A vida ensina que eles nem sempre coincidem. Aliás, melhor dizendo, quase nunca eles coincidem. E não raro eles se excluem um ao outro. ...

O bem e o bom

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A vida ensina que eles nem sempre coincidem. Aliás, melhor dizendo, quase nunca eles coincidem. E não raro eles se excluem um ao outro. Daí a necessidade constante de optar-se entre um e outro, já que dificilmente pode-se ter os dois ao mesmo tempo. E essa opção constitui-se como fundamental na vida de cada um e, também, uma das principais questões da filosofia moral, a Ética.

O bom, sabemos, é o prazeroso e o vantajoso. Ou seja, o que atende aos nossos desejos e apetites sensoriais, assim como às nossas vaidades e ambições. Dando nomes aos bois, como se diz, o sexo, o dinheiro e o poder, com tudo que lhes seja correlato. Aí está, pelo menos para a imensa maioria dos mortais,
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a morada do bom, a dimensão “apetitiva” da existência.

Já o bem, também sabemos – ou intuímos -, é o certo, o correto, o honroso, tudo aquilo que é conforme a moral, e que muitas vezes reside justamente no lado oposto do que é bom, de tal maneira que nos obriga a escolher entre eles, quando é impossível a convergência de ambos. Aqui temos a dimensão “virtuosa” da vida.

A pergunta que os filósofos, desde Platão, nos fazem é: “Como lidar com as situações nas quais o que é certo, do ponto de vista ético, aponta um caminho, e o que é pessoalmente benéfico ou vantajoso, do ponto de vista dos nossos desejos e ambições, aponta outro?”

Gláucon, irmão mais velho de Platão, conta no segundo livro de “A República” a famosa fábula do anel de Giges. A estória é simples. Giges é um simples pastor nas terras do rei da Lídia, perfeitamente submetido, como a maioria de seus semelhantes, às normas morais e sociais vigentes. Um dia, encontra um anel e descobre que, girando-o no dedo de um certo modo, pode tornar-se invisível. Consciente desse artifício, cuida de eleger-se como delegado à corte do soberano, corteja e seduz sua rainha, assassina o monarca e assume o trono, sem nenhuma preocupação com a falta de ética de suas ações, apenas dando livre vazão, e agindo sob o manto da invisibilidade, à sua vaidade, seu desejo e sua ambição. Entre o bem e o bom, Giges, sem titubear, fica com este último.

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Platão e os filósofos subsequentes vão, cada qual ao seu jeito, discutir as implicações morais dessa fábula, que chegou intacta e atual aos nossos dias, como bem prova o mais recente livro de Eduardo Giannetti, “O anel de Giges”, publicado pela Companhia das Letras. O filósofo mineiro percorre, desde Heródoto e Platão, a caminhada da questão provocada por aquele anel perigoso, colocando o leitor no lugar do simplório Giges e desafiando-o a manifestar-se, nem que seja de si para si, sobre as escolhas éticas que faria em situação idêntica à do pastor lídio.

Sim, esta a principal discussão do livro de Giannetti: o que cada um de nós faria se de repente encontrasse o anel de Giges e pudesse agir livre e impunemente sem ser visto pelos outros? Agiríamos no sentido do bem ou do bom? O certo é que, de uma forma ou de outra, o anel haveria de revelar nosso caráter. E poucos, pouquíssimos talvez passassem no teste. Será?

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Há quem acredite que o bem e o bom podem perfeitamente coincidir, de maneira constante e permanente. O platonismo e o cristianismo defendem isto. A experiência mostra, por outro lado, que é muito difícil essa convergência. Na esmagadora maioria dos casos, as pessoas sucumbem diante das tentações e trocam as virtudes pelos vícios, mais prazerosos. É humano? Sim, demasiadamente humano, diria Nietzsche. Que fazer?

Rousseau, em seu último livro, “Os devaneios do caminhante solitário”, dado à luz em 1782, refletiu sobre o famoso anel. E foi muito sincero, admitindo sua fraqueza e a probabilidade de vir a fazer coisas injustas e incorretas protegido pela invisibilidade. Escreveu ele: “Se eu tivesse possuído o anel de Giges, ele me teria feito independente dos homens e os teria feito dependentes de mim. Eu com frequência especulei, em meus castelos no ar, como teria usado esse anel, visto que num caso assim o poder será forçosamente seguido de perto da tentação de abusar dele”. E aí conclui: “Tudo considerado, penso que o melhor é jogar fora meu anel mágico antes que ele me faça cometer algo tolo”.

De minha parte, penso que essa solução de Rousseau é a que escolheria, levando em conta a célebre advertência de Oscar Wilde de que “pode-se resistir a tudo, menos a uma tentação”. Melhor que enfrentar riscos é não corrê-los, ensinam-me meus cabelos grisalhos. Fosse jovem, talvez agisse como Giges, é muito possível. Mas cada qual deve encarar o desafio do anel a seu modo, surpreendendo-se ou não com suas decisões. O livro de Giannetti, que recomendo, ajuda-nos a refletir sobre tudo isso e a conhecermo-nos melhor.

A invisibilidade e a certeza da impunidade são provavelmente as maiores reveladoras de nossa índole. Estaremos prontos para o teste do anel?

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  1. Belissimo texto!!Francisco Gil Messias👊👊👊👊👊👊👊👊👊👊👊
    Abordadndo os dois momentos/ tempos~~"""O bem e o bom"" como agiriamos!!!??
    Paulo Roberto Rocha

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  2. Excelente, Gil! Jogar fora o anel equivale, na linguagem de Freud, a equilibrar o princípio de prazer com o princípio de realidade. A busca incessante dos prazeres leva ao sacrifício de outros, que certamente vão reagir. Para evitar o risco, o melhor é se moderar.

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