejudicar, de forma definitiva, a vida de todos que confiarem em sua honradez.

2... precisa ser humilde, usar a comunicação como poder e não o contrário.

Quando entregamos os livros para crianças daquela comunidade rural e vendo a menina sentada à mesa, folheando a obra de Monteiro Lobato, d...

A menina dos livros

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Quando entregamos os livros para crianças daquela comunidade rural e vendo a menina sentada à mesa, folheando a obra de Monteiro Lobato, descobrindo o invisível das palavras, foi um momento de emoção e de agradecimento para nós.

Meu avô se chamava Samuel Furtado e morava numa casa simples, ladeada com a nossa, na praça Barão do Rio Branco, que virou Cláudio Furtado...

Esperanças e incertezas

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Meu avô se chamava Samuel Furtado e morava numa casa simples, ladeada com a nossa, na praça Barão do Rio Branco, que virou Cláudio Furtado. Era alto, forte, alvo e tinha a cabeça branca.

Quantos problemas tem a cidade que o eleitor desse domingo vai confiar aos dois finalistas da corrida eleitoral? Quantos irão somar o maio...

Eleições 2020: Qual o problema?

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Quantos problemas tem a cidade que o eleitor desse domingo vai confiar aos dois finalistas da corrida eleitoral? Quantos irão somar o maior número com o mesmo problema? Melhor ainda: quantos, independente de seu problema ou de sua simpatia, vão aplicar o recurso do voto no problema do maior número?

Silvino é uma grande figura. Sempre teve personalidade forte. Embora seja o quinto filho de uma prole de oito de Francisco e Nair, destaca...

O colecionador de celebridades

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Silvino é uma grande figura. Sempre teve personalidade forte. Embora seja o quinto filho de uma prole de oito de Francisco e Nair, destacava-se na família porque sempre soube o que queria. Dotado de espírito de liderança, fez amigos sinceros, os quais conserva até hoje, ao longo dessas tantas décadas de vida.

Conheço José Bezerra Filho desde os tempos imemoriais da hoje extinta Fundação Cultural do Estado da Paraíba (FUNCEP), quando esse órgão ...

Uma personalidade singular e plural

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Conheço José Bezerra Filho desde os tempos imemoriais da hoje extinta Fundação Cultural do Estado da Paraíba (FUNCEP), quando esse órgão do governo do estado instituiu o Concurso de Contos Geraldo Carvalho, numa justa homenagem ao ficcionista de “A Cravina Asfaltada”, que, apesar de recolhido a uma cadeira de rodas, exercia uma efetiva liderança junto aos poetas, artistas plásticos, dramaturgos, romancistas, contistas, enfim, junto a todos quantos respondiam pelas atividades artísticas da provinciana João Pessoa dos anos 1960 e 1970.

Houve um tempo em que a impaciência era atribuída aos jovens. Em função da idade, os jovens eram ansiosos naturalmente, achando que o mun...

O pecado da impaciência

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Houve um tempo em que a impaciência era atribuída aos jovens. Em função da idade, os jovens eram ansiosos naturalmente, achando que o mundo acaba hoje e tem que fazer tudo de uma vez.

Em meados da década de 1940, o bolero, principalmente de origem mexicana, invadiu o mercado de música brasileiro . Para o pesquisador Jair...

A saga do baião que ganhou o mundo

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Em meados da década de 1940, o bolero, principalmente de origem mexicana, invadiu o mercado de música brasileiro. Para o pesquisador Jairo Severiano, “como nosso gênero musical mais próximo do bolero era o samba-canção, este tipo de música cresceu extraordinariamente [...] a força do bolero, digamos, potencializou o samba-canção”. Esta situação levou a uma mistura tão grande entre os dois gêneros

Permitam-me aventurar no mundo literário e escrever uma crônica dedicada ao meu amigo, confrade, professor e cronista Carlos Romero. Ele...

As viagens espíritas de Carlos Romero

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Permitam-me aventurar no mundo literário e escrever uma crônica dedicada ao meu amigo, confrade, professor e cronista Carlos Romero. Ele foi um homem de múltiplas viagens, creio que conheceu os cinco continentes do planeta, em companhia da sua amada família. Utilizei-me desse hobby preferido, para relacioná-lo com as minha reflexões. Assim como numa viagem, podemos escolher as rotas pelas quais percorreremos para o deslocamento, decidi pela rota das lembranças de uma convivência pessoal de mais de 30 anos, pequenos recortes fragmentados de histórias e metáforas, risos e espiritualidade.

Dizem que o tempo passa rápido – e passa mesmo. Principalmente nos dias atuais, de vida corrida, quase frenética. Apenas os muito jovens t...

Professor Jackson faz 80 anos

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Dizem que o tempo passa rápido – e passa mesmo. Principalmente nos dias atuais, de vida corrida, quase frenética. Apenas os muito jovens talvez não sintam essa rapidez do tempo, tão cheios de futuro estão os que ainda não sentiram o peso da existência. E é bom que seja assim. Pois seria triste uma juventude sem ilusões. Mas o fato é que o tempo passa mesmo ligeiro. Até para os moços.

O episódio nº 13 da Pauta Cultural entra no ar na ALCR TV com atualidades do mundo cultural participação dos autores leitores e telespe...

Pauta Cultural (Ep. 13)

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O episódio nº 13 da Pauta Cultural entra no ar na ALCR TV com atualidades do mundo cultural participação dos autores leitores e telespectadores do Ambiente de Leitura Carlos Romero.

Matam vidas, mas não assassinam a História. São João e Silvas brasileiros, filhos de pais e mães que dão o suor e o sangue do pão nosso de...

Luto no luto

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Matam vidas, mas não assassinam a História. São João e Silvas brasileiros, filhos de pais e mães que dão o suor e o sangue do pão nosso de cada dia para lubrificar como óleo e garantir as engrenagens sempre funcionando. São milhões de anônimos, mundo afora. E negam tais mortes, numa pseudo sociedade autodeclarada tolerante, multicultural, que, contudo, distribui convites contados para a repartição da ceia no banquete do lucro. E o critério é a cor, o sexo, o credo, num ritual de exclusão auto-alimentado.

Para a geração de escritores e artistas estrangeiros, nos anos inicias do século XX, em doce exílio intelectual, Paris era uma festa, so...

Paris por um flâneur

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Para a geração de escritores e artistas estrangeiros, nos anos inicias do século XX, em doce exílio intelectual, Paris era uma festa, sobretudo para os que frequentavam o chique restaurante Closerie des Lilas, no Boulevard Montparnasse, ao lado da Gare de Luxembourg. Já Victor Hugo, em Os Miseráveis, diz que Paris sempre mostra os dentes, seja para sorrir, seja para rosnar. É bem verdade também. Para quem vai a Paris se submeter a trabalho e enfrentar a burocracia francesa, Paris sempre rosna; mas se vai, para desfrutar de sua beleza, em férias, como turista, desobrigado de horários, Paris sorri.

Enquanto olhávamos pela janela o interior do pequeno chalé à beira do fiorde, em Bergen (Noruega), e o cenário que de lá se avista, a músi...

Mitologia finlandesa na música de Sibelius

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Enquanto olhávamos pela janela o interior do pequeno chalé à beira do fiorde, em Bergen (Noruega), e o cenário que de lá se avista, a música de Edvard Grieg de pronto ecoou na paisagem.

Compositores, poetas, artistas plásticos, escritores que engrandecem a História inspiraram-se nos traços de sua terra, de seu povo, mitos, lendas, literatura, virtudes, nacionalismo, rendendo-lhes homenagens transpostas magistralmente do real ou imaginário para a linguagem em que se expressaram.

Um pouco afastado do gracioso sobrado onde viveu, ainda existe o pequeno chalé que Grieg usava para escrever música. Um piano de parede, um sofá e uma estante com livros compõem a modesta e aconchegante decoração. Nada mais seria preciso ao enlevo criador, pois a visão que dali se descortina é estonteante. As noites de lua que cintilaram naquelas águas estão nitidamente refletidas no adagio de seu único concerto para piano e orquestra.

Poemas, sinfônicos ou literários, sinfonias, aberturas, óperas, balés, pinturas, epopéias, tragédias, dramas, comédias e tantas outras formas de arte foram admiráveis em narrar, homenagear, glorificar e retratar o assunto com magnífica amplitude e fidelidade. Romances, biografias, cenários paradisíacos, épicos ou dramáticos, sagas, lendas, sátiras, tudo deu origem a bem lapidada criatividade.

“Love in Bath”, de Haendel, “O ouro do Reno”, de Wagner, a “Sinfonia Alpina,” de Richard Strauss, “Prometheu”, de Scriabin, “A Pastoral”, de Beethoven, “As metamorfoses de Ovídio”, de Dittersdorf, a Sinfonia Fantástica de Berlioz, “Peer Gynt”, de Grieg, são exemplos de música incidental, descritiva ou programática, que desenham com excepcional nitidez os sentimentos que as produziram.

A “Sinfonia Kullervo”, de Sibelius, é um conjunto de 5 poemas sinfônicos que faz jus à forma e descreve com autenticidade impressionante a história trágica de um personagem da mitologia finlandesa que inspirou o médico e linguista Elias Lönnrot a compilar o épico poema “Katevala”, em 1835, a partir de canções fínicas antigas – “rúnicas” – impregnadas de feitiço e magia.


Para certos historiadores, a obra reflete o imaginário nacional do país nórdico. São 50 “cantos” com narrações que abrangem a criação do mundo, guerras, tragédia, paixões e heróis com poderes mágicos, até o prenúncio da chegada de um novo deus, supostamente o Cristo.

Nesta obra, Sibelius constrói a trajetória do desafortunado personagem que descobre que a família foi assassinada pela tribo que o acolheu após massacrar seu clã. Ainda criança, ele é vendido como escravo, sofre muito e consegue fugir ao ficar sabendo de que há familiares sobreviventes. Acaba por seduzir uma garota sem saber que é a própria irmã, julgada morta. Quando ela descobre, horroriza-se e comete suicídio afogando-se no rio.
Kullervo enlouquece e a vingança ganha força capaz de fazê-lo voltar à tribo que o criou para, com seus poderes, exterminá-la. Sendo a desforra o propósito que o cegou, após satisfazê-lo, morre lançando-se sobre a própria espada.

Os cinco movimentos desta sinfonia relatam fielmente a parte do poema épico “Kalevala”, que se refere particularmente à saga do herói nativo, personagem marcado por vingança e sarcasmo que impressionaram Sibelius. Uma história que, 124 anos depois, inspiraria o escritor britânico J.R.R. Tolkien a criar, segundo os críticos, “o mais sombrio e trágico de todos os seus personagens” (A História de Kullervo, 2016).

Na introdução, delineia-se o caráter da inevitável fatalidade, poder e bravura presentes no drama a ser narrado. O talento de Sibelius para a sinfonia romântica logo se evidencia na tessitura grandiosa e eclética capaz de mesclar orquestração brilhante e filigranas que remontam às canções rúnicas finlandesas.

O segundo movimento refere-se à juventude de Kullervo, vigoroso, livre da infância escravizada, esboçada no sombrio sentimento inicial. A seguir, a sensação de liberdade e novas descobertas se desenvolvem com grande entusiasmo. As marcas do destino, contudo, são inevitáveis, e eclodem veementes na parte central. O destemido espírito das tribos também é caracterizado em ritmos contagiantes.

O terceiro andamento, tido como a espinha dorsal da sinfonia, é dedicado a Kullervo e sua irmã. Começa de forma lírica, com alegria e plenitude pela nova fase da vida dele, coroada pela primeira aparição do vibrante coral masculino – uma ode ao novo espírito livre e vigoroso do escravo liberto. Tudo gira em torno do fatídico romance com a variedade que a narrativa requer: as aventuras amorosas precedentes, o reencontro, o anonimato inocente, em aparições diversificadas e ecléticas. Duetos do casal, entremeados de coral, rompantes orquestrais, esfuziantes temas e alegorias compõem o mais extenso movimento, em que abundam textos do Kalevala.

O fervor dramático explode várias vezes, descrevendo a gravidade dos acontecimentos e do ambiente tribalístico. A consagração do amor pela irmã, os colóquios ardentes, a decepcionada supresa ao tomar conhecimento do inglório parentesco, a desgraça de ambos, o suspense que antecede o suicídio dela jogando-se no rio, o grito de tristeza dele, a revolta, a supremacia do desejo de vingança são temas que emergem nos ápices sinfônicos apaixonados e na delicadeza de canções doídas que precedem a tragédia. Sozinha na floresta, consternada, prestes a se despedir da vida, ouvindo os pássaros, ela faz ecoar o seu lamento.

Um instante de profusa dramaticidade descreve a sua angústia, sucedido pela revolta esbravejante do irmão diante da crueldade do destino. Mas, eis que prepondera sua índole vingativa ao se decidir por manter o plano premeditado.
Sucede-se o quarto, a batalha! Inteiramente emoldurado com o caráter bélico da obstinação ansiada pelo irado protagonista. Aqui Sibelius transcreve musicalmente a essência textual: “Partiu para a guerra, alegrando-se com a batalha”. Ostensivamente feérico, este movimento vai se encorpando lentamente em crescente premonição. Tudo se desenvolve no mesmo clima até o fim da contenda em que, com poderes sobrenaturais, Kullervo consegue exterminar toda a tribo que vitimou sua família no passado. Sua morte é descrita com a força gritante de golpes sonoros a invocar a própria destruição, e bem lembram o diálogo do coro entre ele e a espada:

— “Agradaria a esta lâmina comer carne culpada e beber sangue pecaminoso?

— “Por que não me agradaria comer carne culpada e beber sangue pecaminoso? Já que eu como a carne e bebo o sangue dos inocentes?”

E ele atira-se morrendo pela própria espada, sob os brados do coro com fúria brutal:

— “Assim foi a morte do jovem, o fim do herói, a morte do malfadado”.

O final da sinfonia é concluído com o que se pode chamar de uma apoteótica missa de réquiem, com todas as características pomposas e litúrgicas. O sentimento de consternação e desventura inicial vai crescendo paulatinamente e cede lugar aos traços de um heroísmo tão imponente que o ouvinte já não sabe se é o autor,
o herói ou a música que triunfa com tamanha grandiosidade.

A epopéia nórdica inspirou Jean Sibelius desde que a leu, ainda muito jovem, para outras peças, como as que compõem a suíte "Quatro Lendas de Kalevala" (Opus 22), em que se incluem o “Cisne de Tuonela”, “Lemminkäinen e as Ninfas da Ilha”, "Lemminkäinen em Tuonela", "O Retorno de Lemminkäinen". Além de "Tapiola" (Opus 112), seu último poema sinfônico. Para a crítica, entretanto, Kullervo é obra-prima monstruosa que extrapola todos os limites de sua época. Sua imponente brutalidade infunde medo e respeito, mas, na essência, é uma peça romântica. Para o escritor e compositor finlandês, Karl Flodin, “nunca mais Sibelius criaria algo tão descaradamente megalomaníaco”.

Apreciando esta colossal concepção para grande orquestra, coro masculino, barítono e mezzo-soprano, que resume todos os aspectos dramáticos do lendário personagem, é possível avaliar o poder inspirador para elaborar música erudita que se abraça com a fantasia, com o enredo mitológico e as raízes de um povo. Uma força que pode se originar tanto da leitura de epopeia compilada com canções bálticas, de 3 milênios de idade, como da contemplação de uma bucólica paisagem avistada da janela de um chalé no fiorde de Bergen.


Germano Romero é arquiteto e bacharel em música

Vejo um ideal de perfeição na geometria de Pitágoras que vislumbra Deus como um eterno geômetra. Na sua concepção de Harmonia das Esferas ...

A linha e a vida

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Vejo um ideal de perfeição na geometria de Pitágoras que vislumbra Deus como um eterno geômetra. Na sua concepção de Harmonia das Esferas lança os fundamentos da razão áurea. Da mesma forma, Euclides, apreendendo o pensamento de Platão, desenvolve a Geometria Esférica privilegiando a perspectiva e as seções cônicas.

Na adolescência, ouvia meu pai contar que a filha de Mário Rosas, Gerusa Rosas (mais tarde minha guru do shiatsu), havia partido de navio ...

A insustentável leveza de Praga

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Na adolescência, ouvia meu pai contar que a filha de Mário Rosas, Gerusa Rosas (mais tarde minha guru do shiatsu), havia partido de navio para a Tchecoslováquia *, em busca do Comunismo. Eram os tempos sombrios em que "comunista gostava de criancinhas". Fiquei impressionada com o sonho “estranho” daquela mulher desconhecida que, por muito tempo, povoou meu imaginário.

Anos depois, assisti ao filme "A insustentável Leveza do Ser" (1988), adaptação do romance homônimo do escritor tcheco-francês Milan Kundera e, mais uma vez, senti-me encantada pelo cenário de uma cidade de nome Praga. Pois bem, um dia chegou minha vez de visitar o local, por quatro dias. Não vivenciei a "primavera de Praga", pois a estação era outra: o verão.

Eu era ainda adolescente quando conheci Pascoal Carrilho. Passados os tempos, um dia desses, conheci a praça em sua homenagem. Andei mes...

O radiante Pascoal Carrilho

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Eu era ainda adolescente quando conheci Pascoal Carrilho. Passados os tempos, um dia desses, conheci a praça em sua homenagem. Andei meses, anos distantes, pra tomar conhecimento da existência dessa praça com o seu nome. Inesperadamente, estava eu sentado num banco da praça que o homenageava.

Pascoal Carrilho foi um homem que por aqui passou meio radiante, meio sereno, acrobático, avoante e extremamente irônico.

As crianças que vi correndo ao redor da sua praça e os pássaros que cantavam por lá desenhavam o espírito do excêntrico radialista que nunca se afastara de seu lado alegre e de seu jeito profissional de animador do mundo. Jamais desgrudava das tiradas espirituosas do apresentador de auditório da antiga PRI-4, Rádio Tabajara da Paraíba.

Era comum vê-lo dentro de um paletó branco, impecavelmente engomado, no pescoço a inafastável gravatinha de borboleta. Era um homem imprescindível às grandes reuniões solenes, fazia o seu jornal com a cobertura radiofônica, sem tirar-lhe o estigma do bom boêmio e animador, um dos mais festejados e afamados da capital paraibana.

Pascoal era cíclico: sério, sisudo, triste, risonho, um pouco de tudo. Noutras horas, era um tipo meio carrancudo, mas fidalgo quando anunciava no palco da Rádio Tabajara, por exemplo, o Trio Jaçanã, de Marlene Freire, Zé Pequeno e Walter Lins. Àquela época, ao sabor de um tempo puro e sem violação dos castos costumes, estudava-se cântico orfeônico nos colégios e havia sabatina e ditado em todas as escolas municipais e estaduais da Paraíba. Era o tempo de Dedé do Sax, fisiognomonia do Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha. Quando eu o chamava de São Pixinguinha, via nos seus olhos um dardejar feliz. O saudoso amigo Aldemir Sorrentino – que animava as tardes (quase noites) do saudoso Clube ASTREA - dava o toque contagiante da música da jovem guarda, envolvendo os corações adolescidos por um certo romantismo épico, colado ao som da voz do excelente cantor Gilson, de quem nunca mais ouvi falar.

Era tempo do Repórter Tabajara na voz roufenha e disciplinada de Eivaldo Botelho, amigo que debandou pras bandas do Rio de Janeiro, onde cumpriu a estranha promessa de nunca mais voltar para o seu rincão. Lembro-me bem, era tempo da postação irreprochável de Paulo Rosendo, o noticiarista e de Geraldo Cavalcante, o locutor esportivo impecável daquela época.

Não tive o privilégio de conhecer o José de Andrade Moura Filho, que foi amigo de Pascoal Carrilho. Todavia, já àquele tempo, quando era apenas um escriba iniciante de província, aprendendo a andar pelo mundo, recebia do mestre radialista atenções até hoje nunca esquecidas.

Algumas vezes, ele parava-me no Ponto de Cem Réis para me contar histórias hilariantes. Depois, saía gargalhando em cima do seu andar alto e baixo, sobre as pegadas dos melhores momentos de sua vida brincante.

Conta-se que um dia saiu com Bienvenido Granda, cantor mexicano de grande sucesso na época, para tomar uns aperitivos, quando aqui chegou para umas apresentações em João Pessoa. Já fazia dez dias que os dois havia saído, alhures, quando um amigo o encontrou em Campina Grande sozinho, meio desnorteado.

- Que fazes por aqui, Pascoal? - perguntou o amigo assustado com o seu estado de “desligamento”.

Pascoal o informou que estava ali com o cantor Bienvenido Granda. E o amigo que estava chegando do Rio Grande do Norte, o rebateu laconicamente afirmando:

- “Bienvenido? Bienvenido?!!! Ele estava cantando ontem em Currais Novos, Pascoal!”

Certamente, o seu estado, ainda sob os efeitos das noites das praias e Praianinhas, com o impacto da notícia, terminou caindo na realidade. Enfim, abrandou os ímpetos.

A caninha “Praianinha” tinha nele o seu melhor divulgador e publicitário. Era bem pago para isto. E onde fizesse uma cobertura radiofônica, fazia o seu comercial: “Eu bebo Praianinha, nós bebemos Praianinha. É a melhor aguardente do Brasil.”

Um dia, ao repetir o mesmo refrão desse slogan, um espectador jovem que estava na plateia do auditório da antiga Rádio Tabajara, gritou:

“Já estás bêbado a essa hora, né Pascoal?”

Ele não hesitou! Não levava desaforo para casa e não contou conversa. Com o dedo em riste, respondeu à afronta que havia recebido do moço da plateia, na presença da namorada:

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- “Eu bebo Praianinha, a mãe daquele rapazinho ali também bebe Praianinha! É a melhor aguardente do Brasil!”

No enterro do médico Dr. Napoleão Laureano, Pascoal Carrilho fazia a cobertura daquela solenidade fúnebre. Era um momento de muita comoção e respeito. Falando baixinho, ele dizia, com o microfone quase encostando na boca:

“Aguardente Praianinha, a melhor aguardente do Brasil.”

Num súbito escorregão, caiu em pé dentro do túmulo, onde seria sepultado o insigne médico, famoso oncologista paraibano. Lentamente, encostou o microfone na boca e disse quase sussurrando:

“PRI-4, Rádio Tabajara, transmitindo diretamente de dentro do túmulo do Dr. Napoleão Laureano!”

Continuei pensando sentado na praça Pascoal Carrilho e entendi que o tempo e a suas ambiguidades, não conseguem sepultar as histórias curiosas que tanto nos fizeram rir ou chorar!


Saulo Mendonça é escritor, poeta e haikaista

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'O mundo em uma frase'

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Esse é o título do livro em que James Geary, editor na Europa da revista Time, faz um abrangente estudo sobre os aforismos. Ele mostra a evolução desse gênero desde o tempo em que era praticado por sábios e profetas até os dias de hoje.

PESSOAS LIVROS O Mundo é uma grande biblioteca, E Deus é um mágico escritor, Que cria livros de páginas em branco, Que ...

Ele tinha o sorriso no rosto

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PESSOAS LIVROS
O Mundo é uma grande biblioteca, E Deus é um mágico escritor, Que cria livros de páginas em branco, Que vão sendo escritas com a tinta do amor. Pessoas são livros, Que escrevem a sua própria história, Há pessoas romances, Há pessoas tragédias, Há pessoas mistério, Há as que são comédia. Há livros de tanta riqueza, Que são enciclopédias, De saber e heroísmo. Há outros que são tão pobres, Que parecem estar em branco, Pois o tempo todo são apagados, Pela borracha do egoísmo. Há livros de belas histórias, Que admiramos sua glória E buscamos copiar, Outros são histórias feias, Tristes e mal escritas, Cheias de pobreza e desdita, Que quase ninguém quer ler, E ficam num canto da estante, Tentando se esconder. Mas Deus é escritor bondoso E ama os livros tristonhos, Vez em quando os reencapa, E lhes dá páginas novas, Que podem ser escritas, Com tintas mais belas e brilhantes, Em letras de amor triunfante, Modificando-lhes a história. Eu sou também um livro De capa simples, modesta, Escrevo-me a cada dia, Com sonhos e fantasias, Gosto de falar de amor, A dor aparece um tantinho, Mas vou com muito carinho, Fazendo da vida uma festa, Que escrevo com alegria, Pois minha maior ventura, É ser livro de poesia. FLUIR
Fluir... Deixar fluir, Deixar a vida prosseguir. Ninguém pode conter O oceano entre as mãos. Entreguemo-nos à vida, Pelos caminhos do coração. Para que negar o amor? Para que negar a dor? Ninguém consegue Esconder-se de si mesmo Somente caminhará em círculo Simplesmente caminhará A esmo. Deixemos então fluir, Seja a dor, Seja o amor, Caminhemos até o fim da estrada, Cantemos todos os poemas, Choremos todas as lágrimas. Porque viver é entregar-se, Viver é mergulhar, No infinito mar de sentimentos, De sonhos, de esperanças. Viver é deixar fluir. Negar-se é ser covarde, ´ É ver a vida passar pela janela, Convidando-nos à felicidade E a ela voltarmos às costas, Preferindo olhar o vazio A extasiar-se com o brilho Da mais bela estrela. ESTRELA CADENTE
Passaste ontem pela minha janela, Como imenso foco de luz, Clareando a noite escura. Pomo de ouro que o céu cruzou, Tanta beleza e energia, Que o amor em mim despertou. E da forma que viestes, A tudo ofuscando, E embelezando o firmamento, Sumiste. Assim, sem aviso, sem que eu esperasse, Deixando-me a alma em tormento. Eras tu, apenas uma estrela cadente, Que se inflama no céu e depois somes, E na tua própria beleza e energia Te consomes. E eu, menestrel desavisado, Fiquei a olhar para o céu, Ofuscado. Acreditando que havias levado, Todas as outras estrelas, Na tua passagem instantânea. E dei de entristecer, Sentindo-me roubado, Pois o que pode fazer um menestrel, Sem a Lua e as estrelas, Para à noite ele cantar? Porém, (agora sorrio a dizer) Tudo foi apenas, Questão de ofuscamento, Pois lá em cima, no céu, No mais alto firmamento, Ainda estavam minhas estrelas. Estava também a Lua, Ora redonda, ora fininha, Sorrindo da minha bobagem, Das lágrimas de criancinha, Que um dia derramei, Por uma estrela cadente. SUAVE
para Carlos Romero Era uma criatura suave De olhos e palavras mansas. Tinha no rosto o sorriso E na alma a alegria de viver.

Até onde pode ir a ruindade humana? ... Há vezes que estranhamos sobremaneira a indiferença, a incompetência moral e a covardia enquanto c...

Música é a resposta

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Até onde pode ir a ruindade humana? ... Há vezes que estranhamos sobremaneira a indiferença, a incompetência moral e a covardia enquanto conduta corriqueira nas relações, as mais diversas, e nos incomodamos. Mas, será que esse incômodo é suficiente para nos enxergar e criticarmo-nos até que mudanças sinceras e honestas ocorram dentro em nós? ... Será que nossas lotadas agendas, nosso sempre frenético corre-corre — mesmo em tempos pandêmicos, concedidos pela Natureza, ainda assim, não aproveitamos o tempo sabático para nos agarrar a essa lição... — para algum lugar que não sabemos qual, vale mesmo o preço de não praticarmos a verdadeira empatia? ...

Sobre os poemas de “A Chave selvagem do sonho” (Editora Tribuna, João Pessoa, 2020), de Anna Apolinário, faço minhas as palavras do poeta ...

Trouxeste a chave?

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Sobre os poemas de “A Chave selvagem do sonho” (Editora Tribuna, João Pessoa, 2020), de Anna Apolinário, faço minhas as palavras do poeta e ensaísta Walmir Ayala a respeito de uma poeta brasileira: “Embriagada pela palavra, mas jubilosa em sua embriaguez”.

Esta aconteceu aqui mesmo em João Pessoa. No dia da votação para prefeito e vereador me dirigi à escola estadual na qual estão situadas...

Borboletas em Manaíra

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Esta aconteceu aqui mesmo em João Pessoa.

No dia da votação para prefeito e vereador me dirigi à escola estadual na qual estão situadas a minha zona e seção eleitorais. Há muito não moro mais no bairro de Manaíra, mas preservei o local de votação como uma deferência aos tempos de adolescência e juventude, passados lá.

Não mais vi o vendedor de castanhas. Ele pontificava na calçada de um banco do centro, ao sol, muitas vezes, ou amparado numa generosa som...

Vendedor de castanhas

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Não mais vi o vendedor de castanhas. Ele pontificava na calçada de um banco do centro, ao sol, muitas vezes, ou amparado numa generosa sombra de carro estacionado. Homem simples, puxava conversa sobre políticos, inflação, enfim, temas tratados em circunlóquios pelos especialistas globais ou não. Em seu palavreado nada atrelado a esquemas tecnocratas, ignorava gráficos onde descem e sobem marcações.

Eu era rapazote quando vi falar nisso pela primeira vez. A roda formara-se na calçada de seu Antônio Leal da Fonseca, na hora do pão-cer...

As posturas municipais

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Eu era rapazote quando vi falar nisso pela primeira vez. A roda formara-se na calçada de seu Antônio Leal da Fonseca, na hora do pão-certeira, ele dono da padaria e prefeito. Bem mais alto que nós todos, a gravata solta ao vento, e os seus olhos de verde esmeralda dando um brilho incomum às suas palavras.