A partir do final dos anos 1950 até meados de 1970, as suas músicas estavam sempre entre as mais tocadas nas rádios de todo o país. Compôs...

O sentimental trovador da alma do povo

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A partir do final dos anos 1950 até meados de 1970, as suas músicas estavam sempre entre as mais tocadas nas rádios de todo o país. Compôs mais de mil canções, de todos os gêneros: baião, fado, tango, samba, bossa-nova, música de natal, marcha-rancho e até samba-enredo. Mas tinha uma habilidade especial nos boleros e nas canções marcadamente românticas. Todas as suas músicas tinham em comum uma característica: caíam no gosto popular. Ele era o que se chama, atualmente, um hitmaker. Além do mais, os seus grandes êxitos não ficaram restritos àquele determinado período temporal. Continuam a ser regravados e cantados pelo povo.

Este grande compositor popular, que se chamava Evaldo Gouveia, faleceu no dia 29 de maio deste ano (2020), quando se aproximava dos 92 anos de idade. Estava com problemas de saúde e foi uma das vítimas da COVID-19. Quase não houve registro, na mídia em geral, sobre o seu falecimento. Se vivesse em um país em que os valores da cultura nacional fossem reconhecidos, ele certamente teria sido reverenciado com as honras e homenagens devidas, como escreveu, indignado, o jornalista José Trajano, três dias depois da morte do compositor, criticando o que ele considerava um desrespeito à obra de Evaldo Gouveia:

“O brasileiro prefere valorizar tudo o que é de fora. Se o cearense Evaldo tivesse nascido na França… nos States... na Inglaterra... teríamos no mínimo livros, coletâneas de discos e CDs, peça de teatro falando de suas serestas, sambas, canções, sambas-canções e músicas de dor de cotovelo... Quem se mete a entendido da MPB tem que saber mais ainda quem foi o Evaldo Gouveia... Porém, o Evaldo Gouveia morre no fim de semana em Fortaleza e pouca gente escreve sobre um compositor de mais de mil músicas, sabe-se lá quantos sucessos nas vozes de Altemar Dutra, Nélson Gonçalves, Ângela Maria, Cauby Peixoto, Jair Rodrigues, Maysa...”

Nascido em Orós, Evaldo Gouveia passou a sua infância em Iguatu. O pai abandonou sua mãe quando ele tinha cinco anos e, aos onze, a família se mudou para Fortaleza. Ainda adolescente, trabalhou como feirante para ajudar nas despesas da sua casa. Desde os tempos em Iguatu, já gostava de cantar e tocar violão. Incentivado por amigos, participou de um programa de calouros em uma rádio da capital cearense. Durante seis semanas seguidas, tirou o primeiro lugar no concurso e foi contratado como cantor pela emissora. Na mesma época, com a idade aumentada, tocava violão na noite da cidade.

No Ceará, Evaldo Gouveia formou, com mais dois amigos, um trio vocal, o Trio Nagô, que se apresentou em várias cidades nordestinas, entre elas Campina Grande. No início dos anos 1950, o grupo foi convidado a se apresentar em São Paulo, onde fez grande sucesso. A partir daí, Evaldo e seus companheiros decidiram se fixar no Rio de Janeiro. Durante sua existência de cerca de uma década, o Trio Nagô foi um dos principais grupos vocais do país. O trio excursionou por vários países e ficou quase um ano na França, onde gravou alguns discos. Entre os maiores sucessos da banda destacam-se a toada Prece ao Vento e a guarânia "Cabecinha no Ombro".

Paralelamente às suas atividades com o Trio Nagô, Evaldo Gouveia começou a fazer suas primeiras composições, uma delas “Deixe que Ela se Vá” teve grande repercussão na voz do cantor Nelson Gonçalves. Mas, foi a partir do seu encontro com Jair Amorim, jornalista e letrista já renomado (“Ponto Final”, “Alguém como Tu”, “Conceição”),
que Evaldo Gouveia firmou uma parceria que foi a mais longeva e produtiva da música popular do Brasil.

Durante mais de trinta anos a dupla "Evaldo Gouveia — Jair Amorim" produziu inúmeras canções que, pela empatia com o gosto popular, são executadas até hoje. Evaldo, embora sem formação musical, era um compositor intuitivo e grande melodista. Jair escrevia letras com construções simples, mas sem resvalar na vulgaridade. Foi uma combinação perfeita para atingir o sentimento popular.

O apogeu da produção dos dois compositores se deu na década de 1960, nos últimos anos da chamada Era do Rádio, quando a radiofonia ainda era a maior divulgadora da música popular. Uma das canções mais remotas na minha memória é uma composição da dupla. Quando menino, em Alagoa Grande, no interior da Paraíba, na casa do meu avô, eu ouvia, incontáveis vezes, de um alto-falante instalado no pavilhão da festa da padroeira da cidade, a voz anasalada do baiano Anísio Silva cantando:


“Alguém me disse Que tu andas novamente De novo amor, nova paixão Toda contente Conheço bem tuas promessas Outras ouvi iguais a essa... Esse teu jeito de enganar Conheço bem...”
“Alguém me Disse” foi o primeiro grande sucesso nacional da parceria de Evaldo Gouveia com Jair Amorim. A música, composta há seis décadas, continua a ser executada. Faz poucos anos, a canção foi regravada por Gal Costa, Emílio Santiago, Tânia Alves e Ana Carolina.

Seguindo a mesma linha de boleros e canções românticas, Evaldo Gouveia e Jair Amorim compuseram “Onde Estarás?” (Onde estarás, nesta hora, onde estarás?...), “Ninguém Chora Por Mim” (Mas, se um dia eu tiver que chorar / Ninguém chora por mim...), “Poema do Olhar” (Em teu olhar / Busquei perdão / Busquei sorriso e luz), “E a Vida Continua” (Tu passas pela rua / E a vida continua ...).


Em 1963, Altemar Dutra, um jovem cantor iniciante, com voz inteiramente adequada àquele estilo de músicas desbragadamente sentimentais que eram feitas por Evaldo Gouveia e Jair Amorim, começou a gravar canções dos dois compositores, tornando-se o principal intérprete da dupla, colecionando um sucesso atrás do outro: “Tudo de Mim”, “Somos Iguais”, “Brigas”, “Serenata da Chuva”, “Que Queres Tu de Mim”, “Sentimental Demais”.


A parceria de Evaldo e Jair não ficou restrita apenas a músicas demasiadamente sentimentais. Eles fizeram uma bossa nova de alto estilo (Garota Moderna) e um samba que se iguala aos feitos pelos mestres (O Conde). Enveredaram, também, na trilha das marchas-rancho e deixaram duas das melhores do gênero: "Bloco da Solidão" e "O Trovador".


“Sonhei que eu era um dia um trovador Dos velhos tempos que não voltam mais
Cantava assim a toda hora As mais lindas modinhas De meu Rio de outrora Sinhá mocinha de olhar fugaz Se encantava com meus versos de rapaz Qual seresteiro ou menestrel do amor A suspirar sob os balcões em flor Na noite antiga do meu Rio Pelas ruas do Rio Eu passava a cantar novas trovas Em provas de amor ao luar..."
A grande façanha dessa dupla de talentosos compositores foi fazer, no Rio de Janeiro, um samba-enredo para uma Escola de Samba. Em 1974, a Portela foi a vice-campeão do desfile de Escolas de Samba com um samba-enredo, que tirou a nota máxima no concurso, “O Mundo Melhor de Pixinguinha” (Lá vem Portela / Com Pixinguinha em seu altar...), com a assinatura na autoria de Evaldo Gouveia e Jair Amorim.

O último grande sucesso popular da dupla foi o “Tango Pra Tereza”, gravado pela cantora Ângela Maria: (Hoje alguém pôs a rodar / Um disco de Gardel no apartamento junto ao meu / Que tristeza me deu...).

Com a morte de Jair Amorim, em 1993, Evaldo Gouveia continuou compondo com outros parceiros de gerações mais novas, os mais recentes foram o cearense Fausto Nilo, o piauiense Clodô Ferreira e, com mais constância, um dos maiores letristas do país, Paulo César Pinheiro, com quem fez várias canções: “Preciso de Alguém”, Entre o Mar e o Sertão, “Pôster”, “Lembranças de Amor”, “Minha Alma Gêmea”.

O que se sabe é que a música de Evaldo Gouveia nunca foi muito bem aceita por certa elite econômica e por alguns pretensos intelectuais do país, que têm sabido desprezo pelas manifestações culturais nascidas do povo ou que sejam do gosto popular, como são as canções dele. Talvez as palavras que Aldir Blanc colocou em “Querelas do Brasil”, sua parceria com Maurício Tapajós, expliquem o silêncio que cobriu o falecimento de Evaldo Gouveia e o descaso com que é tratada a sua obra:

“O Brazil não conhece o Brasil [...]
O Brazil não merece o Brasil”.

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  1. Ângela Bezerra de Castro14/12/20 16:09

    Competente e oportuno esse texto sobre o grande compositor Evaldo Gouveia. É preciso denunciar sempre a conspiração do silêncio que se impõe como uma praga sobre muitos dos nossos valores. Enquanto isso um rio de mediocridades inunda os meios de comunicação. Cantores da mais alta qualidade interpretaram as inesquecíveis composições que embalaram encontros, desencontros e todas as nossas dores de amor. Tal como as trilhas dos grandes filmes, essas músicas se eternizam em nossa memória, como parte das emoções vividas e têm o poder de restaurar o tempo, de recuperar "as coisas findas, muito mais que lindas". Custei a adormecer, solfejando e, depois, cantando várias vezes o Bloco da Solidão. "Na frente, sigo eu / Levo o estandarte de um amor / Amor que se perdeu /. Fique certo de que muitos assinariam seu comovente protesto! Grande Evaldo Gouveia! "Aplaudam quem sorri / Trazendo lágrimas no olhar / Merece essa homenagem / Quem tem forças pra cantar / Tão grande é minha dor / Pede passagem quando sai / Comigo só, lá vai meu bloco, vai.

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  2. O comentário do nosso articulista, embora motivado por evento que não gostamos de viver, que é a perda de alguém de nossa estimação, veio em uma hora que se faz valiosa, pois nos leva a relembrar um dos grandes integrantes da época de ouro de nossa MPB.
    Evaldo Gouveia foi um dos muitos que, àquela época, interpretavam com maestria a alma brasileira, hoje tão vilipendiada por músicos e intérpretes de fancaria.
    É lamentável termos de viver aturando batuques os mais estranhos divulgados por um sistema de comunicação concedido pelo Estado a empresários de falsos propósitos, que usam dessa concessão para destruir todas as nossas raízes culturais.
    Já é hora de reagir contra esse estado de coisas.

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  3. [...] O Brazil tá matando o Brasil [...] Pois é, Flávio, Ângela exprimiu o meu sentimento. Lendo o produto da sua mais recente pesquisa, o tempo todo ouví a música. Ela fica dentro da minha cabeça, ouço o tempo. E tenho a certeza que logo mais terei dificuldades para dormir, tão impregnado que eu fiquei pela boa música que você nos trouxe, representada por canções cujas autorias eu imaginava serem de outros músicos.
    Deliciosa crônica! Viajei na música!
    Parabens, Flávio Brito!

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