Eu posso afirmar, com certo grau de verdade, muita coisa sobre a Iracema de José de Alencar, figura de ficção, mas não posso afirmar quase...

Iracema

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Eu posso afirmar, com certo grau de verdade, muita coisa sobre a Iracema de José de Alencar, figura de ficção, mas não posso afirmar quase nada sobre Iracema, pessoa tangível, minha vizinha.

Eu nunca falei com Iracema. Sequer a vi de perto. Nem mesmo sabia seu nome. De vez em quando, via, com gratuita simpatia, Iracema, mas apenas da janela deste apartamento, mirante eventual e sem propósito definido. Somente ontem, quando Marcos me falou que ela fora encontrada morta no quarto fechado por dentro, soube seu nome.

Que sei eu dessa Iracema? Que era negra, como tantas Iracemas; que parecia ser antiga, como poucas Iracemas. Teria irmãos, filhos, netos? A casa onde trabalhava é sempre visitada por dois netinhos, duas jandaias palradoras, que certamente chamavam o nome de Iracema. Mas teria alguém que a chamasse de mamãe, de vovó, de minha filha? Teria (ou tivera) sonhos, essa Iracema? Tivera um Martim?

Sempre que a via, estava trabalhando, varrendo, lavando o chão, limpando a frente da casa, recolhendo o lixo ou participando da higienização da feira que acabara de chegar. Esta, a parte visível. Acredito que deveria cozinhar também. Como acordo cedo, durmo tarde, e via Iracema de noite e de dia, deduzo que morava na casa onde trabalhava, sem horário definido, ou seja: fazia parte dessa espécie de santas que dedicaram (ou sacrificaram) a vida delas para que os outros pudessem desfrutar de sua própria vida integralmente. Essas algumas funcionárias domésticas que continuam ao arrepio da lei e recebem mais alguns trocados para trabalhar em plantão permanente, são, antes de tudo, profundamente generosas, pois estão ofertando, sem que lhe agradeçam, todos os dias, a sua existência por inteiro à casa onde trabalham.

Uma coisa posso afirmar dessa Iracema: ela tinha a virtude cristã da caridade, que o mundo possivelmente não teve com ela. Na tarde que antecedeu a noite de sua morte súbita, Iracema, que certamente não ganhava mais do que o salário mínimo, procurou Marcos, o zelador do prédio onde moro, para lhe dar, desculpando-se pelo atraso, a sua festa de Natal – gesto que repetia todos os anos. Ou seja: partilhava o pouco que ganhava com alguém que ela sabia também ganhar pouco e precisar mais do que ela.

Similar à Iracema de Alencar, que pode ser entendida como uma metáfora da América colonizada, Iracema, minha vizinha, tão próxima e tão distante, caberia nesta metáfora.

A Iracema de Chico Buarque voou para a América e foi lavar chão. A nossa Iracema voou para o céu para pisar, distraída, num chão de estrelas que nunca precisa ser lavado.

As palavras finais de Iracema, de Alencar, dizem o seguinte:
“As jandaias cantavam ainda no olho do coqueiro; mas não repetiam já o mavioso nome de Iracema. Tudo passa sobre a terra.”

Há um mote antigo, glosado por cantadores, que diz o seguinte:

“Tudo passa: na terra, tudo passa, Mas nem tudo que passa a gente esquece.”

Não façamos como as jandaias: repitamos o nome generoso de Iracema.


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  1. Lindo e tocante texto, que mistura sensibilidade literária e conhecimento social da realidade. Algo tocante nas duas "Iracemas" é o seu silêncio político, o deixar que outros falem por elas. Espero que um dia essas "Iracemas" tenham voz e decidam sua própria vida.

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