Havia, tempos passados, um rapaz que saía anotando num caderno as placas dos carros estacionados nas ruas. Consideravam-no um maníaco. Ma...

Anotador de placas

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Havia, tempos passados, um rapaz que saía anotando num caderno as placas dos carros estacionados nas ruas. Consideravam-no um maníaco. Mal trajado, lápis na mão, não falava com ninguém. Robotizado pelo seu comportamento esdrúxulo.

Todos os passantes ficavam a estranhar aquela atitude inócua, perdulária, sem objetivo algum. Por que assim agia? Sabe-se lá. Um guarda de trânsito (figura dispensada pelo advento dos semáforos) vitimado pela aposentadoria? Algum maníaco? Veio a hipótese de que poderia ser um ansioso por possuir um carro. Sei não.

Comentavam nas bancas de jornais (hoje restam heroicas sobreviventes) que o esquisito vivente anotador de placas de autos fora rico, noutros tempos. O pai prometera a ele um automóvel, caso passasse no vestibular; não cumpriu a promessa, foi adiando, faleceu sem deixar herança vultosa e o filho (único, por sinal) começou a adquirir a fantasia posta em prática, alguns anos depois.

O pai extinto, diga-se de passagem, era simples funcionário público, e o que ganhava mal dava para o sustento familiar. Se quando o personagem estava em plena compulsão estranha, alguém o houvesse fotografado, daria um documento insofismável. Os fotógrafos da época (lembro seu Alípio, os irmãos do Foto Condor, Stuckert, seu Lira, etc.) se restringiam aos chamados studios instalados nos estabelecimentos, onde se tiravam de fotos 3x4 a amplos postais; também registros de eventos, quando chamados para documentar as cerimônias em casas ou igrejas.

Hoje, o smarfone favorece (e como!) a expansão e “democracia” na captura dos flagrantes, às pampas (como se dizia antigamente). Com certeza o rapaz anotador das placas seria objeto de apreensão fotográfica de algum ou alguns que o notassem naquele hábito diário e assíduo, principalmente na desfeita rua São José (atual Desembargador Souto Maior) e entornos da Lagoa, ruas adjacentes, etc.

O certo é que nunca se pôde aquilatar, nem desvencilhar o fenômeno cultivado pelo anotador de placas. Contam que houve uma discussão entre ele e o dono de um automóvel luxuoso, novinho, saído do forno da concessionária. É que o proprietário do objeto móvel notou um risco de grafite numa das portas do veículo de estimação e partiu para o pobre maníaco. Indagou por que fora feito o arranhão. Dizem as testemunhas que presenciaram a chocante cena que o acusado, em simplória ingenuidade, respondera: “o carro do senhor não tem placa para eu anotar”.

Apartaram a briga, explicaram ao dono do auto que o homem do caderno era um débil perambulante pelas ruas e praças. Fico a pensar sobre o comportamento inusitado do desconhecido e anônimo que me fez escrever este depoimento reminiscente, quando, postado a uma árvore assistia ao movimento das pessoas no Parque Solon de Lucena (outros o chamam Parque da Lagoa). Eram dois senhores, um deles usando chapéu, que sorriam ao comentar a ação sem sentido do anotador de placas. Sem saber, procurava o automóvel que o pai não pudera lhe presenciar.

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