Chama-se de " Invasão Britânica " a avalanche de bandas de rock inglesas que, na década de 1960, inundou o mercado fonográfico do...

A época de ouro do Bolero no Brasil

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Chama-se de "Invasão Britânica" a avalanche de bandas de rock inglesas que, na década de 1960, inundou o mercado fonográfico dos Estados Unidos e espalhou-se pelo planeta. Comandada pelos Beatles, a tropa era formada pelos Rolling Stones, The Animals, Herman's Hermits, The Kinks e outros grandes grupos.

Anos antes, o Brasil havia sido submetido a uma outra invasão musical, semelhante àquela provocada pelos ingleses. Foi a época de ouro do bolero, em sua romântica versão mexicana. Durante parte das décadas de 1940 e 1950, o bolero entrou, de forma avassaladora, nos rádios e nos espetáculos do país, exercendo inegável influência na música popular brasileira. A "Invasão Mexicana" se estendeu pelas décadas seguintes, como mostram os exemplos de duas obras-primas da nossa canção, que são boleros típicos:

Começaria Tudo Outra Vez
Gonzaguinha

Ao som desse bolero
Vida, vamos nós
E não estamos sós
Veja meu bem
A orquestra nos espera
Por favor!
Mais uma vez, recomeçar

Dois pra Lá, Dois pra Cá
João Bosco / Aldir Blanc

Meu coração traiçoeiro
Batia mais que o bongô
Tremia mais que as maracas
Descompassado de amor

O bolero, na forma que hoje se conhece, originou-se da Espanha e seguiu para Cuba, tendo lá se miscigenado com a música local, transformando-se em som ritmado e dançante. Da ilha caribenha, migrou, pela península de Yucatán, para o México, onde perdeu parte da sua força rítmica e suavizou-se em langorosas canções que, invariavelmente, falavam em desilusões, paixões impossíveis e amores desfeitos. Foi principalmente esse bolero asteca que aportou no Brasil, atraído, de início, pelos shows realizados em cassinos, quando aqui funcionavam regularmente. O país chegou a contar com aproximadamente oitenta casas de jogos legalizadas.

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Para o cronista Rubem Braga, naquele tempo “era tudo bolero, e o bolero era tão forte que pressionou o samba-canção, criou o sambolero... única força a enfrentá-lo foi o baião, mas quem o derrubou foi o general Dutra, fechando os cassinos; sem o dinheiro do jogo, adeus bolero”.
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A lei estabelecia que os impostos provenientes da operação dos cassinos deveriam ser destinados a obras beneficentes. Mas a tributação era feita de forma discutível, ao ponto de J. E. Macedo Soares, importante jornalista da época, escrever que o Brasil tornara-se “uma formidável empresa de pano verde” e que o governo “era sócio da jogatina”. O decreto de proibição dos cassinos, editado três meses após a posse do presidente Eurico Gaspar Dutra, considerava que “a tradição moral, jurídica e religiosa do povo brasileiro é contrária à exploração dos jogos de azar”. Dizem, porém, que a inspiração maior da decisão do presidente foi mesmo de sua esposa, Dona Carmela, conhecida como Dona Santinha por sua extrema religiosidade. Devoção tão forte que uma capela foi erguida no Palácio Guanabara para que ela pudesse cumprir suas orações.

O fechamento dos cassinos estancou a enxurrada de artistas internacionais que vinham se apresentar no Brasil e que eram, majoritariamente, cantores mexicanos de bolero, como Pedro Vargas, Tito Guizar e Trio Los Panchos. Esses músicos eram tão populares quanto Orlando Silva, Francisco Alves, Dalva de Oliveira ou qualquer outro entre os mais conhecidos cantores e cantoras brasileiros.

Que não se confunda este relato da grande penetração do bolero no Brasil (fato incontestável) com qualquer ilação relacionada à má qualidade das canções do citado gênero musical, o que não é verdadeiro. O bolero inspirou, e ainda inspira, melodias de grande qualidade. E o México se equipara a Cuba quando se trata de grandes compositores de boleros. Citamos alguns deles, do final da primeira metade do século 20, com suas músicas mais conhecidas:

A canção "Cuando Vuelva a Tu Lado", de Maria Grever, é repetidamente gravada e interpretada nos EUA, na versão "What a Difference a Day Makes" e muitos pensam que foi composta por algum músico norteamericano.
Alvaro Carillo: Sabor a Mi e Sabra Dios;
Maria Grever: Te Quiero Dijiste e Cuando Vuelva a Tu Lado *;
Luiz Demetrio: La Puerta e Quién Será?;
Consuelo Velasquez (grande pianista e compositora): Cachito e Besame Mucho;
Alberto Dominguez: Perfídia e Frenesi;
Roberto Cantoral: La Barca, El Reloj e Regalame Esta Noche.

O artista mexicano que deu projeção internacional à música do seu país foi Ángel Agustín María Carlos Fausto Mariano Alfonso Rojas Canela del Sagrado Corazón de Jesús Lara y Aguirre del Pino, mais conhecido, simplesmente, como Agustín Lara.
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Pianista, compositor, cantor, chefe de orquestra e poeta, Agustín era chamado por seus conterrâneos de El Flaco de Oro (O Magro de Ouro).

Agustin Lara teve a sua vida marcada por casos nebulosos que ele próprio se encarregava de tornar ainda mais ambíguos, ao dar veracidade às várias versões apresentadas. Esses episódios dramáticos que o envolveram compunham um autêntico dramalhão mexicano. Ele não era, como se dizia antigamente, um indivíduo bem apessoado, um homem “guapo”.

Muito magro, sisudo, usava dentadura postiça desde os vinte anos e ostentava na face uma cicatriz marcante, que se estendia do canto da boca até a orelha. Como teria surgido a cicatriz é um daqueles fatos misteriosos da vida de Lara. Entre as muitas versões, escolhemos a do brasileiro Zuza Homem de Melo, que diz que Lara teria comunicado a uma namorada o fim do romance; “inconformada, ela atacou-o enquanto dormia com uma adaga [...] É o primeiro episódio de uma série que o converteu em um verdadeiro mito do bolero mexicano”.

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Apesar dos seus parcos atributos físicos, Agustin Lara teve incontáveis romances e envolveu-se em seis casamentos, um deles com a atriz de cinema Maria Félix, considerada uma das mulheres mais bonitas do México. Suas composições eram atribuídas a motivações nem sempre verdadeiras, o que contribuiu para que se tornasse uma figura lendária. Conta-se que duas de suas mais conhecidas canções (Maria Bonita e Noche de Ronda) foram feitas para Maria Félix.

Um dos maiores sucessos de Agustin Lara teria sido composto para ser interpretado por José Mojica, cantor e ator mexicano. No auge da fama, Mojica abandonou a carreira artística para devotar-se ao amor de uma única Maria. Entrou na Ordem dos Franciscanos, passando a ser o frei José Francisco de Guadalupe Mojica. E foi vestindo o hábito religioso que o frade participou, em 1950, da primeira transmissão de TV no Brasil, cantando os amorosos versos de "Solamente Una Vez", de Agustin Lara. Outra faceta do El Flaco de Oro foi, sem nunca ter visitado a Espanha, compor uma série de canções dedicadas a cidades espanholas: Toledo, Sevilha, Madri, e a mais famosa delas, Granada. Dizem que Lara recebeu do então ditador espanhol Francisco Franco, como gratidão por ele ter reverenciado as terras castelhanas, uma mansão em Granada.


Em junho de 1952, em uma das oportunidades em que esteve no Brasil, Agustin Lara veio à Paraíba. Comandava a sua orquestra com 20 componentes e que tinha Consuelo Vidal como principal cantora. Fez apresentações na capital do Estado, na Rádio Tabajara e no Clube Astréa. Em Campina Grande, apresentou-se sob o patrocínio da Rádio Borborema, que fazia parte do mais poderoso grupo de comunicação do País na época, pertencente ao paraibano Assis Chateaubriand.

Agustin Lara morreu em 1970, na cidade do México. Tinha 70 ou 73 anos (até a sua idade é incerta). Foi enterrado no Panteão dos heróis nacionais, onde estão os restos mortais de outros artistas mexicanos, como os pintores Diego Rivera e Siqueiros.
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Há estátuas de Lara em várias cidades mexicanas. Mas não é somente em sua terra que ele é reverenciado. Los Angeles, Havana e Madri também têm suas estátuas de El Flaco. Na capital paraibana não há ruas ou praças com nomes de Dorival Caymmi, Pixinguinha, Cartola, Antonio Carlos Jobim ou mesmo dos paraibanos Zé Marcolino ou Zé do Norte. Mas, um atuante edil do município, muito provavelmente amante dos boleros, não se esqueceu do Magro de Ouro. Por isto, a Cidade de Nossa Senhora das Neves conta, no bairro Cristo Redentor, com uma rua chamada Compositor Agustin Lara.


Flávio Ramalho de Brito é engenheiro e articulista
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  1. Amigo, começar o fim-de-semana ao “som” escrito de um delicioso bolero, como posso chamar este texto tão amplo, tão bem escrito, é convidar para tomar um rum com cocacola às 7 horas da manhã.
    Que texto! Quanta riqueza.
    E que bela moldura, esta do Ambiente de Leitura!
    Parabéns, Flávio.

    ResponderExcluir
  2. Amigo, começar o fim-de-semana ao “som” escrito de um delicioso bolero, como posso chamar este texto tão amplo, tão bem escrito, é convidar para tomar um rum com cocacola às 7 horas da manhã.
    Que texto! Quanta riqueza.
    E que bela moldura, esta do Ambiente de Leitura!
    Parabéns, Flávio.

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