O velho aprendiz agora é com vocês, jovens meus cabelos já caíram e as palavras estão feridas no último grão da semente que não g...

Enquanto os barcos acenam ao longe

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O velho aprendiz
agora é com vocês, jovens meus cabelos já caíram e as palavras estão feridas no último grão da semente que não germinou falem de helenas, sim nunca de uma única helena que a poesia não deve ser refém apenas daquela musa leiam os velhos poetas: sobretudo leminski, cabral, pessoa, augustos, drummond é com eles que aprenderão os novos tons versem sobre política, sim nunca sobre os políticos, que estes só merecem estrofes xingadas de atritos debulhem as palavras a serem usadas, separem, bem separado, o arroz do feijão : caroços que serão úteis deixem em forno brando, sem pressa para cozinhar os outros, ah, os outros, deixem pra lá não se frustrem pelo poema imperfeito: se fores poetas de verdade o verso preciso há de surgir antes do derradeiro pôr-do-sol , sem a pressa que aniquila a vaidade agora é com vocês, jovens façam seus poemas, mas não me mostrem: estarei ocupado tentando descobrir a poesia dos mestres e a linguagem que ainda não aprendi.
Poesia com T de tédio
quando soube que minha poesia tinha efeitos colaterais fechei meus verbos rasguei os versos e fui ler olavo bilac!
Gêmeos
para Lenilda, minha doce e pequena irmã
foi minha irmã minha doce e pequena irmã com os olhos da ressaca que não bebeu que acusou: você tem dupla personalidade! olhei de um lado e de outro mas não acusei o golpe como fazer entendê-la que estive em vários lugares ao mesmo tempo dancei castanhola na espanha e recitei sonetos de camões em lisboa sem sair de cajazeiras mas também escutei pancada por pancada a sucessividade dos segundos sem graça feito um augusto sem anjos mórbidos, não saí do boteco, tomando minha cachaça como ela vai ver o ir e vir de minhas retinas olhando ao longe e ao perto para o colo das meninas querendo repousar minha quimera em mais de um pensando apenas em deixar de ser um zumbi comum como explicar, à minha doce e inocente irmã, que as flores do mal povoam meu jardim que bebo absinto, trago erva e não trago nada no peito além da vontade de estar além de mim como escrever poemas, minha pequena irmã, quando não estou amando loucamente por isso sempre tenho um amor guardado no peito e outro repousando no espinho do meu leito como lhe sugerir que as fábulas mortas são apenas leituras la fontaines que a vida se abre na janela do seu quarto enquanto outra nasce em uma mesa qualquer de parto como sonhar junto com minha doce e profana irmã deitado, ao lado de freud, num mentecapto divã quando sou paz, sou calmaria e tempestade quando sou loucura e a agonizante busca da felicidade não, minha irmã não, minha doce e pequena irmã não, minha doce, pequena e inocente irmã não, minha doce, pequena, inocente e profana irmã não tenho dupla personalidade e nem tenho heterônimos, apesar do amor a pessoa tenho apenas a certeza de que não posso ser ilha enquanto os barcos acenam ao longe todos os dias cheio de corsários e damas de seios redondos fazendo o convite para o mar que se divide entre o atlântico e minha pacífica monotonia.


De “Metáforas para um duelo no sertão” (editorapatua.com.br)

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