Eis que amanhece um certo dia parecendo junho. Nuvens escuras enfeitam o céu que o sol tímido teima em aparecer, a terra e as plantas molha...

Gostinho de festa

ambiente de leitura carlos romero cronica conto poesia narrativa pauta cultural literatura paraibana clovis roberto orvalho terra umida chuva sabor da terra frutas tropicais chuva
Eis que amanhece um certo dia parecendo junho. Nuvens escuras enfeitam o céu que o sol tímido teima em aparecer, a terra e as plantas molhadas e a água empoçada pelos desníveis das ruas denunciam o desaguar noturno. Cajus e mangas feitos luzes ornamentam árvores pelos matos e casas, e os jambeiros dão o tom arroxeado ao chão de muitos terreiros e calçadas de moradas. Sinais natalinos de novembros e dezembros por estas terras abaixo do Equador. E feito loop temporal desembarcamos em outros tempos juninos, novembrinos e dezembrinos.

Sem máscara, a chuva traz lembranças do São João que não vivemos, dos natais desbotados. Com a terra e as folhas caídas e úmidas há uma alegria pelo calor atenuado. A aquarela multicolorida ornada pelos cajus, mangas e jambos em amarelos, verdes e roxos pelos galhos das vívidas árvores adocicam o ambiente. Festa de pássaros, sagüis, formigas e outros seres habitantes das matas que resistem e que beiram o Atlântico.

Até o travoso gosto do pedúnculo carnoso do caju, ora amarelo, ora vermelho, tão simbólico pelas litorâneas paragens é agradável para a língua, que volta à infância e adolescência e se vê a correr pelas trilhas e picadas nas matas em beijo moleque. O passo rápido ou a correria desatada quando saíam à caça de frutas e aventuras, catando conhecimentos direto da mãe natureza, é pressa dos pequenos com uma vida inteira pela frente.

Os caminhos curtos trilhados descalços rapidamente, inadvertidamente, alheios a qualquer ameaça que surja das estreitas margens formada por mato baixo, capim e troncos, sejam tocos, espinhos e até mesmo animais desavisados. De prêmios topadas, furos na planta dos pequenos pés desprotegidos que com o tempo criam uma espécie de casca, camada protetora natural. Nada incapacitante para não se retornar à cata de cajus, mangas, jambos, ou dos onipresentes cocos e as mais raras oliveiras, goiabas, araçás, jacas e graviolas de temporada.

Da fartura dependura nos galhos e camuflada por entre folhas, as frutas maduras que caem com a força da gravidade criam tapetes em decomposição pelo chão. Não são rejeitos, jamais desperdícios, são adubos para raízes famintas, vitaminas para as próprias árvores, alimentos para outras vidas, ciclos naturais.


E pelos caminhos, infantis gentes e gentis que também crescem e frutificam. Mergulhos em rios, banhos de alma, festa de meninos... Descontrole remoto, localização aonde as pernas de pequenos deuses tupiniquins podem levar e olhos atentos para a colheita do mato. Retornam as fruteiras coloridas de antes e "agoras" na estação do calor. Esticar a mão e colher vida, levá-la a boca e alimentar estômago, olhos, alma.

comente via facebook
COMENTE
  1. Parabéns👏👏 Clóvis Roberto👏👏👏👏excelente crônica ...extraída de nossos momentos vivenciados e saboreados.
    Paulo Roberto Rocha

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Das pedaladas, das observações, das passagens, da cidade velha da Parahyba, atual João Pessoa. Grato pela gentileza da leitura. Que bom que gostou.

      Excluir

leia também