Início deste ano, recebi com muita desconfiança os votos de “Feliz Ano Novo”, mesmo vindo de pessoas de minha benquerença. Não precisava...

Lágrimas temporãs

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Início deste ano, recebi com muita desconfiança os votos de “Feliz Ano Novo”, mesmo vindo de pessoas de minha benquerença. Não precisava ser nenhum adivinho, usar bola de cristal ou jogar sobre a mesa cartas de tarô. Estava evidente que o ano ia ser difícil. E está sendo.

É complicado viver tempos em que de uma hora para outra nos surpreendemos com a notícia de que mais um ente querido não escapou e passa a alimentar essa estatística perversa que nos amedronta. Somos obrigados a carpir essas mortes no mais absoluto recolhimento, sem proporcionarmos o abraço confortante àqueles que terão de digerir em solidão monástica essas perdas irreparáveis. Derramarão suas lágrimas sem o consolo solidário, sem um ombro amigo. Muito triste tudo isso.

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Eu venho escapando, trancafiado em casa sob a vigilância severa e obstinada de um despotismo de saias que me mantém cativo, mas me faz driblar as estatísticas. Aprecio isso. É uma doce tirania, pois sou obrigado a entender suas intenções. Mas é difícil a rotina imposta por essa lei marcial caseira. Vejam só: nada de praia para estudar aquelas geografias morenas, a cervejinha com os amigos nem pensar, nada de sábado na Livraria, nada disso, nada daquilo, nada, nada.

Essas restrições a gente vai suportando, mas as perdas...

Está aí um assunto do qual eu estava fugindo, mas Gonzaga Rodrigues, neste sábado, 5 de março de 2021 da Graça do Senhor, fez-me abraçar o tema novamente. Explico.

Comecinho de fevereiro, no espaço de uma semana, tiraram de minha convivência duas criaturas da maior qualidade. O primeiro foi Toninho, professor de Matemática que durante quase uma década em que morei em Bauru dividiu comigo a lousa, o giz e nas tardes de sábado, a churrasqueira. Vítima da pandemia se foi aos 53 anos. Não esteve aqui a passeio. Deixou um legado incomparável, fruto de sua inteligência ímpar e de sua generosidade. Só quem conheceu Toninho poderia corroborar essas minhas palavras.

Minha maneira de homenagear esse meu camarada, foi escrever para seus filhos, Bruno e Laura, um texto que publiquei no portal JCNET (Bauru). É o que eu sabia e podia fazer. Estava eu ocupado com essa tarefa numa manhã de sábado quando me liga Paulinho (Paulo Emmanuel, filho de Gonzaga).

— Paiva, tenho uma notícia triste.

— O que foi?

— Martinho faleceu — fazia alguns minutos que acontecera.

Foi a segunda desdita em tão pouco tempo. Não sei explicar o que senti. Deu vontade de pedir: Deus para com isso! Passei o fim de semana recolhido, As cervejinhas que tomo domingo pela manhã ganharam sobrevida de mais uma semana num canto da geladeira. Nem me lembro mais o que fiz naqueles dias.

Depois vieram as justas homenagens ao Grandão (era desse jeito que eu tratava Martinho), muita gente escreveu sobre ele. Os textos, cada um mais terno e emocionante que outro. Tanta gente de qualidade. Achei que seria muito atrevimento escrever alguma coisa. Afinal, conheci Martinho, fazia pouco tempo. Minha convivência com ele era recente. E apenas o vi pessoalmente uma vez quando eu, Gonzaga Rodrigues, Ana Adelaide, Mariângela Sitônio e João Batista de Brito nos reunimos em um almoço. Foi só.

Convivência breve, mas toda semana nos falávamos pelo WhatsApp, cada um comentando o que o outro escrevia. Quando havia uma pausa eu desconfiava que a saúde dele não estava lá essas coisas. Não foi a COVID19 que o levou.
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Não importa, ele era muito importante por aqui. Conheci Martinho no dia 2 de dezembro de 2018. Na segunda página de A União um artigo dele: ”Voa passarinho, voa!”. Era um comentário elogioso (não creio de tão merecido) sobre um conto meu, “O canarinho que falava”, publicado no Correio das Artes. Daí a proximidade. Liguei para ele no mesmo dia. Eu sempre fora admirador de seus textos, mas a reciprocidade me surpreendeu, ainda mais vindo de quem veio.

Depois desse último 5 de fevereiro, resolvi cobrir meu luto de silêncio. Não saberia escrever melhor do que fora publicado sobre ele. Mas nesse sábado Gonzaga me apunhalou. Começou sua crônica com uma pergunta que Martinho teria feito para ele: Lesse Paiva, hoje? Entendi o alcance do que Martinho perguntara e do que o querido Gonzaga, agora, escrevera. Ambos sempre generosos.

Não mereço estar entre a plêiade dos que escreveram homenagens a MMF. Mas tive que aceitar a provocação de Gonzaga e ficam aqui, para vocês dois, meu caro Neguinho, esses rabiscos (foi o máximo que consegui) ao custo de duas lágrimas temporãs, uma de agradecimento, outra de saudade. O resto é silêncio.

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