Todas aquelas tardes no lombo do seu carneinho que tinha sido presente do avô, José Paul...

Carlinhos, menino perdido

literatura paraibana veronica farias doidinho menino de engenho jose lins rego
Todas aquelas tardes no lombo do seu carneinho que tinha sido presente do avô, José Paulino, Carlinhos passeava pelo engenho, brincava com os meninos, visitava a vizinhança, os colonos e também proseava um pouco. Era muito querido pelo pessoal do engenho.

Naquele dia seria o dia da tia Totonha visitar Santa Rosa, engenho pertencente ao seu avô materno. A expectativa da visita fazia com que o coração do menino explodisse em alegria pura. Ela tinha o talento de contar histórias de contos de fada, que eram transportados para os tempos deles lá na vida do engenho.
Contava-os com tanta singeleza e sutileza que todos viajavam nas narrativas dela. Tia Totonha descrevia magias e encantos nas mentes juvenis das crianças locais com sua mente muito criativa.

Foi inesquecível o dia em que tio Juca o levou para o primeiro banho de rio. Aquele mundão de água, aquele frescor, aquela liberdade. Foi indescritível. Ao final, tio Juca disse que a partir daquele momento ele estava batizado e era um verdadeiro matuto.

A enchente do rio veio de repente, após horas de chuvas torrenciais. O nível da água ultrapassou a altura do cercado do engenho. A linha de ferro foi arrastada a mais de 1km. Foram todos para o Engenho São Miguel. O avô de Carlinhos acudiu os flagelados que perderam todas as suas casas que também foram arrastadas pelas águas. Contudo, na sua visão de criança, nada de triste deixava enxergar a tragédia. Estava muito feliz porque todos iriam viajar de carro de boi. Toda a safra de açúcar do Engenho Santa Rosa havia sido danificada e os lavradores perderam os seus leirões de jerimum e de batatas.

Tia Maria, irmã da mãe de Carlinhos, era tida por ele como uma segunda mãe. A sua figura maternal, os seus cuidados desde o primeiro dia em que chegou no engenho. Tratava-o com muito amor e carinho, sempre presentes na vida dele.

Estava no terreiro Carlinhos, a brincar com o seu pião e inesperadamente o pião resvalou de suas mãos indo alcançar os pés da tia Sinhazinha. Foi um acontecimento que a enfureceu e em um acesso de fúria ela deu uma surra na criança. Ele sentiu duplamente a dor, uma vez que esta teria sido a primeira surra da sua vida. A partir do acontecido ele passou a odiá-la com todas as suas forças. Por natureza, tia Sinhazinha era uma pessoa muito difícil de se tratar e de se lidar.

Ah! As tardes que Carlinhos passava ao lado de Maria Clara! Os piqueniques embaixo dos cajueiros , as conversas, os passeios, o primeiro beijo roubado, a sintonia da amizade bonita que eles dividiam. Ele não tinha dúvidas; era amor verdadeiro, tão leve, tão sublime; Até o dia em que Maria Clara teve que voltar das suas férias no engenho, e retornar para sua casa em Recife. Carlinhos a viu tão feliz com a expectativa da viagem de volta, despertou no menino muita tristeza e desconsolo. Se sentiu esquecido, abandonado e só. Passaram-se alguns dias até que se recuperasse das doces lembranças do seu primeiro amor.

Menino de Engenho é uma obra memorialista que foi escrito por José Lins do Rego (1901-1957) e publicado em 1932.
Foi custeado pelo próprio autor e se tornou um dos livros mais aclamados pela crítica brasileira e estrangeira, uma vez que existem traduções publicadas em mais de 10 idiomas. Dentre os vários aspectos retratados no romance, se destaca a decadência do Nordeste Canavieiro, a transiçãos dos engenhos para as usinas, o paternalismo e o autoritarismo dos senhores de engenho. É um romance com linguagem coloquial (prosa regionalista ), com uma singularidade na escrita. É o primeiro livro de José Lins do Rego, dentre os diversos escritos pelo autor, que descreve e abre a temática do ciclo da cana de açúcar. É um dos livros mais importantes da literatura brasileira pertencente a segunda Fase Modernista.

O menino que aos 4 anos de idade se muda para o engenho do avô materno José Paulino observa a sua existência se transformar com maravilhosas passagens da vida simples do engenho. Sofre mudanças emocionais profundas e marcantes. É induzido precocemente pelo seu tio Juca a uma conduta libidinosa exacerbada e contrai doença venérea aos 12 anos de idade. Alceu Amoroso Lima, considerado um dos maiores críticos literários brasileiros do século XX, ressalta o valor de José Lins do Rego afirmando que o autor atingiu o coração dos brasileiros. Que a sua força literária de romancista, reflete um problema social unicamente nosso, a agonia de uma casta, o fim do patriarcado.

Raquel de Queiroz foi convidada para escrever o prefácio da obra em seu quadragésimo aniversário desde a primeira edição. Nele, a autora narra a proximidade e amizade com o autor. Destaca que era um homem de muitas leituras, mas que a sabedoria do bom literato não consentiu que suas obras transparecessem os seus saberes. A espontaneidade era o principal encanto dele. Principalmente pela grande ternura de se dar e de se fazer amar. Afirmou ela que José Lins do Rego viverá enquanto houver Literatura Brasileira. O “contar” histórias era uma imposição da natureza dele, que fluía desesperadamente, naturalmente.

O livro me encantou porque é singelo na escrita, e, ao mesmo tempo um registro crítico entre as suas várias narrativas cortantes e tristes, a tal ponto de sentirmos o sofrimento de todos.

José Lins afirma em um dos trechos:

“ A Lei Áurea não serviu de nada porque sobrou a luta nos engenhos, luta árdua, no plantio, no cultivo, na colheita da cana e o que os pobres ganhavam nem dava para o bacalhau que comiam”.

GOSTOU? DEIXE O SEU COMENTÁRIO!
SUA PARTICIPAÇÃO É IMPORTANTE. COMENTE!
  1. Parabéns Verônica pelo ótimo resgate de nossa cultura. Belo texto! 🙌

    ResponderExcluir
  2. Salvas👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏
    Verônica Maria Farias
    Para〽️〽️〽️〽️〽️〽️〽️〽️〽️〽️〽️〽️〽️〽️
    pelo belo texto ...dedicado à José Lins do Rego!!!
    Paulo Roberto Rocha

    ResponderExcluir

leia também